# Madeline H. Wyndzen: a psicóloga que questionou os modelos de doença

> Conheça o trabalho da psicóloga americana Madeline H. Wyndzen, que entre 1997 e 2008 criticou cientificamente modelos que tratavam a identidade trans como transtorno ou desvio sexual, e entenda por que esse debate ainda ecoa no Brasil.

- Tema: História e cultura
- Tags: história da psicologia, autogynephilia, identidade de gênero, dsm, transgeneridade, ciência e gênero, privacidade online
- URL: https://camarimcross.com.br/a/madeline-h-wyndzen-a-psicologa-que-questionou-os-modelos-de-doenca
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/issues/psychology/madeline-h-wyndzen)
- Atualizado: 2026-10-31

## Quem foi Madeline H. Wyndzen

Madeline H. "Maddie" Wyndzen (nascida em 1973) é o pseudônimo de uma psicóloga americana que, entre 1997 e 2008, escreveu sobre identidade e expressão de gênero a partir de dois lugares ao mesmo tempo: o de pesquisadora e o de pessoa que vivia aquilo na própria pele. O centro do seu trabalho foi desmontar, com argumentos científicos, a ideia de que existiriam "defeitos" ou patologias específicas por trás das identidades trans.

O nome de pena não foi vaidade. Wyndzen conta que, em determinado momento, precisava de um sobrenome para ser citada em trabalhos acadêmicos no padrão da APA, e que separar a assinatura profissional da vida pessoal também ajudava a manter alguma distância do tema quando precisava cuidar de outras prioridades. É o mesmo dilema de privacidade que muita gente da comunidade enfrenta hoje ao escolher um nome em redes sociais, perfis e formulários.

## Um site pioneiro antes das redes sociais

Em 1997, ela criou no GeoCities um dos primeiros espaços online de recursos sobre transição de gênero, chamado *Gender Outside the Lines*. No ano seguinte, o conteúdo migrou para um domínio próprio, o Gender Web. Em 2001, ganhou o nome *All Mixed Up* e passou a viver em genderpsychology.org.

Contextualizando: era a época da internet discada, de fóruns e listas de e-mail. Não havia YouTube, podcasts nem perfis com dezenas de milhares de seguidores. Um site pessoal com texto longo, referências e cuidado argumentativo era, literalmente, uma das poucas fontes disponíveis para quem procurava entender o próprio gênero sem ser tratada como caso clínico.

## 2003: a crítica ao modelo da "autogynephilia"

Ray Blanchard propôs em 1989 uma teoria segundo a qual a transexualidade feminina seria uma forma de desejo sexual "desviado". A ideia circulava em meios profissionais havia anos, mas ganhou grande popularidade em 2003 com o livro *The Man Who Would Be Queen*, de J. Michael Bailey, e com textos publicados por Anne Lawrence.

Wyndzen publicou então uma das primeiras críticas científicas sistemáticas à teoria. Seus pontos principais:

- as evidências originais nunca haviam sido replicadas de forma independente;

- faltavam grupos de comparação adequados, inclusive de mulheres cisgênero;

- diferenças de idade identificadas nos próprios dados não eram controladas nas análises;

- extraíam-se conclusões de causa e efeito a partir de dados puramente observacionais.

Além do rigor metodológico, havia a questão do respeito: interpretar mulheres trans como "na verdade" homens gays ou como "na verdade" homens crossdressers é uma leitura que embaralha categorias distintas. Crossdressing, orientação homossexual e identidade trans são coisas diferentes — e uma pessoa que se monta eventualmente não é, por isso, uma mulher trans, nem o contrário. Tratar essas experiências como sinônimos não é só impreciso, é desrespeitoso.

## Diagnóstico, rótulo e a comparação com a homossexualidade

Em 1994, a quarta edição do DSM substituiu o diagnóstico de "transexualismo" por "Transtorno de Identidade de Gênero", incluindo versões para infância, adolescência e vida adulta, além de manter o "fetichismo travesti" entre as parafilias.

