Um programa de rádio que virou mapa da arte trans

Entre 2000 e 2006, o programa GenderTalk, feito na região de Boston (EUA), organizou seus episódios por assunto. A página dedicada a "arte e literatura" funciona hoje como um álbum de recortes: ali estão poetas, romancistas, quadrinistas, dramaturgos, documentaristas e performers que passaram pelo microfone naquela época. O fio comum é gente trans, lésbica e gay falando do próprio trabalho — e não apenas da identidade como "tema".

Esse índice é útil por dois motivos. Primeiro, porque mostra que a produção artística trans já era ampla muito antes das redes sociais. Segundo, porque quase todos esses nomes continuam possíveis de encontrar com uma busca simples, e servem de porta de entrada para quem quer ampliar repertório.

Poesia, memória e ficção

A lista é generosa com poesia. A poeta e ativista Emily Metcalfe leu versos no programa e falou sobre um grupo de apoio trans. Julia Serano, hoje mais conhecida por seus ensaios, apareceu como poeta e organizadora. Kari Edwards levou sua arte e seu ativismo, e Lee Thornhill apresentou a antologia Pinned Down by Pronouns, publicada pela sua Conviction Books, além de conversar sobre escrita e edição. Também passaram por lá Thea Hillman (poeta e ativista intersexo) e Willa Schneberg, com a chamada "poesia testemunhal".

Na prosa de não ficção, dois livros de memória marcaram época: She's Not There, de Jennifer Boylan (professora de literatura que relatou sua transição), e Wrapped in Blue, de Donna Rose. Já Rosalyne Blumenstein apresentou Branded T. Na ficção, aparecem Rachel Pollack (autora de ficção científica premiada e de um romance policial com protagonista trans), Chris Bohjalian com Trans-Sister Radio e Noelle Howey, que escreveu Dress Codes e comentou o filme Normal da HBO. Samuel R. Delany falou sobre gênero, sexualidade e raça na ficção científica.

Um capítulo à parte é Kate Bornstein, que apresentou Hello, Cruel World: 101 Alternatives to Suicide — um livro de acolhimento para quem está em sofrimento. Se esse assunto tocar você, saiba que buscar ajuda não é fraqueza: no Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia.

Palco, quadrinhos e saraus

A turma do spoken word e da performance também aparece: Imani Henry falou de teatro e ativismo, Dréd Gerestant mostrou seu transformismo de palco, Murray Hill e Freddie Fagula representaram a cena drag king de Nova York, e Kate Bornstein e Barbara Carellas apresentaram a peça Too Tall Blondes in Love.

Nos quadrinhos, o destaque é Gina Kamentsky, criadora da tira T-Gina, sobre uma mulher trans e a vida em geral. E o evento Gendercrash, criado por Gunner Scott, era um microfone aberto mensal em Boston onde poetas, músicos e escritores de gênero dissidente mostravam seu trabalho — junto com leituras de Alicia Goranson, Nathan Levitt e Flynn May.

Nas telas: filmes e documentários

Vários episódios giraram em torno de cinema:

  • TransAmerica (2005, direção de Duncan Tucker), com Andrea James e Calpernia Addams, que também falaram do trabalho de educação e advocacy.
  • A Soldier's Girl (2003, direção de Frank Pierson), baseado na história de Calpernia Addams.
  • Normal (2003, direção de Jane Anderson, HBO), que teve Tina Sievers como consultora.
  • Cruel and Unusual (2006, codireção de Dan Hunt), sobre pessoas trans no sistema prisional.
  • M2F: A Journey in Gender Identity, documentário produzido por Dee MacLachlan e dirigido por Patricia Church.
  • No Dumb Questions, curta de Melissa Regan do início dos anos 2000, sobre três crianças cujo tio está em transição.
  • 100% Woman, sobre Michelle DuMaresq, a primeira atleta abertamente trans a representar seu país em campeonato mundial, feito com Karen Duthie e Diana Wilson.

Como levar isso para a sua estante no Brasil

  • Comece pelo que está traduzido. Autoras como Julia Serano e Kate Bornstein têm textos publicados em português; buscá-los em sebos online costuma ser mais barato do que importar.
  • Use a lista como guia de busca. Anote dois ou três nomes que te interessem e procure entrevistas, ensaios e poemas avulsos na internet antes de comprar um livro inteiro.
  • ** procure saraus e clubes de leitura.** Em capitais brasileiras há microfones abertos, slams e encontros culturais em centros culturais e casas de acolhimento; grupos de leitura online também funcionam bem para quem prefere discrição.
  • Cuide da sua privacidade. Se for publicar textos ou se apresentar, combine antes o nome social e os pronomes que quer usar — e evite expor dados pessoais em perfis abertos ou grupos públicos.
  • Cuidado com golpes. Ao comprar livros importados ou usados em redes sociais, confira a reputação do vendedor, prefira plataformas com intermediação de pagamento e desconfie de preços muito abaixo do mercado.
  • Saiba seus direitos. No Brasil, o STF reconheceu, em 2019, a omissão legislativa quanto à LGBTfobia, equiparando atos discriminatórios à injúria racial; o nome social é garantido em diversos serviços públicos. Isso vale também para ambientes culturais e de trabalho.

O arquivo do GenderTalk não é um cânone fechado: é uma conversa antiga que continua aberta. Serve para lembrar que arte trans não começou ontem — e que você pode entrar nessa conversa pelo ponto que fizer mais sentido para você, seja escrevendo, lendo ou simplesmente assistindo.

Segurança

  • Se você estiver em sofrimento psíquico, procure ajuda: o CVV atende 24h pelo telefone 188, de forma gratuita e sigilosa.
  • Ao comprar livros importados ou usados em redes sociais, verifique a reputação do vendedor e use meios de pagamento com proteção contra golpes.
  • Antes de publicar textos ou se apresentar em público, combine nome social e pronomes com os organizadores e revise o que expõe em perfis abertos.
  • Hormônios e outros medicamentos exigem acompanhamento médico; nenhuma informação deste texto substitui uma consulta.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de gendertalk.com. Recomendamos a leitura do original.

Reportar

Discussão

Ainda não há discussão sobre este conteúdo.

Começar a discussão