Livro
- Título
- Das 3. Geschlecht
- Autoria
- Rainer Herrn, Anne von den Eken, M. Ludwig, Dr. Wegner, Mara Ruth, Hans Hannah Berg, Dr. E. E. Schweitzer, W. Kramer, Eduard Henri, A. F., St. A., S. Engler, Berthe Dietrich, E. Killmer, Marie-Luise von Bern, Grete, Prof. Dr. K. F. J., Henny S., Hubert Rieck, Vera Berger, Gerda K., Friedel Werner, Gretel Schönrock, Gerda E. Schröder, D. B., Friedel Ste-Rü, Friedrich Radszuweit, Fritz Otto, Demona, Gerda K., Marie Luise von Bern, Emilie M., W. S., E. S., E. Raven, Käthe Lippert, Grahlotto, Frida Petras, Fritzi Held, A. Hofstetter, Emi Wolters, P. S., Grete M., Emmy M., Elvira Karsten
- Ano
- 2016
Um achado que voltou a circular
Entre 1930 e 1932, circulou em Berlim uma revista pequena, barata e bastante peculiar: Das 3. Geschlecht (Die Transvestiten) — algo como "O Terceiro Sexo (Os Travestis)". Foram apenas cinco números, publicados pela editora de Friedrich Radszuweit, mas eles têm um peso enorme: é considerada a primeira revista feita por e para pessoas que hoje chamaríamos de crossdressers.
O livro de 2016 organizado por Rainer Herrn, com colaboração de uma longa lista de autoras e autores da época, reúne esses cinco números em fac-símile, acrescidos de um estudo introdutório. É, ao mesmo tempo, uma leitura de arquivo e um gesto de resgate: boa parte dessa imprensa foi destruída ou esquecida, e o volume devolve visibilidade a um pedaço da história da emancipação que estava praticamente fora de circulação.
De onde vem essa história
Vale recuar duas décadas. Em 1910, Magnus Hirschfeld publicou o estudo que popularizou o termo Transvestit para descrever o que chamava de "impulso erótico de se vestir". Foi um marco ambíguo: por um lado, deu nome e legitimidade a uma experiência real; por outro, colocou tudo sob o guarda-chuva da sexologia médica, com todo o peso normativo que isso carrega.
Vinte anos depois, a revista de Radszuweit faz o caminho inverso: em vez de falar sobre as pessoas, dá a elas a palavra. Isso é o mais interessante do material — e o que o torna tão contemporâneo na leitura.
O que tem dentro dos cinco números
A publicação não era um manual nem uma revista de moda. Era uma mistura bastante livre, típica da imprensa comunitária da época:
- fragmentos autobiográficos, em que leitores e leitoras contam como descobriram o crossdressing, como viviam, com quem podiam ou não conversar;
- textos de ficção, contos e crônicas assinados com nomes reais, pseudônimos e iniciais;
- contribuições de debate, discutindo o que significava se entender como transvesti, qual o lugar disso na sociedade e como responder às críticas externas;
- fotografias, tanto profissionais (de estúdio) quanto privadas — item raro e precioso para quem pesquisa a história da apresentação de gênero.
Chama atenção a diversidade de assinaturas: de nomes conhecidos do meio a colaboradores identificados apenas por siglas, o que sugere tanto desejo de visibilidade quanto cuidado com a exposição — um dilema que continua muito atual.
Por que isso importa hoje
É comum olhar para o passado procurando espelhos exatos, e a leitura fica mais rica quando a gente evita essa armadilha. A categoria Transvestit dos anos 1920-1930 não corresponde automaticamente às identidades que usamos hoje no Brasil: crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são coisas diferentes, com histórias e reivindicações próprias. O termo da época era amplo, médico e carregava sentidos que hoje não usamos — e a travestilidade brasileira, em particular, construiu uma trajetória política e cultural que não se confunde com a da Alemanha de Weimar.
Feita essa ressalva, o valor histórico permanece: ver pessoas escrevendo sobre si em primeira pessoa, organizando uma rede, negociando visibilidade, é uma forma de lembrar que a comunidade não nasceu ontem.
O contexto também pesa. Berlim dos anos 1930 era um ambiente de efervescência e, ao mesmo tempo, de retrocesso iminente. Com a ascensão do nazismo, o Instituto de Ciência Sexual de Hirschfeld foi atacado e a imprensa comunitária foi silenciada. A revista acabou em 1932, pouco antes do fim de um ciclo.
Como usar este livro
Não é uma leitura de "primeiros passos" — é pesquisa e memória. Algumas ideias práticas:
- leia a introdução de Herrn antes dos fac-símiles; ela dá o mapa de quem era quem e de como a revista funcionava;
- encare os textos como documentos de época: linguagem, diagnóstico e vocabulário mudaram muito;
- se você pesquisa história trans e crossdressing, vale registrar as diferenças entre a terminologia alemã e a brasileira;
- para quem escreve, fotografa ou produz conteúdo comunitário hoje, o material é uma referência sobre ética de exposição: nem todo mundo que colaborou queria ser identificado.
O título está catalogado na Open Library e em acervos universitários; é uma obra de biblioteca, daquelas que se consulta com calma.
Um lembrete sobre privacidade
O livro mostra como a exposição pública era um risco concreto na vida das pessoas retratadas — e isso não mudou tanto assim. Se você se interessa por história da comunidade, ótimo; mas, ao compartilhar relatos, fotos ou documentos antigos, pense em quem está neles. Expor alguém sem consentimento, ainda que "por curiosidade histórica", não é neutralidade: é dano real.
Segurança
- Categorias históricas como Transvestit não equivalem às identidades atuais; crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e não binária são distintas.
- O material é documento histórico de sexologia; não deve ser lido como orientação clínica ou diagnóstica.
- Ao compartilhar fotos e relatos antigos, respeite a privacidade e o consentimento das pessoas retratadas.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Open Library - livros (dados abertos). Recomendamos a leitura do original.
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