# American College of Pediatricians: um nome oficial que não representa a pediatria

> Grupo fundado em 2002 reúne cerca de 700 médicos e é classificado como grupo de ódio anti-LGBTQ+. Entenda por que ele não fala pela pediatria e como identificar a desinformação que ele espalha.

- Tema: Saúde e bem-estar
- Tags: desinformação, saúde trans, pediatria, direitos trans, checagem, estados unidos
- URL: https://camarimcross.com.br/a/american-college-of-pediatricians-um-nome-oficial-que-nao-representa-a-pediatria
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/politics/medicine/pediatrics/american-college-of-pediatricians)
- Atualizado: 2026-10-31

## Um nome que soa oficial — e não é

Se você já viu manchetes do tipo "pediatras americanos dizem que..." em matérias sobre saúde de pessoas trans, é bem provável que a fonte fosse o **American College of Pediatricians (ACPeds)**. O nome imita o da **American Academy of Pediatrics (AAP)**, a entidade de verdade que reúne a categoria nos Estados Unidos. Só que as duas não têm nada a ver uma com a outra — e a diferença de tamanho explica muita coisa.

O ACPeds foi criado em 2002 por Joseph Zanga e Gerry Boccarossa, logo depois que a AAP publicou um relatório apoiando a adoção por pessoas LGBTQ+. Desde então, o grupo se consolidou como uma voz ativa contra os modelos de cuidado que afirmam a identidade de crianças e adolescentes trans. Ele reúne por volta de 700 membros — algo em torno de 1% do tamanho da AAP, que tem cerca de 67 mil filiados e segue apoiando o cuidado afirmativo.

O Southern Poverty Law Center (SPLC) classifica o ACPeds como **grupo de ódio anti-LGBTQ+**, descrevendo-o como uma organização de perfil conservador que se apresenta como associação médica de ponta para divulgar ciência de baixa qualidade, principalmente via mídia de extrema-direita e pareceres judiciais em casos sobre adoção e casamento igualitário. A GLAAD também documenta o histórico do grupo: oposição ao casamento e à adoção por pessoas do mesmo gênero, ao aborto, ao acesso de jovens LGBTQ+ ao esporte, a eventos de leitura com drag queens — e apoio a modelos de "não afirmação", incluindo a chamada terapia de conversão.

## O que o grupo já publicou

- **2010 —** lançamento do site *Facts About Youth*, com uma seção dedicada ao que então se chamava de "transtorno de identidade de gênero".

- **2016 —** declaração de posição assinada por Quentin Van Meter, Michelle Cretella e Paul McHugh, pedindo que educadores e legisladores rejeitassem políticas que tratassem a transição como algo normal. O texto mistura afirmações sobre "sexo biológico binário" com alegações já contestadas sobre bloqueadores de puberdade e risco de suicídio.

- **2018 —** carta enviada ao governo Trump defendendo que a lei e as políticas públicas se baseassem numa "definição científica de sexo", assinada por dezenas de ativistas e lideranças de organizações religiosas e jurídicas conservadoras.

- **2021 —** criação do site *TransRegret*, em parceria com o Ruth Institute, voltado a pessoas com dúvidas ou arrependimento de transição — no estilo das campanhas que miram pessoas grávidas em situação de decisão.

- **2023 —** lançamento do site *Biological Integrity*, com informação enganosa sobre cuidados de saúde trans.

- **2024 —** petição "Doctors Protecting Children", assinada por entidades como a Associação Médica Católica e o grupo Genspect, entre outras.

## O vazamento de 2023

Em 2023, o ACPeds compartilhou por engano links para um Google Drive sem proteção com cerca de **10 mil arquivos**, incluindo dados de membros, informações financeiras e material de estratégia. A revista *WIRED* noticiou o caso, mostrando que boa parte do conteúdo mirava pessoas trans jovens e incluía farto material de marketing feito para circular entre gestores de escolas públicas e influenciar a relação entre pediatras, famílias e crianças. O episódio foi coberto também por *Mother Jones*, *Washington Post* e SPLC.

## Por que isso chega até o Brasil

Argumentos do ACPeds circulam traduzidos em grupos de WhatsApp e redes sociais por aqui, muitas vezes sem que ninguém saiba de onde vieram. Vale lembrar o que a realidade brasileira diz:

- O **Conselho Federal de Medicina (CFM)**, pela Resolução nº 2.265/2019, regulamenta o atendimento a pessoas trans, com critérios de idade e acompanhamento multiprofissional para hormonização e cirurgias.

- O **SUS** oferece o Processo Transexualizador em ambulatórios de hospitais universitários espalhados pelo país.

- Em 2019, o **STF** enquadrou a LGBTfobia na Lei do Racismo (ADO 26 e MI 4733).

- O **nome social** é garantido na administração pública federal desde 2016, e o STF (ADI 4275, 2018) firmou que a alteração do registro civil não exige cirurgia nem laudo.

- A **terapia de conversão** é vedada pelo CFM desde 1999 — não é tratamento, e sim prática desacreditada.

Nenhum desses avanços veio de "moda" ou de influência externa: são respostas a demandas concretas de saúde pública.

## Como reconhecer esse tipo de desinformação

- **Desconfie de nomes parecidos com entidades reais.** Sempre confira a sigla e o número de filiados.

- **Procure a sociedade médica de referência do seu país.** No Brasil, CFM, Sociedade Brasileira de Pediatria e associações de saúde trans são mais confiáveis do que sites criados por um grupo ativista.

- **Cuidado com relatos isolados e "estudos" sem revisão por pares.** Alegações sobre bloqueadores de puberdade e suicídio costumam ser distorcidas ou retiradas de contexto.

- **Cheque quem assina.** Petições com nomes grandiosos frequentemente reúnem organizações religiosas e jurídicas, não especialistas no tema.

## Onde buscar apoio de verdade

Se você está se entendendo ou acompanhando uma pessoa trans na família, procure ambulatórios especializados, profissionais de saúde mental com experiência em diversidade de gênero e grupos de apoio da comunidade. E lembre-se: trans, travesti, crossdresser, drag e não binário são identidades e expressões diferentes — nenhuma delas é doença, piada ou algo a ser "corrigido".

## Segurança

- Informações sobre saúde trans devem vir de profissionais e entidades de referência, não de sites ativistas que imitam nomes de sociedades médicas.
- Bloqueadores de puberdade, hormônios e cirurgias exigem acompanhamento médico especializado; não existem doses ou protocolos caseiros.
- Ao pesquisar o tema, proteja sua privacidade: use abas anônimas ou VPN se não quiser que o histórico fique associado à sua identidade.
- Terapias de conversão são práticas desacreditadas e vedadas pelo CFM no Brasil — procure redes de apoio, não "tratamentos".
