# Como as teorias de gênero moldaram a vida trans e crossdresser

> Um passeio pela história das explicações sobre gênero: da moral religiosa à medicina, das leis urbanas às teorias psicossociais, e o que isso ensina sobre respeito, direitos e autocuidado hoje.

- Tema: História e cultura
- Tags: história trans, gênero, crossdressing, direitos, saúde trans, teorias de gênero
- URL: https://camarimcross.com.br/a/como-as-teorias-de-genero-moldaram-a-vida-trans-e-crossdresser
- Fonte original: web.archive.org (https://web.archive.org/web/20020307120438fw_/http://www.transhistory.org/history/TH_Theory.html)
- Atualizado: 2026-10-31

## Por que esta história importa

Quando uma sociedade tenta explicar por que existem pessoas cuja identidade ou expressão de gênero não segue o roteiro esperado, ela também define como leis, medicina, famílias e vizinhos vão tratar essas pessoas. A forma de explicar o assunto nunca é só teórica: ela vira política pública, diagnóstico, sentença judicial e, muitas vezes, violência cotidiana.

Vale começar com uma distinção importante: crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são experiências diferentes. A fonte histórica discute teorias sobre pessoas transgênero e sobre crossdressing, mas não trata tudo como a mesma coisa. Crossdressing é uma forma de expressão; ser trans ou travesti tem relação com identidade. Respeitar essa diferença é parte de entender a história.

## Moral religiosa e o peso de um versículo

Durante séculos, setores das culturas judaico-cristãs e islâmicas usaram um trecho de Deuteronômio para condenar quem vestia roupas associadas ao outro sexo. Alguns estudiosos bíblicos lembram que a regra pode ter servido para afastar o povo hebreu de práticas religiosas de culturas vizinhas, inclusive de rituais ligados a divindades como Cibele. Ainda assim, esse versículo foi repetidamente citado para justificar desprezo e maus-tratos contra pessoas trans e crossdressers.

O mesmo conjunto de leis antigas tratava da condição de eunucos, homens que haviam passado por remoção cirúrgica dos genitais. Em vez de protegê-los, as normas frequentemente os colocavam em posição inferior: sem os considerados direitos masculinos, eles não podiam, por exemplo, testemunhar em tribunal. Essa lógica ajudou a construir a ideia de que pessoas trans femininas seriam indignas de confiança. Ao mesmo tempo, outras culturas toleraram ou até veneraram pessoas com expressão de gênero diversa. As hijras, na Índia, têm casas e tradições com séculos de existência. Joana d’Arc foi queimada na fogueira, entre outras acusações, por usar vestimentas e armadura masculinas. São contrastes que mostram como a cultura, e não uma suposta “natureza”, define o grau de aceitação.

## Cidades, polícia e Stonewall

No início do século 20, nos Estados Unidos, pessoas trans e crossdressers começaram a se encontrar em cidades, como já acontecia em centros urbanos de países mais populosos. Vizinhos incomodados reclamaram às autoridades, e prefeituras criaram normas para proibir a expressão e a convivência trans. Essas leis surgiram no mesmo ambiente que restringia direitos de pessoas negras e de católicos. Enquanto os estados se concentravam em criminalizar a homossexualidade, a polícia urbana usava as regras contra pessoas trans, que eram alvos mais visíveis, para fazer batidas e prisões.

Foi nesse contexto que a Revolta de Stonewall, em 1969, começou com prisões de pessoas trans. As normas municipais foram sendo revogadas nos anos 1970. Nos anos 1990, algumas das mesmas cidades que antes tinham leis para expor essas pessoas passaram a aprovar medidas antidiscriminação. No Brasil, o caminho foi diferente, mas a luta por reconhecimento também passou por nome social, retificação de registro e enfrentamento da violência. A decisão do STF em 2019, que criminalizou a LGBTfobia, é parte desse processo mais amplo de afirmação de direitos.

## Medicina, certidões e o mito da mudança de sexo

Até meados do século 20, uma estratégia comum para conseguir proteção legal era pedir a correção do registro de nascimento com base no modelo intersexo: médicos davam uma espécie de segunda opinião sobre o sexo da pessoa. O direito via, literalmente, pessoas trans como uma variação intersexo e corrigia documentos quando solicitado. Depois que a imprensa popular criou o mito da mudança de sexo, as pessoas trans passaram a ser vistas como categoria separada. Só então foram necessárias leis específicas para alterar certidões e documentos.

