# Cross Dressing, Sex and Gender: o clássico de Vern Bullough sobre travestismo

> Panorama do livro de 1993 de Vern L. Bullough e Bonnie Bullough, que percorre a história do crossdressing em diversas culturas e dialoga com a literatura médica, psicológica e sociológica sobre gênero.

- Tema: Livros
- Tags: livros, história, gênero, crossdressing, pesquisa acadêmica, vern bullough
- URL: https://camarimcross.com.br/a/cross-dressing-sex-and-gender-o-classico-de-vern-bullough-sobre-travestismo
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL2685106W)
- Atualizado: 2026-11-01

## Um marco nos estudos sobre crossdressing

Publicado em 1993, *Cross Dressing, Sex, and Gender* é um daqueles livros que muita gente da comunidade ouve falar antes de conseguir ler. A obra nasceu de cerca de trinta anos de pesquisa dos historiadores Vern L. Bullough (1928–2006) e Bonnie Bullough, e organiza num só volume o que estava espalhado entre história, sexologia, sociologia e medicina.

O registro está disponível no Open Library. Não há, até onde sabemos, edição brasileira traduzida — então quem quiser ler vai precisar do original em inglês, de bibliotecas universitárias ou de sebos especializados.

## O que o livro investiga

A proposta é ampla: mapear práticas de crossdressing e de "personificação de gênero" ao longo do tempo e em culturas variadas, e ao mesmo tempo revisar o que a ciência moderna produziu sobre o tema. Entre os assuntos catalogados na obra aparecem termos como *transvestism*, *sex role*, *cross-dressing* e *cross-dressers* — vocabulário que já soa datado, mas que era o disponível na época.

Alguns pontos que o livro sustenta:

- a percepção social de feminilidade e masculinidade não depende necessariamente da genitália;

- a personificação de gênero e as "mascaradas" de longo prazo do sexo oposto aparecem na história de muitas sociedades;

- em grande parte do passado, foram mais as mulheres do que os homens a se vestir como o outro gênero;

- homens frequentemente faziam imitações cômicas de mulheres, mas raramente tentavam mudar de gênero publicamente antes do século XX;

- sociedades não ocidentais variam muito: algumas são mais tolerantes e até incentivam homens a se comportar como mulheres e vice-versa;

- em boa parte do Ocidente, ser homem e exibir masculinidade é mais valorizado do que ser mulher e exibir feminilidade — e isso molda quem pode se montar sem pagar caro por isso.

## Uma tese central: gênero não é genitália

A ideia que atravessa o livro é simples e ainda hoje potente: o que uma sociedade chama de "feminino" ou "masculino" é construído, e não um reflexo automático do corpo. Por isso os autores defendem que o fenômeno do crossdressing tem implicações para entender as relações entre os sexos justamente no século XX, quando essas regras começaram a ser questionadas com mais força.

Depois de passar pelas teorias disponíveis, os Bullough apresentam a teoria própria deles — o livro é, nas palavras da sinopse, a culminância de três décadas de pesquisa da dupla.

## O olhar médico, psicológico e sociológico

A obra não é só histórica. Ela reúne achados das áreas médica, biológica, psicológica e sociológica, e por isso dialoga com o debate natureza versus criação. Segundo a apresentação do livro, o conteúdo interessa não apenas a pesquisadores de ciências sociais e estudos de gênero, mas também a educadores, profissionais de enfermagem e medicina, feministas, gays e lésbicas.

Há um público mais diretamente implicado: pessoas que se identificam como transvestites ou transsexuais — para usar os termos do livro — ou que foram classificadas por profissionais de saúde como portadoras de disforia de gênero. Para essas pessoas, a leitura costuma ter um peso mais pessoal do que acadêmico.

## Leituras críticas e atualizações necessárias

É importante ler com lupa do presente. O vocabulário de 1993 mistura conceitos que hoje separamos com cuidado:

- **crossdresser** é quem se veste com roupas associadas a outro gênero, sem necessariamente questionar sua identidade;

- **pessoa trans** é quem não se identifica com o gênero atribuído no nascimento;

- **travesti**, no Brasil, é uma identidade política e cultural específica, com história própria — e não um sinônimo do termo inglês antigo *transvestite*;

- **drag** é performance artística, não identidade nem diagnóstico.

Também mudou o enquadramento clínico. Hoje a identidade de gênero não é tratada como transtorno mental, e a CID-11 tirou a incongruência de gênero do capítulo de saúde mental. O livro, escrito antes disso, reflete o debate da sua época — o que não diminui seu valor histórico, mas pede leitura crítica.

## Como usar este livro hoje, no Brasil

Se você quer se aprofundar sem se perder:

- leia a parte histórica como ponto de partida e compare com o que sabemos hoje sobre identidades trans e travestis no Brasil;

- anote os termos que envelheceram e busque os equivalentes atuais;

- use as referências bibliográficas do livro como mapa para pesquisas mais recentes;

- converse com grupos e coletivos brasileiros para contextualizar o que é descrito como "tolerância" em outras culturas.

Vale lembrar que estudar o assunto é assunto privado. Se for pesquisar em computador compartilhado, use uma janela anônima e cuidado com histórico e contas sincronizadas.

## Para quem é

Para quem gosta de história cultural, para quem pesquisa gênero na universidade e para quem simplesmente quer entender de onde vêm tantas ideias que ainda circulam sobre crossdressing. Não é um manual de estilo nem um guia prático de maquiagem — é um livro de contexto, e nisso continua sendo referência.

## Segurança

- O livro é de 1993 e usa terminologia e enquadramentos clínicos datados; não trate a obra como orientação médica ou diagnóstica atual.
- Ser crossdresser não é doença. Se algo relacionado a gênero causar sofrimento, procure profissional de saúde preparado, não um diagnóstico de internet.
- Hormônios e medicamentos nunca devem ser usados por conta própria: apenas com acompanhamento médico.
- Ao pesquisar o tema, proteja sua privacidade: janela anônima, conta separada e cuidado com histórico em aparelhos compartilhados.
