# Annelou de Vries, protocolo holandês e debates sobre cuidado trans

> Conheça a psiquiatra neerlandesa Annelou de Vries, sua atuação em saúde trans e por que seu nome aparece em disputas sobre avaliação, acesso ao cuidado e ética clínica.

- Tema: Saúde e bem-estar
- Tags: saúde trans, psiquiatria, ética, acesso à saúde, identidade de gênero, pesquisa, direitos
- URL: https://camarimcross.com.br/a/annelou-de-vries-protocolo-holandes-e-debates-sobre-cuidado-trans
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/issues/psychiatry/annelou-de-vries)
- Atualizado: 2026-10-31

## Quem é Annelou de Vries

Annelou L. C. de Vries é uma psiquiatra neerlandesa ligada ao Amsterdam UMC e ao Levvel, com trabalho voltado à saúde mental e à avaliação em saúde trans. Ela também coordena pesquisas sobre resultados de tratamento, ética clínica e decisões compartilhadas. Entre 2023 e 2025, presidiu a EPATH, associação europeia de profissionais de saúde trans. Além disso, participou da elaboração da 8ª edição dos Padrões de Cuidado da WPATH, como co-coordenadora do capítulo sobre avaliação de adolescentes, e coeditou o livro *Gender Dysphoria and Disorders of Sex Development: Progress in Care and Knowledge*, de 2014, com Baudewijntje Kreukels e Thomas Steensma.

O nome dela é frequentemente lembrado por causa do chamado protocolo holandês. Nos anos 1990, de Vries ajudou a formular um modelo de avaliação psiquiátrica longa e criteriosa antes de qualquer tratamento médico. A proposta original era evitar decisões apressadas e acompanhar cada caso com cuidado. Com o tempo, esse modelo passou a ser visto de duas maneiras: como exemplo de prudência e como sinônimo de gatekeeping, ou seja, de uma sequência de barreiras que pode atrasar ou impedir o acesso de quem precisa de cuidado.

## O debate sobre avaliação e acesso

A discussão em torno de de Vries não é apenas acadêmica. Parte da imprensa cisgênero costuma citá-la para defender mais etapas psiquiátricas antes de tratamentos relacionados à transição. Em 2022, uma reportagem especial da Reuters, assinada por Chad Terhune, Robin Respaut e Michelle Conline, usou a fala dela para enfatizar o risco de ir rápido demais. Em 2025, o *New York Times* publicou *The Protocol Part 2: The Gender Kids*, de Azeen Ghorayshi e Austin Mitchell, material que também colocou o modelo holandês no centro da conversa.

O ponto delicado é que uma especialista não representa toda a saúde trans. Reportagens e grupos críticos podem selecionar falas, ignorar contextos ou transformar uma preocupação legítima com avaliação em argumento contra o acesso. Ao mesmo tempo, discutir ética, consentimento e acompanhamento não é necessariamente negar cuidado. O problema aparece quando o debate deixa de ouvir as pessoas trans e passa a tratá-las apenas como objeto de risco.

## Por que isso interessa à comunidade

Crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são identidades e práticas distintas. Crossdressing é uma forma de expressão de gênero e não significa, por si só, ser trans. Misturar esses termos, usar uma identidade como piada ou tratar expressão de gênero como doença é desrespeitoso e atrapalha o entendimento público.

Mesmo quem não busca tratamento médico sente os efeitos desse debate. Políticas de saúde, regras de escolas, atendimento em consultórios e o modo como a imprensa fala sobre o tema influenciam o acolhimento, a privacidade e a segurança de toda a comunidade. Por isso, vale acompanhar as notícias com atenção e desconfiar de manchetes que prometem respostas simples para questões complexas.

No Brasil, o nome social é um direito em diversos serviços públicos, e o STF equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo em 2019. Ainda assim, o acesso e o acolhimento variam muito. Procurar serviços que respeitem o sigilo, grupos locais e redes de apoio pode fazer diferença. Em qualquer atendimento, você tem direito de perguntar como seus dados serão usados e de pedir respeito ao nome e aos pronomes que utiliza.

## Pesquisa, ética e leitura crítica

A produção acadêmica de de Vries inclui temas como saúde mental, apoio à decisão, preservação da fertilidade, ética em cuidados de afirmação de gênero e acompanhamento de longo prazo. Como toda pesquisa, esses textos precisam ser lidos no contexto: um artigo não é receita individual, e um resultado estatístico não diz o que funciona para cada pessoa.

Alguns cuidados ajudam a ler esse tipo de conteúdo:

- verifique quem financiou o estudo e se ele passou por revisão por pares;

- observe se a reportagem ouve pessoas trans e entidades da comunidade, não apenas críticos;

- desconfie de generalizações sobre toda a população trans;

- separe opinião de evidência científica;

- não use um único especialista para explicar realidades muito diferentes.

## Conclusão

Annelou de Vries é uma figura relevante no campo da saúde trans, especialmente por seu papel histórico no protocolo holandês e por sua atuação em pesquisa e ética. O nome dela, porém, virou uma espécie de símbolo em disputas maiores sobre acesso, avaliação e confiança nas pessoas trans. Entender esse debate exige nuance: cuidado e prudência são importantes, mas barreiras excessivas também causam danos. Informação de qualidade, respeito à identidade e proteção da privacidade são o mínimo para conversar sobre o tema.

## Segurança

- Este texto é informativo e não substitui avaliação médica ou psicológica individual.
- Hormônios e bloqueadores puberais só devem ser usados com acompanhamento profissional; não há doses ou receitas aqui.
- No Brasil, você pode solicitar atendimento pelo nome social em diversos serviços; informe-se sobre sigilo e canais de denúncia em caso de discriminação.
- Debates sobre saúde trans envolvem pessoas reais: evite expor dados, fotos ou histórias sem consentimento.
