Livro

Título
'O Au No Keia: Voices from Hawai'i's Mahu and Transgender Communities
Autoria
Andrew Matzner
Ano
2001

O livro e seu lugar

“O Au No Keia: Voices from Hawai’i’s Mahu and Transgender Communities” foi publicado em 2001 pela Xlibris, com 293 páginas e ISBN 0-7388-6161-8. O título, em havaiano, se aproxima de “este sou eu” ou “aqui estou”. Andrew Matzner, historiador e autor, reúne relatos em primeira pessoa de quatorze mulheres ligadas às comunidades mahu e trans do Havaí. O resultado não é um estudo que fala por cima das entrevistadas, mas uma coletânea de escuta: cada capítulo acompanha uma trajetória e deixa que a própria pessoa conduza o relato.

Mahu: uma palavra com história

Mahu é um termo havaiano de origem complexa. Na tradição local, esteve ligado a pessoas intersexo; com o tempo, passou a ser associado a vivências trans e, em muitos contextos atuais, é usado como insulto. O livro não ignora essa tensão. Ao apresentar as narrativas, Matzner mostra que a palavra carrega memória cultural, mas também pode ferir quando aplicada sem consentimento. Para quem lê no Brasil, vale lembrar que mahu não é sinônimo automático de travesti, mulher trans, drag queen ou pessoa não binária. Cada identidade tem história própria, e o respeito começa por ouvir como cada pessoa se nomeia.

Havaí, cultura e resistência

A obra também ajuda a entender um Havaí que não se resume a cartão-postal. O arquipélago viveu um processo de retomada de tradições, incluindo a grafia com apóstrofo, depois de séculos de missionarismo cristão e ocupação ocidental que desvalorizaram práticas locais. As entrevistadas têm origens étnicas variadas: havaianas, haole (pessoas brancas vindas do continente) e combinações como havaiana-portuguesa-chinesa, havaiana-irlandesa-chinesa, havaiana-filipina-samoana e até havaiana-filipina-indiana-germânica-espanhola. Essas misturas aparecem nos relatos como parte da riqueza e das contradições do lugar.

Trajetórias que se cruzam

Entre as histórias, aparecem lembranças da vida noturna de Honolulu e do clube The Glade, espaço importante para shows e competições de drag. Há relatos de drag queens de escola antiga, de mulheres que transicionaram em idades diferentes, de uma veterana da Marinha, de uma pessoa que fez faculdade e depois abriu um salão de beleza, e de alguém que chegou a disputar uma vaga no senado estadual do Havaí. Também surgem experiências de quem cresceu nas Filipinas, de quem se mudou para Nova York ainda adolescente e de quem só encontrou apoio depois de adulta. O livro não transforma essas vidas em exemplos de superação fáceis; ele mostra redes de amizade, famílias escolhidas, grupos de apoio, fé, trabalho e arte.

A noção de ohana, família, é central em vários depoimentos. Ela aparece tanto nas relações de sangue quanto nas redes construídas na cena e nos grupos comunitários. Matzner também reserva espaço para a cultura material e simbólica: as Pedras do Mago, quatro rochas ligadas à memória de curandeiras taitianas que teriam chegado ao Havaí no século XVI. A lenda associa essas figuras ao universo mahu, e a capa do livro traz as pedras. É um jeito de lembrar que a história trans e de gênero não começa no consultório médico nem na internet: ela também se inscreve em paisagens, mitos e transmissão oral.

Uma ética de escuta

O ponto mais valioso do projeto talvez seja o método. Matzner relata que fez questão de compartilhar o processo com as participantes, porque durante muito tempo pessoas trans foram descritas por psicólogos, acadêmicos e jornalistas sem participar da edição do que se escrevia sobre elas. A desconfiança inicial fazia sentido. Ao permitir que as entrevistadas revisassem e opinassem, o autor tentou romper com uma tradição de exposição e sensacionalismo. Não se trata de fingir que o pesquisador desaparece, mas de reconhecer que representação também é poder.

Para leitoras e leitores brasileiros, o livro serve como referência de história oral e de respeito comunitário. Ele não oferece receitas de maquiagem, numeração de roupas ou dicas de saída; seu valor está em mostrar como comunidades diversas criam formas próprias de viver gênero, sexualidade e cultura. Também ajuda a evitar generalizações: drag, trans, travesti, mahu e não binário não são a mesma coisa, e uma coletânea como essa só funciona quando as diferenças são tratadas com seriedade.

Quem procura uma leitura acolhedora sobre identidade e comunidade encontra aqui um retrato vibrante, com alegria e dificuldade lado a lado. O título pode ser buscado em sebos, bibliotecas universitárias e lojas de livros usados; por ser uma edição de 2001, vale conferir a disponibilidade antes de comprar. É uma obra para ler com curiosidade e respeito — e para lembrar que escutar é uma prática, não um detalhe.

Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

Reportar

Discussão

Ainda não há discussão sobre este conteúdo.

Começar a discussão