Em 2004, respondendo a uma resenha favorável ao livro de Bailey publicada no boletim da Divisão 44 da Associação Americana de Psicologia, Wyndzen fez uma comparação que ficou marcada: homens gays e mulheres lésbicas recebiam diagnóstico pelo sofrimento que sentiam, enquanto pessoas trans eram diagnosticadas pelo que eram. Ela lembrava o documentário radiofônico *81 Words* (2002), sobre a retirada da homossexualidade do DSM, e dizia esperar que um dia as gerações futuras achassem incompreensível que ela própria tivesse sido diagnosticada e tratada por "Transtorno de Identidade de Gênero".

Esse debate teve consequências reais. O DSM-5, de 2013, substituiu o diagnóstico por "disforia de gênero", deslocando o foco para o sofrimento e não para a identidade em si. A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, tirou a "incongruência de gênero" do capítulo de transtornos mentais e a colocou em um capítulo de saúde sexual. A direção, portanto, foi a que ela defendia.

## 2008: o comentário ao artigo de Alice Dreger

Em 2008, Wyndzen publicou um comentário avaliado por pares em resposta a um artigo da historiadora Alice Dreger na *Archives of Sexual Behavior*, revista então editada por Kenneth Zucker — nome elogiado no livro de Bailey, o que gerou questionamentos sobre conflito de interesses. Sua tese: o que realmente provocou a reação negativa a Bailey não foi discordar da teoria da autogynephilia, e sim a acusação de que pessoas trans estariam mentindo sobre si mesmas. Para explicar como um debate científico descambou em descrédito pessoal, ela recorreu a vieses conhecidos da psicologia social, como erro fundamental de atribuição, pensamento de grupo, estereótipo e negligência da taxa-base.

## Por que essa história importa aqui no Brasil

O debate parece distante, mas chega fácil ao consultório da esquina. Ainda hoje há profissionais que tratam crossdressing como sintoma a ser corrigido ou que pedem "provas" da identidade de alguém antes de acolher. Vale lembrar:

- o direito ao nome social na administração pública brasileira está garantido pelo Decreto 8.727/2016, e resoluções do Conselho Federal de Psicologia orientam uma prática profissional que não patologize identidades;

- o SUS oferta atendimento no processo transexualizador em serviços especializados, e o acesso a direitos não depende de laudo psicológico ou psiquiátrico;

- em 2019, o STF reconheceu a LGBTfobia como crime, equiparando-a ao racismo;

- ninguém precisa "vencer" um debate teórico para merecer respeito.

## O que tirar disso para o dia a dia

A trajetória de Wyndzen deixa três aprendizados bem práticos. O primeiro é que documentar e argumentar vale a pena: escrever com referências, mesmo em um site pessoal, deu peso a uma crítica que hoje é consenso em boa parte da literatura. O segundo é que pseudônimo e discrição são ferramentas legítimas de proteção — use nomes diferentes em contextos diferentes, revise configurações de privacidade e desconfie de cadastros que pedem documento para coisas que não precisam dele. O terceiro é escolher bem quem te acompanha: se um profissional insiste em te encaixar em um modelo de doença, você pode e deve procurar outra escuta.

Se você quiser conhecer mais, os textos originais dela estão arquivados em genderpsychology.org — lembrando que são material dos anos 1990 e 2000, anteriores a boa parte das mudanças de terminologia que usamos hoje.

## Segurança

- Usar nome de pena é uma escolha legítima de proteção: separe identidade pública e vida pessoal e revise quem pode ver seus perfis.
- Nenhum diagnóstico define quem você é. Procure profissionais que acolham sua identidade sem tratá-la como doença.
- Se um profissional insistir em modelos patologizantes, você pode buscar segunda opinião ou denunciar ao conselho regional de psicologia.
- Textos de psicologia dos anos 1990 e 2000 usam terminologias hoje obsoletas; leia com esse filtro.
