# Das 3. Geschlecht: a primeira revista para crossdressers, reeditada em livro

> Reedição comentada dos cinco números da revista alemã Das 3. Geschlecht (1930-1932), a primeira publicação feita por e para crossdressers, com apresentação e análise do historiador Rainer Herrn.

- Tema: Livros
- Tags: história, crossdressing, revistas antigas, berlim, magnus hirschfeld, lgbt, livros
- URL: https://camarimcross.com.br/a/das-3-geschlecht-a-primeira-revista-para-crossdressers-reeditada-em-livro
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL38004190W)
- Atualizado: 2026-11-01

## Um achado que voltou a circular

Entre 1930 e 1932, circulou em Berlim uma revista pequena, barata e bastante peculiar: **Das 3. Geschlecht (Die Transvestiten)** — algo como "O Terceiro Sexo (Os Travestis)". Foram apenas cinco números, publicados pela editora de Friedrich Radszuweit, mas eles têm um peso enorme: é considerada a primeira revista feita por e para pessoas que hoje chamaríamos de crossdressers.

O livro de 2016 organizado por **Rainer Herrn**, com colaboração de uma longa lista de autoras e autores da época, reúne esses cinco números em fac-símile, acrescidos de um estudo introdutório. É, ao mesmo tempo, uma leitura de arquivo e um gesto de resgate: boa parte dessa imprensa foi destruída ou esquecida, e o volume devolve visibilidade a um pedaço da história da emancipação que estava praticamente fora de circulação.

## De onde vem essa história

Vale recuar duas décadas. Em 1910, **Magnus Hirschfeld** publicou o estudo que popularizou o termo *Transvestit* para descrever o que chamava de "impulso erótico de se vestir". Foi um marco ambíguo: por um lado, deu nome e legitimidade a uma experiência real; por outro, colocou tudo sob o guarda-chuva da sexologia médica, com todo o peso normativo que isso carrega.

Vinte anos depois, a revista de Radszuweit faz o caminho inverso: em vez de falar *sobre* as pessoas, dá a elas a palavra. Isso é o mais interessante do material — e o que o torna tão contemporâneo na leitura.

## O que tem dentro dos cinco números

A publicação não era um manual nem uma revista de moda. Era uma mistura bastante livre, típica da imprensa comunitária da época:

- **fragmentos autobiográficos**, em que leitores e leitoras contam como descobriram o crossdressing, como viviam, com quem podiam ou não conversar;

- **textos de ficção**, contos e crônicas assinados com nomes reais, pseudônimos e iniciais;

- **contribuições de debate**, discutindo o que significava se entender como transvesti, qual o lugar disso na sociedade e como responder às críticas externas;

- **fotografias**, tanto profissionais (de estúdio) quanto privadas — item raro e precioso para quem pesquisa a história da apresentação de gênero.

Chama atenção a diversidade de assinaturas: de nomes conhecidos do meio a colaboradores identificados apenas por siglas, o que sugere tanto desejo de visibilidade quanto cuidado com a exposição — um dilema que continua muito atual.

## Por que isso importa hoje

É comum olhar para o passado procurando espelhos exatos, e a leitura fica mais rica quando a gente evita essa armadilha. A categoria *Transvestit* dos anos 1920-1930 não corresponde automaticamente às identidades que usamos hoje no Brasil: **crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são coisas diferentes**, com histórias e reivindicações próprias. O termo da época era amplo, médico e carregava sentidos que hoje não usamos — e a travestilidade brasileira, em particular, construiu uma trajetória política e cultural que não se confunde com a da Alemanha de Weimar.

Feita essa ressalva, o valor histórico permanece: ver pessoas escrevendo sobre si em primeira pessoa, organizando uma rede, negociando visibilidade, é uma forma de lembrar que a comunidade não nasceu ontem.

O contexto também pesa. Berlim dos anos 1930 era um ambiente de efervescência e, ao mesmo tempo, de retrocesso iminente. Com a ascensão do nazismo, o Instituto de Ciência Sexual de Hirschfeld foi atacado e a imprensa comunitária foi silenciada. A revista acabou em 1932, pouco antes do fim de um ciclo.

## Como usar este livro

Não é uma leitura de "primeiros passos" — é pesquisa e memória. Algumas ideias práticas:

- leia a introdução de Herrn antes dos fac-símiles; ela dá o mapa de quem era quem e de como a revista funcionava;

- encare os textos como documentos de época: linguagem, diagnóstico e vocabulário mudaram muito;

- se você pesquisa história trans e crossdressing, vale registrar as diferenças entre a terminologia alemã e a brasileira;

- para quem escreve, fotografa ou produz conteúdo comunitário hoje, o material é uma referência sobre ética de exposição: nem todo mundo que colaborou queria ser identificado.

O título está catalogado na Open Library e em acervos universitários; é uma obra de biblioteca, daquelas que se consulta com calma.

## Um lembrete sobre privacidade

O livro mostra como a exposição pública era um risco concreto na vida das pessoas retratadas — e isso não mudou tanto assim. Se você se interessa por história da comunidade, ótimo; mas, ao compartilhar relatos, fotos ou documentos antigos, pense em quem está neles. Expor alguém sem consentimento, ainda que "por curiosidade histórica", não é neutralidade: é dano real.

## Segurança

- Categorias históricas como Transvestit não equivalem às identidades atuais; crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e não binária são distintas.
- O material é documento histórico de sexologia; não deve ser lido como orientação clínica ou diagnóstica.
- Ao compartilhar fotos e relatos antigos, respeite a privacidade e o consentimento das pessoas retratadas.
