Livro
- Título
- The Transgender Phenomenon
- Autoria
- Richard Ekins, Dave King
- Ano
- 2006
Quem foi Richard Ekins
Richard John Marcus Ekins nasceu em outubro de 1945, no Reino Unido. Antes da carreira acadêmica, tocou jazz em Nova Orleans e segue produzindo música até hoje. Formou-se bacharel pela Universidade de Birmingham em 1966, concluiu o doutorado pela Universidade de Londres em 1978, obteve um mestrado pela Queen's University Belfast em 1989 e, em 1996, foi nomeado membro do Instituto de Psicanálise pela Sociedade Britânica de Psicanálise. Em 2011, somou outro mestrado, pela Universidade de Liverpool. Deu aulas na Ulster University, na Irlanda do Norte.
Para nós, o que interessa é outra parte da trajetória: Ekins foi um dos primeiros pesquisadores a olhar para pessoas trans e de gênero diverso a partir da sociologia, e não a partir de um modelo de doença. Em vez de perguntar "o que há de errado com essa pessoa?", ele perguntava "como essa pessoa aprende, organiza e dá sentido à sua expressão de gênero dentro da sociedade?". É uma mudança de enquadramento que parece pequena, mas muda tudo na forma como a comunidade é descrita em artigos, laudos e manuais.
O encontro com Dave King e a ideia de "femaling"
Segundo a historiadora da comunidade trans Zagria, Ekins e o também sociólogo Dave King se conheceram em 1982, na Conferência Britânica de Sociologia sobre Gênero, em Manchester. A parceria rendeu décadas de publicações.
Ekins cunhou o termo femaling para descrever o processo pelo qual alguém aprende e passa a se apresentar socialmente como mulher — um percurso feito de roupas, gestos, voz, nomes, rotinas e relações, e não um interruptor que liga e desliga. Em parte dos seus textos, ele tratou especificamente dos aspectos eróticos que algumas pessoas associam a esse percurso, sempre em linguagem acadêmica e sem entrar em descrições íntimas.
A polêmica em torno da "autoginefilia"
Em 1989, o psiquiatra Ray Blanchard propôs o conceito de "autoginefilia", uma classificação que dividia mulheres trans em tipos supostamente opostos. Em 1999, no congresso da HBIGDA em Londres, Ekins e King conheceram Anne Lawrence, que defendia publicamente essa teoria. Dois anos depois, os dois publicaram um artigo na International Journal of Transgenderism analisando o tema por uma ótica sociológica — inclusive observando que, em sua avaliação, o fenômeno descrito se parecia com experiências de mulheres cisgênero, e criticando o estilo taxativo e diagnóstico dos seguidores de Blanchard.
É importante dizer com clareza: a teoria da autoginefilia é hoje amplamente contestada por pesquisadores, por entidades de saúde e pela própria comunidade trans, por ser considerada cientificamente frágil e estigmatizante. O valor do trabalho de Ekins e King nesse ponto não está em endossar a teoria, e sim em tratar o entusiasmo em torno dela como um fenômeno social a ser estudado — algo como observar como as pessoas adotam rótulos quando finalmente encontram palavras para se descrever.
Blending Genders e The Transgender Phenomenon
Em 2003, os dois organizaram Blending Genders, uma coletânea que reúne experiências pessoais, formas de organização social, medicalização, cobertura de mídia e política de gênero. Vale a ressalva de que a seção final do livro dá a última palavra a Janice Raymond, autora conhecida por posições críticas e hostis às pessoas trans — um retrato do debate da época, não um aval.
Já em 2006, publicaram juntos The Transgender Phenomenon, em que discutem as reações ao livro The Man Who Would Be Queen, de J. Michael Bailey, e também o site transkids.us, mais tarde revelado como uma farsa criada para alimentar uma briga interna entre grupos que se diziam representantes de "tipos diferentes" de pessoas trans. Ekins e King registraram ali o quanto essas narrativas tipológicas produzem cisões dentro da própria comunidade.
Outros títulos da dupla incluem Male Femaling: A Grounded Theory Approach to Cross-Dressing and Sex-Changing e Virginia Prince: Pioneer of Transgendering (2006), sobre uma das figuras mais influentes — e também polêmicas — da história do crossdressing nos Estados Unidos.
Por que isso importa para quem se monta hoje
Ler sobre esses autores ajuda a entender de onde vêm vários rótulos que ainda circulam. Quando alguém aparece num fórum perguntando "será que eu sou X ou Y?", está repetindo um vocabulário construído por sociólogos e psiquiatras do século 20 — vocabulário que nem sempre nos descreve bem.
Três lições práticas ficam:
- Rótulo não é identidade. Nenhuma categoria acadêmica dá conta de uma pessoa real. Você pode se montar, gostar do que gosta e não precisar se encaixar em tipologia nenhuma.
- Desconfie de teorias que dividem a comunidade. Modelos que opõem "tipos" de pessoas trans costumam servir mais a disputas de legitimidade do que a quem está vivendo a vida.
- História é memória. Conhecer essa trajetória é uma forma de não recomeçar do zero a cada geração.
Para continuar lendo
- Ekins, R. & King, D. Transgendering, Migrating and Love of Oneself as a Woman (2001), International Journal of Transgenderism.
- Ekins, R. & King, D. (orgs.) Blending Genders (Routledge).
- Ekins, R. & King, D. The Transgender Phenomenon (SAGE, 2006).
- Ekins, R. Male Femaling: A Grounded Theory Approach to Cross-Dressing and Sex-Changing.
- O blog da historiadora Zagria é uma fonte valiosa (e gratuita) sobre a história da comunidade.
Nada aqui substitui acompanhamento profissional. Se você está em dúvida sobre sua identidade, procure grupos de apoio e, se quiser, profissionais de saúde e psicologia que trabalhem com gênero de forma afirmativa — no Brasil, o SUS oferece atendimento pelo processo transexualizador.
Segurança
- A teoria da autoginefilia é contestada por pesquisadores e pela comunidade trans; não é diagnóstico válido nem parâmetro para julgar sua identidade.
- Textos acadêmicos e sites de fóruns podem ser fontes de desinformação e de disputas internas — confira autoria e contexto antes de levar conclusões para a sua vida.
- Para questões de identidade e saúde mental, procure acompanhamento profissional; o SUS oferece atendimento no processo transexualizador.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.
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