# Cabello/Carceller e o caso Céspedes: arte, gênero e memória inquisitorial

> Catálogo de 2011 reúne o projeto A/O (Caso Céspedes), das artistas Cabello/Carceller, que revisita a trajetória de Elena(o) de Céspedes e as marcas de uma vida dissidente no arquivo da Inquisição.

- Tema: Livros
- Tags: arte contemporânea, história lgbtqia+, inquisição, gênero, catálogo, espanha
- URL: https://camarimcross.com.br/a/cabello-carceller-e-o-caso-cespedes-arte-genero-e-memoria-inquisitorial
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL32609649W)
- Atualizado: 2026-11-03

## Um catálogo que cruza arte, arquivo e dissidência de gênero

Publicado em 2011, o catálogo *Cabello/Carceller* reúne o projeto *A/O (Caso Céspedes)*, realizado entre 2009 e 2010 pelas artistas Helena Cabello e Ana Carceller, com textos de Manuel Segade Lodeiro e Israel Burshatin. A obra não é um manual sobre crossdressing nem uma biografia romanceada: é um trabalho de arte contemporânea que parte de um dossiê inquisitorial para pensar como uma vida dissidente pode ser lida hoje.

O eixo é Elena(o) de Céspedes, figura do século XVI associada a Granada, Toledo e à região andaluza. Nas fontes, aparece como mulher, pessoa negra e escravizada; tornou-se cirurgiã e casou-se na igreja como homem com uma mulher. Por isso, foi julgada e condenada pela Inquisição espanhola. O caso interessa às artistas não por curiosidade mórbida, mas porque mostra uma pessoa cuja experiência de gênero, corpo, raça e liberdade não cabia nas normas da época.

## O que aparece no vídeo e nas fotografias

No vídeo de Cabello/Carceller, uma personagem de gênero não determinado, Alex, percorre jardins e salas do Mosteiro da Cartuja de Sevilla, edifício barroco que hoje abriga o Centro Andaluz de Arte Contemporânea. As imagens e a pesquisa documental propõem uma aproximação indireta: em vez de tentar “reconstruir” a vida de Céspedes de forma definitiva, o projeto reflete sobre os rastros deixados no arquivo, sobre o que foi dito, omitido e interpretado pelos inquisidores.

Essa escolha é importante. Arquivos de repressão não são neutros: eles registram a versão de quem julgava. Ao trabalhar com esses documentos, o catálogo pergunta como criar conexão com uma pessoa queer do passado sem apagar as diferenças de época, língua, mentalidade e experiência. Não se trata de dizer que Céspedes era “igual” a alguém de hoje, mas de reconhecer uma existência que desafiou as regras de seu tempo.

## Por que isso dialoga com a comunidade

Para quem se interessa por crossdressing, expressão de gênero e história LGBTQIA+, o livro é uma referência cultural. Ele ajuda a lembrar que a rigidez das categorias de gênero não é universal nem eterna. Também convida a evitar anacronismos: travesti, crossdresser, drag, pessoa trans e não binária são identidades e práticas contemporâneas, com histórias próprias; aplicá-las automaticamente ao século XVI pode apagar contextos.

Ao mesmo tempo, o catálogo valoriza a memória de uma pessoa que viveu fora da norma e foi punida por isso. Essa memória se conecta, no Brasil, a debates atuais sobre nome social, respeito a identidades e criminalização da LGBTfobia pelo STF. Não é preciso transformar o passado em lição simples; basta reconhecer que a violência religiosa e racial do caso de Céspedes tem ecos em discussões sobre quem pode existir publicamente.

## Como usar a obra

O catálogo é útil para estudantes de arte, história, gênero e estudos queer, além de pessoas que pesquisam crossdressing em uma perspectiva cultural. Ele pode ser encontrado em bibliotecas universitárias e sebos; o registro na Open Library ajuda a localizar a ficha da publicação. Vale ler as imagens e os textos como parte de uma obra de arte, não como prova documental definitiva.

Se você procura orientação prática sobre montação, maquiagem ou sair em segurança, este não é o material principal. Mas se quer ampliar repertório e pensar a expressão de gênero para além do espelho, o projeto oferece uma porta de entrada poderosa: arte, arquivo e memória em diálogo.

## Segurança

- Ao usar termos atuais para figuras históricas, contextualize: identidades e vocabulários mudam com o tempo.
- Evite tratar o caso como curiosidade ou piada; a pessoa viveu violências reais de racismo, escravidão e julgamento religioso.
