Por que falar de Simon LeVay?

De vez em quando aparece uma notícia dizendo que "a ciência descobriu" a causa do crossdressing, da transexualidade ou da orientação sexual. Muitas dessas manchetes vêm de um grupo pequeno de pesquisadores que circula há décadas nos mesmos congressos, cita os mesmos colegas e publica nos mesmos veículos. Simon LeVay é uma das figuras centrais desse círculo — e entender o que ele defendeu ajuda a ler com mais cautela o que se divulga sobre nós.

Ele é um neurocientista britânico-americano que ficou famoso nos anos 1990 ao comparar uma pequena estrutura do cérebro e, mais tarde, assinou textos e livros que tratam pessoas trans e pessoas gays de forma reducionista. A crítica a ele não é uma questão de opinião pessoal: vem de historiadores da medicina, biólogos evolutivos e psiquiatras que apontaram problemas metodológicos e éticos no conjunto da obra.

Trajetória

Nascido em 28 de agosto de 1943, em Oxford, na Inglaterra, LeVay estudou em Dulwich College, passou um ano na Alemanha e se formou em Cambridge. Concluiu o doutorado em 1971, em Göttingen, fez pós-doutorado na Harvard Medical School e, em 1984, passou a trabalhar no Salk Institute, na Califórnia. Em 1996, depois de uma iniciativa de educação gay e lésbica que não deu certo, dedicou-se a escrever livros. Em 2003, deu aulas sobre sexualidade em Stanford.

O estudo do INAH3 (1991)

O trabalho mais citado comparou o volume de um núcleo do hipotálamo — o INAH3 — em tecido cerebral obtido de 41 autópsias. A conclusão divulgada foi de que homens gays e mulheres heterossexuais apresentariam estruturas mais parecidas entre si do que com as de homens heterossexuais. A imprensa abraçou a história; os pares, bem menos.

As críticas mais frequentes:

  • Amostra pequena e de origem circunstancial: boa parte dos corpos vinha de pesquisas sobre HIV/aids realizadas na mesma instituição.
  • Histórico sexual frágil: as informações sobre a vida sexual das pessoas falecidas não foram coletadas diretamente, e sim reconstruídas depois da morte; alguns dos classificados como heterossexuais haviam morrido de doenças ligadas à aids.
  • Doença como variável confusa: o tamanho da estrutura poderia ter sido alterado pela própria enfermidade.
  • Medida questionável: discutiu-se se medir volume ou contar células muda o resultado.

A bióloga evolutiva Joan Roughgarden, em Evolution's Rainbow, ironizou o esforço de tirar conclusões amplas a partir de "grãos de arroz" de tecido. Vale lembrar que essa região cerebral já havia interessado a defensores de psicocirurgias para "curar" gays — um histórico que deveria exigir muito cuidado, não pressa.

A defesa pública de um livro anti-trans

Em 2003, LeVay assinou uma das frases de capa do livro The Man Who Would Be Queen, de J. Michael Bailey, chamando a obra de "absolutamente esplêndida". O livro ficou marcado por classificar pessoas trans em categorias rígidas e por descrições que a comunidade recebeu como desrespeitosas e cientificamente frágeis.

"Queer Science" e a proposta de uma "nova eugenia"

No livro Queer Science (1996), LeVay argumenta que os pais deveriam poder escolher características dos filhos — inclusive sexo, orientação sexual e identidade de gênero — e chama isso de eugenia "democrática", feita por conta própria. O argumento é que a decisão individual evitaria os abusos do passado.

O problema é que escolhas nunca são só individuais. Quando uma sociedade desvaloriza meninas, ou meninos afeminados, ou pessoas trans, a "escolha livre" vira seleção de quem merece nascer. O historiador Roy Porter lembrou que eugenistas nazistas usaram raciocínios parecidos para justificar perseguições, e o psiquiatra Vernon Rosario observou que boas intenções não impedem que o mesmo tipo de pesquisa seja usado por quem tem intenções bem menos benevolentes. LeVay respondeu descartando as comparações históricas — o que, por si só, é um sinal de alerta.

O livro didático Human Sexuality

Com Sharon Valente, LeVay publicou em 2003 um manual universitário de sexualidade humana. A obra apresenta a diferença biológica entre sexos como "a divisão mais profunda da sociedade" e trata visões contrárias de forma apressada. Entre os autores mais citados no livro estão J. Michael Bailey, Kurt Freund e Ray Blanchard — justamente os nomes associados à divisão das pessoas trans em "clássicas" e "não clássicas", um esquema que a comunidade e boa parte da literatura atual contestam.

O que isso significa para nós

Nossa identidade não precisa de permissão científica para existir. Nenhum exame de cérebro, nenhuma teoria de infância e nenhuma tipologia define quem você é. Saber disso protege: quando uma matéria de jornal usar um estudo antigo para explicar "o que há de errado" com pessoas trans ou crossdressers, vale checar quem assina, quantas pessoas foram estudadas e quem financiou.

Também é bom lembrar do marco brasileiro: desde 2019, o Supremo Tribunal Federal equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, e o nome social é garantido em diversos serviços públicos e privados. Conhecer seus direitos é parte do autocuidado.

Se você está em dúvida sobre sua expressão de gênero, procure profissionais que trabalhem com escuta afirmativa — não com a lógica de "causa e cura". E desconfie de conteúdo que trate pessoas trans, travestis, drags, crossdressers e pessoas não binárias como se fossem a mesma coisa: são experiências distintas, com necessidades distintas.

Segurança

  • Identidade de gênero não é doença: desconfie de abordagens que prometam 'curar' ou 'explicar' sua expressão.
  • Ao buscar apoio psicológico, prefira profissionais com formação em escuta afirmativa e que respeitem seu nome social.
  • Questões hormonais ou estéticas exigem acompanhamento médico; nenhum texto de divulgação substitui consulta.
  • No Brasil, homofobia e transfobia são equiparadas a crime de racismo desde 2019 (STF); denuncie violências.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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