# Mema's House: etnografia das travestis na Cidade do México (1998)

> No livro de Annick Prieur, publicado em 1998, a socióloga convive por meses com travestis e homens bissexuais de um bairro pobre da Cidade do México e analisa gênero, classe, afeto e violência.

- Tema: Livros
- Tags: livros, etnografia, travestis, cidade-do-mexico, genero, historia-cultural
- URL: https://camarimcross.com.br/a/mema-s-house-etnografia-das-travestis-na-cidade-do-mexico-1998
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL2690662W)
- Atualizado: 2026-11-03

## Uma casa como refúgio

Em *Mema's House, Mexico City*, a socióloga norueguesa Annick Prieur leva o leitor para dentro de uma casa no bairro de Nezahualcóyotl, periferia densamente povoada da Cidade do México. Ali, um grupo de jovens homossexuais se reúne para conversar, ouvir música, flertar e simplesmente existir sem a vigilância que enfrentam em casa. A anfitriã, Mema, é educadora em HIV/Aids e lidera essa rede de convivência; foi ela quem abriu a porta para a pesquisadora.

O livro saiu pela primeira vez em 1998 e é resultado de um trabalho de campo iniciado no fim dos anos 1980: Prieur morou na casa por seis meses entre 1988 e 1991 e manteve contato com o grupo por mais de oito anos. É essa longa permanência que dá ao texto a textura de convivência, e não de observação distante.

## Quem circula por ali

A etnografia acompanha principalmente travestis — muitas delas trabalhando como cabeleireiras ou na prostituição — com seus saltos altos, saias curtas, maquiagem carregada e cabelos volumosos. Ao lado delas estão seus parceiros: homens jovens de aparência masculina, camiseta, jeans gasto, cabelo curto, às vezes bigode, muitos deles bissexuais. Prieur circula também pelas famílias, pelas ruas à noite, pelas discotecas e até por prisões, registrando afetos, brigas, fofocas, alianças e deslealdades.

O fio analítico mais interessante é a pergunta sobre por que essas construções de gênero específicas existem nas classes trabalhadoras mexicanas — e como podem ser tão difundidas numa sociedade marcadamente masculina, justamente a que deu origem à palavra *machismo*. A autora trabalha conceitos como família, classe, dominação, papel do corpo e a produção de diferenças entre os próprios homens.

## Por que isso interessa a quem lê o CamarimCross

Para quem pensa expressão de gênero no Brasil, o livro funciona como uma janela histórico-cultural. Vale lembrar que as categorias não são intercambiáveis: **crossdresser**, **drag queen**, **travesti**, **pessoa trans** e **pessoa não binária** descrevem experiências e identidades distintas. Na América Latina, o termo *travesti* tem forte carga identitária e política, especialmente no Brasil, e não é sinônimo de crossdressing nem de fantasia.

Também é um documento de época. Escrito antes da popularização da internet e num contexto específico de resposta à epidemia de HIV/Aids, o texto reflete o vocabulário e as preocupações dos anos 1980 e 1990. Muitos termos mudaram, e algumas leituras hoje soariam datadas — o que não diminui o valor do registro, mas pede leitura crítica.

## O que esperar da leitura

- **É pesquisa acadêmica**, com teorias e discussões conceituais; não é manual prático nem relato leve de bastidores.

- **Traz cenas duras**: prostituição, violência, prisões, uso de drogas e situações de vulnerabilidade aparecem ao longo dos capítulos.

- **O foco é a vida social**, não a sexualidade explícita; o interesse da autora está nas relações, nas hierarquias e nos afetos.

- **O olhar é de fora**: uma pesquisadora europeia descrevendo uma comunidade mexicana. Vale sempre se perguntar o que o grupo diria sobre a própria história.

Se você quer ampliar o repertório sobre travestilidade na América Latina com um contraponto brasileiro, uma companhia frequente para esta leitura é *Travesti*, do antropólogo Don Kulick, também de 1998, fruto de pesquisa em Salvador. Ler os dois lado a lado mostra como contextos diferentes produzem vocabulários e organizações sociais próprias.

## Como usar esse material com respeito

Trate as pessoas descritas no livro como sujeitos de uma história real, não como personagens exóticos. Se você pesquisa o tema para entender a própria expressão de gênero, aproveite para refletir sobre privilégios: quem pode se montar em segurança e quem precisa negociar cada saída na rua. E lembre que o Brasil mudou desde 1998 — hoje há reconhecimento de nome social, decisões do STF sobre a criminalização da LGBTfobia e uma rede de grupos e coletivos que não existia naquela época.

Onde comprar: o título é de editora universitária e circula principalmente em sebos, bibliotecas universitárias e plataformas de livros usados; em português, a disponibilidade é limitada, então vale checar acervos de bibliotecas públicas e programas de empréstimo entre instituições.

## Segurança

- O livro descreve prostituição, violência, prisão e uso de drogas; leia com atenção ao seu próprio limite emocional.
- As referências sobre HIV/Aids são do fim dos anos 1980 e 1990 e não servem como orientação de saúde atual — procure o SUS ou um serviço especializado.
- Ao pesquisar temas de gênero na internet, proteja sua identidade em perfis e evite expor endereço, rotina ou fotos reconhecíveis.
- Nunca confunda travesti, crossdresser, drag e pessoa trans: são identidades e práticas diferentes, e cada pessoa fala por si.
