# John Derbyshire e o livro que tentou reescrever a história trans

> Quem é John Derbyshire, por que ele defendeu o polêmico livro de J. Michael Bailey em 2003 e o que essa velha teoria ainda tenta dizer sobre crossdressers e pessoas trans.

- Tema: História e cultura
- Tags: transfobia, mídia, história, livros, autoginefilia, comunidade trans
- URL: https://camarimcross.com.br/a/john-derbyshire-e-o-livro-que-tentou-reescrever-a-historia-trans
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/issues/topics/media/john-derbyshire)
- Atualizado: 2026-10-31

## Por que falar de um nome que quase ninguém no Brasil conhece

Se você pesquisa sobre crossdressing, transexualidade ou expressão de gênero em sites em inglês, é provável que esbarre em textos antigos cheios de termos estranhos como “autoginefilia”. Por trás de muitos deles está uma articulação conservadora que, nos anos 2000, tentou emplacar uma explicação única e redutora para todas as pessoas que fogem do gênero designado ao nascer. Um dos nomes dessa engrenagem é o do escritor britânico-americano John Derbyshire.

Derbyshire nasceu em 3 de junho de 1945, estudou na Northampton School for Boys e se formou na University College London. Antes de viver de escrita, trabalhou como programador de computadores para especuladores do mercado financeiro. Seus textos circularam em veículos como National Review, The New Criterion, The American Conservative, Unz Review, Taki's Magazine, VDARE e The Washington Times. Em 2012, foi demitido da National Review depois de publicar um artigo abertamente racista na Taki's Magazine. Ele também é identificado como eugenista e membro do Human Biodiversity Institute, um núcleo conservador que difundiu ideias preconceituosas sobre pessoas trans. Em 2012, recebeu diagnóstico de leucemia linfocítica crônica.

## O livro e a resenha que ajudaram a espalhar o problema

Em 2003, o psicólogo J. Michael Bailey lançou *The Man Who Would Be Queen*, publicado pela Joseph Henry Press. O livro ficou conhecido por defender que existiriam apenas dois “tipos” de mulheres trans: as “transsexuais homossexuais”, descritas como homens efeminados que se montam para atrair homens héteros, e as “autoginéfilas”, descritas como homens héteros excitados pela própria imagem feminina. A obra foi duramente contestada por pessoas trans, por pesquisadores e por parte da imprensa científica da época, tanto por problemas metodológicos quanto pelo tom patologizante.

Derbyshire escreveu uma resenha entusiasmada do livro para a National Review, publicada na edição de 30 de junho de 2003, com o título “Lost in the Male”. Nela, ele repete a tipologia de Bailey, cita o número de “menos de um homem em 12.000” como se fosse um dado consolidado e chega a associar mulheres trans a mortes por asfixia autoerótica — uma ligação sem base séria que a própria fonte original contestava. A resenha também defende a ideia de que aceitação plena de pessoas LGBT teria “consequências antissociais”, sugerindo que o preconceito histórico teria algum fundamento. Não é análise: é opinião política fantasiada de ciência.

Vale lembrar o contexto: tanto o livro de Bailey quanto um livro de Derbyshire saíram em 2003 pela mesma editora, e o próprio autor admitiu em blog que a resenha nasceu de uma rede de contatos entre autores. Isso ajuda a entender por que a obra circulou tanto em círculos conservadores: ela oferecia uma linguagem “técnica” para justificar desconforto com a existência trans.

## O que isso tem a ver com crossdressing

Muita gente que se monta não se identifica como mulher trans, e está tudo bem. Crossdresser, drag queen, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são identidades e práticas diferentes, com histórias e necessidades próprias — e nenhuma delas é piada, doença ou sinônimo das outras.

O problema das teorias do tipo “autoginefilia” é que elas tentam encaixar todo mundo numa caixinha única, geralmente com conotação de vergonha ou de fetiche obrigatório. Para quem está começando a se entender, esse tipo de leitura pode gerar culpa desnecessária e afastar a pessoa de apoio real. Se você se reconhece como crossdresser e quer entender melhor seus desejos, o caminho saudável é conversar com profissionais que trabalhem com gênero de forma afirmativa, ler autores da própria comunidade e frequentar espaços seguros — não se diagnosticar com base em livros de 2003 escritos por quem não faz parte da conversa.

## Onde a coisa pesa no Brasil

Aqui, felizmente, o debate público tem outras balizas. O Supremo Tribunal Federal criminalizou a LGBTfobia em 2019, equiparando-a ao crime de racismo. O Decreto 8.727/2016 garante o uso do nome social e do gênero autodeclarado em órgãos públicos federais, e o SUS assegura o acolhimento pelo nome social. Nada disso resolve tudo, mas dá um chão jurídico que em 2003 não existia.

## Como se proteger ao pesquisar esse tipo de conteúdo

- Desconfie de textos que apresentam tipologias rígidas sobre desejo e identidade como se fossem consenso científico.

- Prefira fontes com revisão por pares atual e com participação de pessoas trans na equipe.

- Ao ler material hostil, use navegação privada e evite comentar com perfis que liguem sua identidade ao seu nome civil.

- Se algo te deixar mal, procure grupos de apoio e, se possível, acompanhamento psicológico afirmativo.

## Fechando a conta

Derbyshire é um exemplo de como a mesma pessoa pode ser, ao mesmo tempo, eugenista declarado e divulgador de teorias sobre pessoas trans. Conhecer esse histórico não é revanchismo: é alfabetização midiática. Saber de onde vêm certas ideias ajuda a não ser pega de surpresa por elas — e a escolher com mais liberdade como você quer viver e nomear a sua própria experiência.

## Segurança

- Textos de 2003 sobre 'autoginefilia' não são diagnóstico; se algo te angustia, procure profissional que trabalhe com gênero de forma afirmativa.
- Nunca use hormônios ou medicamentos por conta própria; procure acompanhamento médico.
- Ao pesquisar conteúdo hostil, use aba privada e proteja sua identidade online.
