# Quem é Julie Bindel, voz britânica do ativismo antitrans

> Perfil da jornalista britânica Julie Bindel, figura histórica da mídia antitrans no Reino Unido: trajetória, polêmicas, processos e o impacto do seu discurso sobre pessoas trans e a comunidade no Brasil.

- Tema: História e cultura
- Tags: julie bindel, ativismo antitrans, mídia, reino unido, direitos trans, desinformação
- URL: https://camarimcross.com.br/a/quem-e-julie-bindel-voz-britanica-do-ativismo-antitrans
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/politics/media/julie-bindel)
- Atualizado: 2026-10-31

## Quem é Julie Bindel

Julie Bindel é uma autora e jornalista britânica nascida em 20 de julho de 1962, em Darlington, no condado de Durham, Inglaterra. Ela é uma das figuras midiáticas mais antigas e recorrentes do chamado ativismo antitrans no Reino Unido — uma corrente que se apresenta como defensora dos direitos das mulheres, mas cujo eixo central é tratar mulheres trans como ameaça a mulheres cisgênero.

Entender quem são essas vozes, o que elas dizem e como operam ajuda a comunidade a se proteger da desinformação e a responder com argumentos, não com pânico.

## Da militância antiviolência ao jornalismo

Aos 17 anos, Bindel mudou-se para Leeds e se envolveu com o Leeds Revolutionary Feminist Group, um coletivo feminista antipornografia. Naquela época, o assassino serial conhecido como "Yorkshire Ripper", Peter Sutcliffe, matava mulheres na região; ela relatou ter sido seguida, em 1980, por alguém parecido com ele.

No fim dos anos 1980, atuou em campanhas contra a violência. Em 1991, cofundou o Justice for Women, organização que oferecia apoio jurídico a mulheres condenadas após reagir à violência de homens. A partir de meados dos anos 1990, passou a trabalhar como jornalista e, no fim daquela década, tornou-se colunista regular do jornal The Guardian, onde escreveu por mais de vinte anos, cobrindo temas como violência doméstica, prostituição, tráfico de pessoas e a situação de mulheres em zonas de conflito.

Publicou livros como *Straight Expectations* (2014), *The Pimping of Prostitution* (2017) e *Feminism for Women* (2021).

## O ponto de virada de 2004

Segundo o levantamento do Transgender Map, Bindel foi fortemente influenciada pela autora Janice Raymond, que descreve mulheres trans como ameaça a mulheres cis. Em 2004, um artigo seu no Guardian, intitulado "Gender Benders, beware", gerou mais de 200 cartas de reclamação — um marco que a própria autora descreve como divisor de águas. Ela pediu desculpas pelo tom, mas, nas décadas seguintes, passou a expressar posições antitrans com frequência e intensidade crescentes, publicando em veículos como UnHerd, The Critic, Daily Mail e em uma newsletter própria no Substack.

Em 2008, quando a ONG Stonewall a indicou na categoria Jornalista do Ano, o evento foi alvo de protesto. Em 2020, ela processou a publicação LGBTQ britânica PinkNews por difamação por causa de uma reportagem sobre abusos dentro do movimento feminista antitrans — reportagem que não a citava pelo nome. O caso foi encerrado com um acordo e uma declaração conjunta das partes.

Durante o Mês do Orgulho de 2025, Bindel afirmou que o Pride teria virado um "orgulho de pervertidos", dizendo-se cansada de ser agrupada com pessoas trans, pessoas não binárias, assexuais e aromânticas. Em setembro de 2025, foi retirada de um evento do Pride em Surrey, no Reino Unido.

## Por que esse debate chega ao Brasil

O Brasil tem sua própria legislação e políticas de proteção. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF), na ADO 26, equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, tornando a discriminação por identidade de gênero passível de responsabilização. O Decreto 8.727/2016 garante o uso do nome social e do reconhecimento da identidade de gênero em órgãos públicos federais, e o SUS oferece o Processo Transexualizador, com acompanhamento multiprofissional.

Isso importa porque o discurso antitrans costuma circular internacionalmente com os mesmos argumentos: a ideia de que mulheres trans ameaçariam espaços femininos, de que a transição seria uma "moda" ou de que jovens estariam sendo "influenciados". São afirmações sem base científica que alimentam hostilidade e afetam diretamente pessoas trans, travestis e pessoas não binárias — e também pessoas crossdresser, que muitas vezes são tratadas de forma errada nesse mesmo discurso.

Vale reforçar: crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são identidades e expressões diferentes, com histórias e demandas próprias. Não são sinônimos, não são piada e não são doença.

## Como se informar e se proteger

- **Cheque a fonte antes de compartilhar.** Textos de opinião não são reportagem; se um artigo ataca a existência de um grupo, desconfie.

- **Priorize informação de organizações trans e de veículos com política editorial clara.**

- **Cuide da sua privacidade online:** use apelidos, revise configurações de redes sociais e evite publicar detalhes de rotina que permitam identificação.

- **Busque comunidades de apoio** — grupos locais, coletivos e espaços moderados ajudam a filtrar assédio.

- **Em saúde, procure profissionais com experiência em identidade de gênero.** Nenhum conteúdo de internet substitui avaliação médica individual.

## Para saber mais

As fontes citadas pelo Transgender Map incluem textos de Rachel Saunders, Gemma Stone, Ruth Pearce, Christine Burns e Stephen Hines, além de reportagens do Guardian, PinkNews, The Independent e The Telegraph. Ler com senso crítico — inclusive as colunas de Bindel — é parte do exercício de entender como o discurso antitrans se construiu nas últimas duas décadas e como respondê-lo com acolhimento e informação.

## Segurança

- Ao ler textos de opinião contra a existência de grupos, verifique a fonte e as evidências antes de compartilhar.
- Proteja sua identidade online: apelidos, fotos sem metadados e perfis fechados reduzem risco de exposição e assédio.
- Assuntos de saúde e transição exigem acompanhamento médico individual; nenhum artigo substitui consulta com profissional qualificado.
