# Sarah Bernhardt, Colette e a arte do crossdressing no teatro

> Livro de Laura Mariani (1996) analisa como Sarah Bernhardt e Colette usaram a travessia de gênero nos palcos, entre arte, disfarce e performance, e ajuda a pensar a história do crossdressing teatral.

- Tema: História e cultura
- Tags: teatro, crossdressing, sarah bernhardt, colette, história, gênero, travestimento
- URL: https://camarimcross.com.br/a/sarah-bernhardt-colette-e-a-arte-do-crossdressing-no-teatro
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL5507932W)
- Atualizado: 2026-11-01

## Um livro sobre palco, disfarce e história

O volume *Sarah Bernhardt, Colette e l'arte del travestimento*, da pesquisadora italiana Laura Mariani, publicado em 1996, é um estudo de história do teatro. A ficha da Open Library o classifica em assuntos como cross-dressing, drama e atrizes. Ou seja: não se trata de um manual de maquiagem, de um relato íntimo ou de uma obra de ficção, mas de uma análise sobre como duas figuras centrais da cultura francesa usaram o palco para borrar fronteiras de gênero.

A proposta é interessante porque olha para o crossdressing como linguagem artística. Em cena, vestir roupas associadas a outro gênero não é apenas um detalhe de figurino: pode ser interpretação, comentário social, experimento estético e, muitas vezes, uma forma de conquistar espaço profissional em um meio cheio de regras sobre o que uma atriz podia ou não fazer.

## Sarah Bernhardt e os papéis masculinos

Sarah Bernhardt (1844–1923) foi uma das atrizes mais célebres do teatro francês. Entre seus personagens mais comentados estão papéis masculinos, como Hamlet e Lorenzaccio, além do jovem duque de Reichstadt em *L'Aiglon*. Na época, isso causava curiosidade, polêmica e fascínio. Bernhardt não estava necessariamente declarando uma identidade de gênero ao interpretar esses personagens; ela estava ampliando o repertório de uma artista que construiu a própria imagem pública com ousadia.

O livro de Mariani ajuda a situar essas escolhas no contexto do teatro do fim do século XIX e começo do XX. A atriz que ocupa um papel masculino mexe com expectativas do público, com a crítica e com a própria ideia de “naturalidade” na atuação. É um terreno rico para pensar representação, corpo e autoridade artística.

## Colette: escrita, music hall e ambiguidade

Colette (1873–1954) é lembrada sobretudo como escritora, mas também teve uma vida pública marcada pelo music hall, por espetáculos e por uma presença visual ambígua. Cabelos curtos, roupas menos convencionais e personagens que transitavam entre o feminino e o masculino ajudaram a compor uma imagem que desafiava os padrões da época.

Ao colocá-la ao lado de Bernhardt, o estudo não pretende transformar as duas em símbolos idênticos. A proposta é examinar como diferentes artistas usaram recursos teatrais — figurino, gesto, voz, personagem — para construir presenças que não se encaixavam facilmente nas caixas de gênero disponíveis. É uma leitura de história cultural, não um julgamento sobre a vida privada de ninguém.

## O que *travestimento* significa aqui

Vale um cuidado importante de tradução. Em italiano, *travestimento* pode se referir a disfarce, fantasia ou à prática teatral de uma atriz interpretar um papel masculino. Já no Brasil, *travesti* é uma identidade de gênero com história e organização política próprias. São coisas diferentes, e misturar os termos pode gerar confusão ou desrespeito.

O livro trata de uma tradição de palco europeia. Ele não define, e não deveria ser usado para definir, a identidade de pessoas trans, travestis, crossdressers, drags ou não binárias de hoje. Cada uma dessas experiências tem contornos próprios. A contribuição da obra é histórica: mostrar que a travessia de gênero no teatro tem longa trajetória e que já foi usada como arte, crítica e estratégia de visibilidade.

## Por que este livro ainda interessa

- **História do teatro:** ajuda a entender a presença de atrizes em papéis masculinos na França.

- **Estudos de gênero:** oferece material para pensar performance, figurino e expectativa social.

- **Cultura visual:** dialoga com fotografia, cartazes e a construção da imagem pública de artistas.

- **Pesquisa:** é uma referência para quem investiga crossdressing, teatro e história das mulheres.

- **Contexto brasileiro:** lembra que termos e identidades precisam ser traduzidos com cuidado, respeitando diferenças locais.

## Como encontrar e aproveitar a leitura

O registro está disponível na Open Library com o identificador OL5507932W. Como o texto é em italiano e não há indicação de tradução brasileira na ficha, vale procurar exemplares em bibliotecas universitárias, sistemas de empréstimo entre bibliotecas ou acervos especializados em teatro. Se você lê italiano, uma edição usada pode ser uma boa porta de entrada; se não lê, tradutores automáticos ajudam a acompanhar o argumento, mas não substituem uma leitura cuidadosa de termos técnicos.

Uma dica prática é anotar os nomes dos espetáculos e das artistas citados e pesquisar imagens de época em acervos públicos. Isso enriquece bastante a compreensão do contexto, especialmente porque o livro trabalha com teatro, figurino e construção de personagem. Também é útil separar o que é informação histórica do que é interpretação da autora.

## Um convite à pesquisa respeitosa

Ler sobre crossdressing no teatro é também aprender a nomear as coisas com precisão. Bernhardt e Colette viveram em outro país, outra língua e outra época. Trazer esse debate para o Brasil exige respeito às identidades contemporâneas e às diferenças entre palco, vida pública e experiência pessoal. O livro de Mariani não encerra a conversa; ele abre uma porta para pensar como o teatro sempre foi um lugar onde o gênero pôde ser experimentado, questionado e reinventado.
