# Bruce Alberts, a ciência e a polêmica em torno de identidades trans nos anos 2000

> Em 2003, a editora da National Academy of Sciences publicou um livro contestado sobre pessoas trans. Cientistas escreveram ao então presidente Bruce Alberts pedindo que a academia retirasse o apoio à obra.

- Tema: História e cultura
- Tags: história, ciência, pessoas trans, academia, desinformação, gênero
- URL: https://camarimcross.com.br/a/bruce-alberts-a-ciencia-e-a-polemica-em-torno-de-identidades-trans-nos-anos-2000
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/politics/biology/bruce-alberts)
- Atualizado: 2026-10-31

## Um episódio que ainda rende conversa

Quem estuda a história recente das discussões sobre identidades de gênero costuma esbarrar em uma polêmica de 2003 envolvendo uma das instituições científicas mais respeitadas dos Estados Unidos. Vale conhecer o caso porque ele mostra como prestígio acadêmico pode ser usado para dar aparência de verdade a ideias frágeis — e como a comunidade científica reagiu.

## Quem é Bruce Alberts

Bruce Michael Alberts nasceu em 1938 e é um bioquímico norte-americano de carreira sólida, conhecido também por livros didáticos de biologia celular usados no mundo inteiro. No início dos anos 2000 ele presidia a National Academy of Sciences (NAS), a academia nacional de ciências dos Estados Unidos. Foi nessa função que ele recebeu cartas de colegas preocupados com uma decisão editorial da casa.

## O que aconteceu

O braço editorial da NAS, a National Academies Press, lançou o livro *The Man Who Would Be Queen*, do psicólogo J. Michael Bailey, com o subtítulo de "a ciência do gender-bending e do transsexualismo". A obra propunha dividir mulheres trans em duas categorias e fazia afirmações sobre a vida sexual delas. O selo da NAS deu ao texto uma aura de legitimidade acadêmica, e isso incomodou pesquisadores de várias áreas.

Duas cartas enviadas em maio de 2003 a Bruce Alberts e a Harvey V. Fineberg, então presidente do Institute of Medicine, ficaram conhecidas. Elas resumem bem as críticas.

## A carta de Barbara P. Nash

Geóloga e professora de geologia e geofísica com mais de três décadas de pesquisa financiada por agências científicas dos EUA, Nash escreveu em 12 de maio de 2003. Os pontos principais:

- **Método frágil.** O autor teria recrutado entrevistados de forma informal em clubes gays, sem instrumentos de pesquisa padronizados, e descrito suas conclusões como intuições pessoais em vez de dados verificáveis.

- **Falta de transparência.** Não haveria tabelas, amostras descritas, referências ou discussão de estudos contrários — algo básico em qualquer trabalho científico.

- **Estigma.** Ela considerou grave associar a experiência de pessoas trans a um conjunto de parafilias sem qualquer comprovação, o que reforça preconceito e pode influenciar políticas públicas.

- **Divulgação sensacionalista.** O material de promoção do livro era apelativo, mais parecido com manchete de revista de fofoca do que com o padrão esperado de uma editora científica.

- **Pedido formal.** Nash sugeriu que a NAS retirasse o apoio à obra.

## A carta de Joan Roughgarden

Biológa evolutiva de Stanford, Roughgarden escreveu a pedido de Lynn Conway, membro da National Academy of Engineering. Ela detalhou trechos do livro e questionou o modelo que dividia mulheres trans entre "homossexuais" e "autoginefílicas", observando que a atração pessoal do autor parecia organizar a própria classificação. Roughgarden também apontou que a teoria não era nova: vinha de propostas de Ray Blanchard feitas décadas antes e com pouca adesão nos estudos de gênero.

## O que é a tal "autoginefilia"

É um conceito proposto por Blanchard nos anos 1980 para explicar a identidade de mulheres trans como resultado de excitação sexual. O modelo é contestado há décadas por pesquisadores e, principalmente, pelas próprias pessoas trans, que o consideram redutor e incapaz de descrever a diversidade real das experiências de gênero. Classificações diagnósticas mais recentes, como a CID-11 da Organização Mundial da Saúde, abandonaram a lógica de tratar a identidade trans como transtorno mental e passaram a falar em incongruência de gênero, dentro do capítulo de saúde sexual.

## Por que isso interessa a quem se monta no Brasil

Muita gente que se crossdessa ou está descobrindo sua expressão de gênero cai, em buscas na internet, em textos antigos que tentam explicar tudo por fetiche ou patologia. Vale lembrar:

- **Crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são coisas diferentes.** Nenhuma delas é piada, doença ou sinônimo das outras.

- **Teoria não é sentença.** Um conceito com selo acadêmico pode estar errado; ciência se faz com dados abertos e revisão, não com intuição de autoridade.

- **No Brasil, a LGBTfobia é crime.** O Supremo Tribunal Federal equiparou, em 2019, a homofobia e a transfobia ao crime de racismo. O nome social é garantido em diversos serviços públicos, como rede de saúde e escolas.

- **Privacidade primeiro.** Ao pesquisar sobre o tema, prefira fontes que respeitem a autonomia das pessoas e evite expor sua identidade em sites duvidosos.

## Como ler textos sobre gênero sem cair em armadilha

Pergunte-se: o texto escuta pessoas trans ou apenas fala sobre elas? Apresenta dados verificáveis? Trata a identidade como algo que a própria pessoa descreve? Se a resposta for "não" nas três, é sinal de alerta. A história de 2003 mostra que reputação institucional não substitui rigor — e que cientistas de verdade se posicionam quando o padrão é furado.

## Segurança

- Textos que patologizam identidades de gênero podem afetar a autoestima; se isso pesar, procure apoio psicológico e grupos de acolhimento.
- Nunca use hormônios ou medicamentos por conta própria: busque acompanhamento médico com profissional que respeite sua identidade.
- Ao pesquisar sobre o tema, proteja sua identidade online e desconfie de sites que fetichizam pessoas trans ou pedem dados pessoais.
