# Mulheres santas que se vestiram de monge na Bizâncio antiga

> O estudo de Khalifa Abubakr Bennasser, de 1985, analisa mulheres santas do monaquismo bizantino que viveram como monges — um capítulo curioso da história do crossdressing e da expressão de gênero.

- Tema: História e cultura
- Tags: história, bizâncio, monaquismo, crossdressing, santidade, gênero, livros
- URL: https://camarimcross.com.br/a/mulheres-santas-que-se-vestiram-de-monge-na-bizancio-antiga
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL11743963W)
- Atualizado: 2026-11-01

## Um livro antigo, um assunto que ainda intriga

Quem pesquisa a história do crossdressing costuma esbarrar em títulos acadêmicos pouco óbvios. É o caso de *Gender and sanctity in early Byzantine monasticism* (“Gênero e santidade no monaquismo bizantino antigo”), de Khalifa Abubakr Bennasser, publicado em 1985. À primeira vista, parece um estudo sobre vida religiosa e ascese. Mas entre os assuntos catalogados aparece, discretamente, a palavra *cross-dressing* — e é aí que a coisa fica interessante.

O livro investiga um fenômeno recorrente nas hagiografias (as biografias de santos) do cristianismo oriental: mulheres que abandonaram a vida social, cortaram o cabelo, vestiram hábito masculino e passaram anos — às vezes a vida inteira — vivendo em mosteiros como se fossem homens. Algumas só tiveram o sexo revelado depois da morte.

## Quem eram essas figuras

A tradição bizantina preservou várias dessas histórias. Entre as mais conhecidas estão:

- **Pelágia, a penitente** (século V): teria se disfarçado e vivido como eremita em Jerusalém sob identidade masculina.

- **Marina, chamada Marinus**: viveu em um mosteiro no Líbano e, segundo a lenda, foi acusada de paternidade — o que só se resolveu após sua morte.

- **Eufrosina**: filha de família rica que fugiu do casamento para se tornar monge em um mosteiro masculino.

- **Teodora de Alexandria**: teria assumido hábitos masculinos depois de uma crise pessoal e vivido como asceta.

Esses relatos circulavam como edificantes: mostravam humildade, renúncia e santidade. Para quem lê hoje com olhar de gênero, eles dizem algo a mais — sobre como roupas, cabelo e aparência funcionavam como tecnologia social muito antes de existir a palavra “passabilidade”.

## Por que elas se vestiam assim

As motivações, tal como aparecem nas fontes, são variadas e nem sempre coincidem com o que chamaríamos hoje de expressão de gênero:

- **Acesso à vida monástica.** Os mosteiros femininos eram menos numerosos e muitas vezes menos autônomos. Vestir-se de monge abria portas institucionais.

- **Segurança.** Mulheres viajando sozinhas estavam expostas a violência. Passar por homem era uma estratégia de proteção — algo que qualquer pessoa que já saiu à rua com medo reconhece, em outra escala.

- **Ascese radical.** Renunciar à identidade social, inclusive à leitura que os outros faziam do corpo, era parte do ideal de aniquilamento do eu.

- **Devocional e literário.** Parte dessas histórias foi construída para ensinar virtudes, e não necessariamente descreve vidas reais com precisão.

## O que o livro de Bennasser ajuda a pensar

O trabalho de 1985 se insere em uma linhagem de estudos sobre gênero e santidade que ganhou força nas décadas seguintes. A contribuição está em tratar o assunto como questão histórica séria, e não como curiosidade pitoresca: como o monaquismo definia o que era comportamento masculino ou feminino, e como essas fronteiras podiam ser cruzadas justamente em nome da virtude.

Vale um cuidado importante: o catálogo usa termos como *cross-dressing* de forma descritiva, no vocabulário acadêmico da época. Isso não autoriza a chamar essas pessoas de “travestis” no sentido pejorativo, nem a concluir que seriam trans — identidade de gênero é autodeclarável e não se lê retroativamente a partir de uma fonte do século VI. Há debate legítimo entre historiadores sobre até que ponto essas narrativas falam de identidade, de estratégia ou de puro recurso literário.

O que se pode afirmar com segurança é que a história do vestir-se com roupas associadas a outro gênero é muito mais antiga e muito mais variada do que a internet costuma sugerir. Ela inclui monges bizantinos, atrizes do século XVII, soldados, costureiras e gente comum que simplesmente preferia outra silhueta no espelho.

## Como usar essa referência na prática

- O registro está no **Open Library**, que funciona como catálogo aberto e costuma indicar bibliotecas onde o título existe.

- Sendo uma obra acadêmica de 1985, é provável que circule em bibliotecas universitárias e em serviços de empréstimo entre instituições.

- Se você estuda gênero, história medieval ou religião, vale procurar também textos mais recentes sobre “monjas transvestidas” — o tema aparece em estudos sobre hagiografia e corpo.

- Para quem só quer contexto histórico para conversas da comunidade, este livro é ponto de partida, não palavra final.

## Por que isso importa hoje

Olhar para essas histórias não serve para provar que “sempre existimos” de um jeito único, mas para mostrar que organizar a vida em torno de roupas, cabelo e papéis de gênero é uma prática humana antiga e cheia de nuances. Também é um exercício de humildade: o passado não confirma nossas categorias atuais, ele as complica.

E há um lado afetuoso nisso. Saber que, séculos atrás, pessoas atravessaram fronteiras de aparência para conseguir segurança, fé ou liberdade dá uma dimensão maior ao gesto simples de abrir o armário hoje — com a diferença de que, no Brasil de hoje, podemos fazer isso com nome social garantido em espaços públicos e com a LGBTfobia criminalizada pelo STF desde 2019.

## Segurança

- Termos antigos de catálogo, como 'transvestite', são descritivos e não devem ser usados para rotular pessoas hoje.
- Evite deduzir a identidade de gênero de personagens históricos: identidade é autodeclarada.
- Se o tema despertar questões sobre a sua própria identidade, buscar apoio em grupos e, se quiser, em acompanhamento psicológico acolhedor pode ajudar.