Também houve uma confusão histórica entre orientação sexual e identidade de gênero. Durante muito tempo, a sociedade dividia o mundo entre homens e mulheres normais e invertidos psicossexuais. O trabalho de pesquisadores como Evelyn Hooker e Alfred Kinsey ajudou a mostrar que pessoas homossexuais podiam ter identidade de gênero congruente, com atração por pessoas do mesmo sexo. Isso abriu espaço para separar identidade de atração. Nos anos 1970 e 1980, Lou Sullivan, um homem trans, foi fundamental para que a medicina reconhecesse que existem homens trans gays e mulheres trans lésbicas.

## Três correntes e seus efeitos práticos

Há três grandes correntes sobre a origem da identidade de gênero: essencialismo, construcionismo social e psicossocialismo. Nos meios acadêmicos, elas são debatidas com intensidade. Na vida real, porém, o modelo aplicado por médicos, escolas, tribunais e famílias costuma ter efeitos concretos sobre o acesso a direitos e sobre a autoestima das pessoas.

A psicanálise freudiana influenciou fortemente a América do Norte. Freud partia da presença ou ausência do pênis para explicar a formação da identidade. Quando pessoas trans apareceram como desafio à teoria, a primeira resposta foi chamá-las de psicóticas. Depois, teorias psicanalíticas passaram a culpar a mãe superpróxima e o pai distante. O problema é que muitas famílias com essas características não criavam filhos trans, e muitos homens trans tinham relações boas com os pais. Ainda assim, o modelo psiquiátrico permaneceu por boa parte do século 20 e ajudou a consolidar a ideia de transtorno de identidade de gênero no manual da associação americana de psiquiatria.

Nos anos 1950, ganhou força a teoria do imprinting, associada a John Money. A observação de bebês intersexo levou à ideia de que haveria um período crítico em que a criação dos pais imprimiria a identidade de gênero. Isso incentivou cirurgias genitais precoces em crianças intersexo, muitas vezes sem consentimento e com esterilização de meninos cujo pênis era considerado pequeno demais. O caso conhecido como John/Joan, envolvendo David Reimer, tornou-se exemplo trágico: ele foi criado como menina após uma cirurgia de circuncisão mal sucedida, mas se identificou como menino e mais tarde passou por cirurgias e viveu como homem. Hoje, o consenso ético é que crianças intersexo não devem ser submetidas a cirurgias não urgentes sem consentimento informado.

## O que tirar disso para hoje

Não existe uma explicação única e definitiva para a identidade de gênero. O que existe são pessoas reais, com direito a se descrever e a viver sem coerção. Algumas lições práticas:

- Respeite como cada pessoa se identifica. Não use a história de crossdressing para explicar automaticamente a vivência trans, nem o contrário.

- Desconfie de tratamentos que prometem “curar” ou “converter” alguém. Práticas coercitivas já causaram muito dano.

- Hormônios e cirurgias exigem acompanhamento médico e informações confiáveis. Nunca use doses ou receitas de internet.

- No Brasil, nome social é direito em serviços públicos, e a retificação de nome e gênero pode ser buscada em cartórios e com apoio da Defensoria Pública. Grupos locais e organizações trans costumam orientar o caminho.

- Privacidade importa. Ao sair montada ou publicar fotos, combine local seguro, avise uma pessoa de confiança e revise as configurações de redes sociais.

Entender a história é útil não para rotular ninguém, mas para reconhecer como preconceitos foram construídos e como podemos escolher outra forma de tratar as pessoas: com informação, cuidado e respeito.

## Segurança

- Tratamentos hormonais e cirurgias exigem acompanhamento profissional; não use doses ou receitas de internet.
- Práticas de modificação corporal, como cintas, tucking e enchimentos, pedem pausas e atenção a sinais de dor, falta de ar ou lesões.
- Ao sair montada ou publicar fotos, combine local seguro, avise alguém de confiança e revise suas configurações de privacidade.
- Práticas coercitivas do passado, como esterilização e terapias de conversão, não devem ser repetidas; busque apoio jurídico e psicológico se sofrer violência.
