# O crime anti-homossexual no Brasil: o livro de Luiz Mott sobre memória e violência

> Publicado em 2002, o livro de Luiz R. B. Mott reúne pesquisas sobre assassinatos e agressões motivados por homofobia no Brasil, incluindo vítimas travestis e crossdressers. É uma obra de memória e denúncia que ajuda a entender a violência contra a comunidade.

- Tema: Livros
- Tags: livros, memória, violência, lgbtfobia, direitos, história
- URL: https://camarimcross.com.br/a/o-crime-anti-homossexual-no-brasil-o-livro-de-luiz-mott-sobre-memoria-e-violencia
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL1010102W)
- Atualizado: 2026-11-03

## Um livro para não esquecer

Publicado em 2002, *O crime anti-homossexual no Brasil* reúne a pesquisa do antropólogo **Luiz R. B. Mott** sobre a violência cometida contra pessoas gays, travestis e crossdressers no país. A obra é um marco nos estudos sobre homofobia no Brasil porque tira do esquecimento uma série de casos que, durante muito tempo, foram tratados como "crimes de paixão", "brigas de rua" ou simplesmente ignorados pela imprensa e pelas autoridades.

O trabalho de Mott é denso e documental: cruza notícias de jornal, registros policiais e relatos para mostrar que existe um padrão — não um acidente — por trás dos assassinatos de pessoas LGBT. O livro não é uma leitura leve, mas é um daqueles títulos que ajudam a entender de onde vêm muitas das conquistas de direitos que tivemos depois.

## Quem foi Luiz Mott

Luiz Mott é um dos nomes mais conhecidos do movimento LGBT brasileiro. Antropólogo de formação e professor, ele fundou o **Grupo Gay da Bahia (GGB)** em 1980, a organização ainda hoje ativa. Foi uma das primeiras vozes a insistir que a violência contra a nossa comunidade precisava ser contada, medida e denunciada com números, e não apenas vivida.

O livro de 2002 é resultado dessa lógica: se os dados não existem, a sociedade finge que o problema também não. Ao compilar casos, Mott deu material para pesquisadores, jornalistas, advogados e ativistas que vieram depois.

## O que a obra ajuda a enxergar

Alguns pontos importantes que o livro levanta:

- **Travestis e crossdressers aparecem entre as vítimas.** Quando a violência atinge alguém "montado" ou com expressão de gênero fora do padrão, a agressão costuma ser mais cruel e menos investigada. Vale lembrar que travesti, crossdresser, drag queen, pessoa trans e pessoa não binária são identidades e expressões diferentes — e nenhuma delas deveria ser motivo de violência.

- **A imprensa tem um papel nisso.** Mott mostra como o sensacionalismo e o desrespeito ao nome e à identidade das vítimas contribuíram para naturalizar os crimes. Hoje, esse debate está em outro nível: o nome social e o respeito à identidade já são pauta de políticas públicas, mas a cobertura policial ainda tem muito a melhorar.

- **O registro é uma forma de resistência.** Sem memória, cada caso parece isolado. Com memória, a comunidade consegue cobrar do Estado o que ele deve.

## Por que essa leitura dialoga com a experiência crossdresser

Para quem se monta e vive parte da expressão de gênero no privado ou em saídas específicas, o livro toca em um ponto sensível: **a exposição**. Histórias de violência urbana reforçam por que tantas pessoas preferem cuidar da segurança antes de qualquer coisa — escolher bem o lugar, o horário, com quem sair e como voltar.

Ao mesmo tempo, a obra lembra que o problema não está em existir, e sim em quem agride. Não é sobre se comportar de um jeito mais discreto para não ser odiada; é sobre uma sociedade que ainda precisa aprender a respeitar expressões de gênero diversas.

## Direitos e apoio no Brasil de hoje

Muita coisa mudou desde 2002 — e parte disso veio justamente do tipo de denúncia que o livro representa:

- Em **2019**, o Supremo Tribunal Federal decidiu que atos de homofobia e transfobia devem ser punidos pela Lei do Racismo (Lei 7.716/1989), enquanto o Congresso não aprova uma lei específica.

- O **nome social** é garantido em serviços públicos e em muitas instituições privadas; você pode solicitar o uso do nome pelo qual quer ser chamada em documentos administrativos, prontuários e atendimentos.

- **Disque 100** (Direitos Humanos) e o **Ligue 180** (violência contra a mulher) permitem denúncias anônimas. Em emergência, o número é **190**.

- Delegacias especializadas em crimes contra pessoas LGBT existem em algumas cidades; onde não existem, vale registrar o boletim de ocorrência e procurar uma defensoria pública.

## O que esperar ao ler

É um livro acadêmico, com tabelas, listas de casos e linguagem de pesquisa. Não é leitura de praia. Uma boa estratégia é ler por capítulos, anotar nomes e datas de seu interesse e usar o livro como ponto de partida para conhecer outras obras sobre história LGBT brasileira.

## Resumo prático

Se você quer entender como a violência contra a nossa comunidade foi documentada no Brasil, comece por aqui. Se quer apenas uma introdução mais leve, procure textos de divulgação sobre o trabalho de Mott e do GGB. De qualquer forma, o título de 2002 continua sendo uma referência para quem pesquisa, escreve ou participa do movimento — e um lembrete de que lembrar também é uma forma de cuidar umas das outras.

## Segurança

- Se você sofrer agressão ou ameaça, priorize sua integridade física: procure um local seguro e ligue 190. Denúncias anônimas podem ser feitas pelo Disque 100.
- Registre boletim de ocorrência e, se possível, guarde provas (mensagens, fotos, testemunhas). A homofobia e a transfobia são punidas pela Lei do Racismo desde a decisão do STF em 2019.
- Ao sair montada, combine seu trajeto com alguém de confiança, avise onde estará e evite locais desertos ou horários de pouco movimento.
