# Quem é Ray Blanchard e por que suas teorias sobre pessoas trans são contestadas

> Sexólogo canadense criador do conceito de autoginofilia, Blanchard influenciou o DSM e é alvo de críticas de pessoas trans e de pesquisadores. Entenda o debate e o que ele significa para crossdressers no Brasil.

- Tema: História e cultura
- Tags: ray blanchard, autoginofilia, história trans, dsm, patologização, crossdressing
- URL: https://camarimcross.com.br/a/quem-e-ray-blanchard-e-por-que-suas-teorias-sobre-pessoas-trans-sao-contestadas
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/issues/psychology/ray-blanchard/biography)
- Atualizado: 2026-10-31

## Quem é Ray Blanchard

Ray Milton Blanchard III nasceu em 9 de outubro de 1945, nos Estados Unidos, e fez carreira no Canadá. É psicólogo clínico de formação, com pós-graduação na Universidade de Illinois, e passou décadas trabalhando no Clarke Institute of Psychiatry, em Toronto — instituição que mais tarde foi incorporada ao Centre for Addiction and Mental Health (CAMH), um dos maiores centros de saúde mental do Canadá.

Um detalhe biográfico que ele mesmo costuma citar: seu pai, Ray Milton Blanchard Jr., marinheiro da Marinha americana, morreu no naufrágio do porta-aviões USS Franklin, em 19 de março de 1945, quando a mãe estava grávida. Blanchard se descreve como filho póstumo. Esse histórico familiar aparece em discussões públicas sobre sua trajetória e sobre sua classificação militar (4-A, dispensa concedida a filhos únicos de militares mortos em combate), tema que ele esclareceu por escrito em 2009 depois de ser acusado de ter fugido do serviço militar.

## O peso do Clarke Institute e a herança de Kurt Freund

Para entender Blanchard, é preciso olhar para o lugar onde ele trabalhou. O Clarke Institute ficou conhecido por abrigar pesquisas que tratavam a homossexualidade e a diversidade de gênero como desvios a serem medidos e corrigidos. Foi lá que o psiquiatra tcheco Kurt Freund desenvolveu a falometria peniana, técnica usada para "detectar" orientação sexual — inclusive em triagens militares de jovens acusados de mentir para evitar o serviço.

Blanchard foi colaborador próximo de Freund e herdou dele o método e o vocabulário. Grande parte da crítica contemporânea a Blanchard não é sobre sua competência técnica, mas sobre a escolha de tratar identidades como objetos de medição laboratorial.

## A tipologia e o conceito de autoginofilia

O nome de Blanchard ficou conhecido sobretudo por dois trabalhos. O primeiro é a divisão das mulheres trans em dois grupos com base na orientação sexual: as "homossexuais" (atraídas por homens) e as "não homossexuais", que incluíam quem se excitava com a ideia de si mesma como mulher. O segundo é justamente o termo criado por ele em 1989 para descrever esse segundo grupo: **autoginofilia**, a excitação com a fantasia de si mesma como mulher.

O conceito acabou extrapolado para explicar todo o universo do crossdressing e da expressão de gênero. É aí que começa o problema. A teoria parte de amostras clínicas — pessoas que chegaram a um serviço de saúde mental — e foi generalizada como se descrevesse todas as pessoas trans e todas as pessoas que se montam. Estudos posteriores não confirmaram essa universalidade, e muitas pessoas relatam que sua expressão de gênero não é principalmente sexual, mas identitária, estética, afetiva ou simplesmente prazerosa.

Entre as críticas mais frequentes estão: o risco de circularidade (a teoria explica o que ela mesma definiu), a invisibilização de travestis e pessoas não binárias e a transformação de uma experiência pessoal em rótulo diagnóstico.

## O DSM e a disputa política

Blanchard participou do grupo de trabalho que revisou os critérios de parafilias no DSM-5, a versão mais recente do manual diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana, ao lado de Kenneth Zucker — outro nome bastante criticado por sua abordagem de "correção" de crianças com variação de gênero.

Vale saber como o manual ficou: o DSM-5 substituiu o antigo "transtorno de identidade de gênero" por **disforia de gênero**, com foco no sofrimento e no prejuízo funcional, e não na identidade em si. Já o "transtorno transvéstico" continua listado — mas o critério exige sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo. Ou seja: vestir-se com roupas do gênero oposto, por si só, não é diagnóstico. Se você se monta e vive bem com isso, não há transtorno nenhum a ser tratado.

## Por que esse debate importa no Brasil

Aqui, duas coisas andam juntas. A primeira é o cuidado com profissionais que ainda tratam crossdressing como sintoma a ser extinto. A Resolução nº 01/2018 do Conselho Federal de Psicologia proíbe práticas de patologização e de "conversão" de identidade de gênero e orientação sexual — se alguém prometer "curar" você, é sinal de alerta. A segunda é o reconhecimento de direitos: o STF criminalizou a LGBTfobia em 2019, e o nome social é garantido em diversos serviços públicos por decreto federal e por leis estaduais e municipais.

Para a saúde, o SUS tem o Processo Transexualizador, mas ele é voltado a quem busca transição — não é pré-requisito nem passaporte para nada. Quem se identifica apenas como crossdresser pode buscar acompanhamento psicológico comum, inclusive para questões como autoestima, relacionamentos e decisões sobre se montar em público.

## Como ler textos como este sem se perder

A página original que inspirou este texto é uma crítica militante e assumidamente pessoal, escrita por uma ativista trans que teve atritos públicos com Blanchard, e traz especulações sobre a vida privada dele que não devem ser tratadas como fato. Blanchard, por sua vez, publicou respostas contestando parte das acusações.

O caminho mais seguro é separar três coisas: (1) os fatos históricos, como a existência do Clarke Institute e a criação do termo autoginofilia; (2) as críticas conceituais, que são legítimas e bem documentadas; e (3) as brigas pessoais, que não precisam entrar na sua vida.

Se a autoginofilia aparecer na sua pesquisa sobre crossdressing, lembre-se: é uma hipótese dos anos 1980, feita a partir de um consultório, e não uma descrição obrigatória de quem você é.

## Segurança

- Nenhum texto sobre autoginofilia substitui avaliação profissional: evite se autodiagnosticar ou aceitar rótulos dados por curiosos na internet.
- Desconfie de terapeutas que prometam 'curar' crossdressing ou identidade de gênero — a Resolução CFP nº 01/2018 proíbe esse tipo de prática no Brasil.
- Se for procurar atendimento, prefira profissionais que respeitem nome social e não exijam 'provas' de identidade para acolher você.
- Ao pesquisar o tema online, proteja sua identidade: use perfis separados e evite compartilhar dados pessoais em fóruns abertos.
