# Arte e literatura trans: o que o arquivo do rádio GenderTalk ainda ensina

> Um índice de episódios do programa de rádio GenderTalk (2000–2006) reúne poetas, romancistas, quadrinistas e documentaristas trans e lésbicas. Veja nomes, obras e ideias para levar essa produção para o seu dia a dia no Brasil.

- Tema: Livros
- Tags: literatura trans, arte, documentários, poesia, história lgbt, cultura
- URL: https://camarimcross.com.br/a/arte-e-literatura-trans-o-que-o-arquivo-do-radio-gendertalk-ainda-ensina
- Fonte original: gendertalk.com (http://www.gendertalk.com/radio/idx/artlit.shtml)
- Atualizado: 2026-11-02

## Um programa de rádio que virou mapa da arte trans

Entre 2000 e 2006, o programa **GenderTalk**, feito na região de Boston (EUA), organizou seus episódios por assunto. A página dedicada a "arte e literatura" funciona hoje como um álbum de recortes: ali estão poetas, romancistas, quadrinistas, dramaturgos, documentaristas e performers que passaram pelo microfone naquela época. O fio comum é gente trans, lésbica e gay falando do próprio trabalho — e não apenas da identidade como "tema".

Esse índice é útil por dois motivos. Primeiro, porque mostra que a produção artística trans já era ampla muito antes das redes sociais. Segundo, porque quase todos esses nomes continuam possíveis de encontrar com uma busca simples, e servem de porta de entrada para quem quer ampliar repertório.

## Poesia, memória e ficção

A lista é generosa com poesia. A poeta e ativista **Emily Metcalfe** leu versos no programa e falou sobre um grupo de apoio trans. **Julia Serano**, hoje mais conhecida por seus ensaios, apareceu como poeta e organizadora. **Kari Edwards** levou sua arte e seu ativismo, e **Lee Thornhill** apresentou a antologia *Pinned Down by Pronouns*, publicada pela sua Conviction Books, além de conversar sobre escrita e edição. Também passaram por lá **Thea Hillman** (poeta e ativista intersexo) e **Willa Schneberg**, com a chamada "poesia testemunhal".

Na prosa de não ficção, dois livros de memória marcaram época: *She's Not There*, de **Jennifer Boylan** (professora de literatura que relatou sua transição), e *Wrapped in Blue*, de **Donna Rose**. Já **Rosalyne Blumenstein** apresentou *Branded T*. Na ficção, aparecem **Rachel Pollack** (autora de ficção científica premiada e de um romance policial com protagonista trans), **Chris Bohjalian** com *Trans-Sister Radio* e **Noelle Howey**, que escreveu *Dress Codes* e comentou o filme *Normal* da HBO. **Samuel R. Delany** falou sobre gênero, sexualidade e raça na ficção científica.

Um capítulo à parte é **Kate Bornstein**, que apresentou *Hello, Cruel World: 101 Alternatives to Suicide* — um livro de acolhimento para quem está em sofrimento. Se esse assunto tocar você, saiba que buscar ajuda não é fraqueza: no Brasil, o **CVV atende gratuitamente pelo 188, 24 horas por dia**.

## Palco, quadrinhos e saraus

A turma do *spoken word* e da performance também aparece: **Imani Henry** falou de teatro e ativismo, **Dréd Gerestant** mostrou seu transformismo de palco, **Murray Hill** e **Freddie Fagula** representaram a cena drag king de Nova York, e **Kate Bornstein** e **Barbara Carellas** apresentaram a peça *Too Tall Blondes in Love*.

Nos quadrinhos, o destaque é **Gina Kamentsky**, criadora da tira *T-Gina*, sobre uma mulher trans e a vida em geral. E o evento **Gendercrash**, criado por **Gunner Scott**, era um microfone aberto mensal em Boston onde poetas, músicos e escritores de gênero dissidente mostravam seu trabalho — junto com leituras de **Alicia Goranson**, **Nathan Levitt** e **Flynn May**.

## Nas telas: filmes e documentários

Vários episódios giraram em torno de cinema:

- *TransAmerica* (2005, direção de Duncan Tucker), com **Andrea James** e **Calpernia Addams**, que também falaram do trabalho de educação e advocacy.

- *A Soldier's Girl* (2003, direção de Frank Pierson), baseado na história de Calpernia Addams.

- *Normal* (2003, direção de Jane Anderson, HBO), que teve **Tina Sievers** como consultora.

- *Cruel and Unusual* (2006, codireção de **Dan Hunt**), sobre pessoas trans no sistema prisional.

- *M2F: A Journey in Gender Identity*, documentário produzido por **Dee MacLachlan** e dirigido por **Patricia Church**.

- *No Dumb Questions*, curta de **Melissa Regan** do início dos anos 2000, sobre três crianças cujo tio está em transição.

- *100% Woman*, sobre **Michelle DuMaresq**, a primeira atleta abertamente trans a representar seu país em campeonato mundial, feito com **Karen Duthie** e **Diana Wilson**.

## Como levar isso para a sua estante no Brasil

- **Comece pelo que está traduzido.** Autoras como Julia Serano e Kate Bornstein têm textos publicados em português; buscá-los em sebos online costuma ser mais barato do que importar.

- **Use a lista como guia de busca.** Anote dois ou três nomes que te interessem e procure entrevistas, ensaios e poemas avulsos na internet antes de comprar um livro inteiro.

- ** procure saraus e clubes de leitura.** Em capitais brasileiras há microfones abertos, slams e encontros culturais em centros culturais e casas de acolhimento; grupos de leitura online também funcionam bem para quem prefere discrição.

- **Cuide da sua privacidade.** Se for publicar textos ou se apresentar, combine antes o nome social e os pronomes que quer usar — e evite expor dados pessoais em perfis abertos ou grupos públicos.

- **Cuidado com golpes.** Ao comprar livros importados ou usados em redes sociais, confira a reputação do vendedor, prefira plataformas com intermediação de pagamento e desconfie de preços muito abaixo do mercado.

- **Saiba seus direitos.** No Brasil, o STF reconheceu, em 2019, a omissão legislativa quanto à LGBTfobia, equiparando atos discriminatórios à injúria racial; o nome social é garantido em diversos serviços públicos. Isso vale também para ambientes culturais e de trabalho.

O arquivo do GenderTalk não é um cânone fechado: é uma conversa antiga que continua aberta. Serve para lembrar que arte trans não começou ontem — e que você pode entrar nessa conversa pelo ponto que fizer mais sentido para você, seja escrevendo, lendo ou simplesmente assistindo.

## Segurança

- Se você estiver em sofrimento psíquico, procure ajuda: o CVV atende 24h pelo telefone 188, de forma gratuita e sigilosa.
- Ao comprar livros importados ou usados em redes sociais, verifique a reputação do vendedor e use meios de pagamento com proteção contra golpes.
- Antes de publicar textos ou se apresentar em público, combine nome social e pronomes com os organizadores e revise o que expõe em perfis abertos.
- Hormônios e outros medicamentos exigem acompanhamento médico; nenhuma informação deste texto substitui uma consulta.
