# Smile as They Bow: o romance birmanês censurado por 12 anos

> Conheça o romance de Nu Nu Yi sobre Daisy Bond, um médium espiritual crossdresser de Mianmar, e o festival de Taungbyon. O livro ficou mais de doze anos proibido pela censura birmanesa.

- Tema: Livros
- Tags: livro, literatura birmanesa, censura, espiritualidade, crossdressing, história-cultura, identidade de gênero
- URL: https://camarimcross.com.br/a/smile-as-they-bow-o-romance-birmanes-censurado-por-12-anos
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL13749704W)
- Atualizado: 2026-11-03

## Um livro que o governo tentou apagar

Publicado em 2008, **"Smile as They Bow"** é um romance da escritora birmanesa **Nu Nu Yi**. O dado que costuma chamar mais atenção não está na trama, e sim na história do próprio manuscrito: a obra passou mais de doze anos barrada pela censura do governo de Mianmar antes de chegar ao público. Mais tarde, o texto se tornou a estreia da autora no mercado editorial dos Estados Unidos — um caminho longo e tortuoso para uma narrativa que trata justamente de pessoas que vivem à margem.

Nu Nu Yi já era uma das autoras mais respeitadas de Mianmar quando, em 2007, se tornou a primeira pessoa vivendo no país a ser indicada a um prêmio literário internacional. Essa combinação — reconhecimento dentro de casa, repressão estatal e projeção fora — ajuda a entender por que o romance interessa tanto a quem acompanha literatura contemporânea quanto a quem pesquisa expressão de gênero na Ásia.

## Onde a história acontece

A trama se passa às vésperas do **Festival de Taungbyon**, uma celebração de uma semana que reúne milhares de pessoas de várias regiões da Birmânia em uma pequena localidade perto de Mandalay. O objetivo é prestar homenagem aos **nats**, espíritos centrais da tradição birmanesa. Durante o festival, os chamados *natkadaws* — médiuns que incorporam essas entidades — conduzem rituais, fazem performances e recebem oferendas dos devotos.

É nesse cenário de música, dança, incenso e multidão que vive **Daisy Bond**, um médium espiritual *crossdresser* e homossexual na casa dos cinquenta anos. Respeitado como um dos natkadaws mais célebres da festa, ele é conhecido pela língua afiada e pelas apresentações cheias de presença. Ao seu lado está **Min Min**, assistente e companheiro mais jovem, que aguenta provocações e humilhações constantes do temperamento explosivo do chefe.

A rotina dos dois se desestabiliza com a chegada de **Pan Nyo**, uma menina que mendiga no festival e que ameaça conquistar o coração de Min Min. A partir daí, Daisy Bond se vê diante dos próprios medos: o envelhecimento, a perda do brilho, o ciúme e a possibilidade concreta de ser substituído — tanto no palco ritual quanto na vida afetiva.

## Por que esse livro importa para a nossa comunidade

O romance não é um relato sociológico, é ficção. Ainda assim, ele oferece um retrato raro de uma figura que existe há gerações em Mianmar: a pessoa que transita entre gêneros e que, dentro de uma tradição religiosa local, ocupa um lugar de prestígio e de trabalho remunerado. Vale a pena destacar alguns pontos para quem lê em português e costuma confundir categorias:

- Daisy Bond é descrito como um homem *crossdresser* e homossexual que se apresenta como mulher nos rituais. Isso **não é o mesmo** que ser uma pessoa trans, que ser drag queen ou que ser travesti — são identidades e práticas diferentes, com histórias próprias.

- O papel de natkadaw tem dimensão espiritual e profissional: é uma função social reconhecida dentro daquele contexto, não uma fantasia de carnaval.

- O livro trata de afeto, ciúme e envelhecimento em relações entre homens, sem romantizar abuso. As provocações de Daisy a Min Min aparecem como algo problemático, parte do retrato de um personagem difícil.

No Brasil, onde religiões de matriz africana como o candomblé e a umbanda também abrigam historicamente pessoas com expressões de gênero diversas, essa leitura pode render paralelos interessantes — desde que feitos com cuidado, sem transformar tradições distintas em uma coisa só.

## Como é a escrita

A prosa é descrita como lírica e envolvente, com comparações a autoras e autores como Arundhati Roy e Ha Jin. A ambientação do festival dá o tom: o barulho, a poeira, a devoção, o comércio, a fé e as pequenas mesquinharias humanas convivendo no mesmo espaço. O humor também está presente, mas é um humor de personagem — nasce do jeito ácido de Daisy Bond, não da ridicularização das pessoas retratadas.

## Vale a pena ler?

Se você gosta de literatura asiática traduzida, de histórias com protagonistas mais velhos e complexos, ou simplesmente quer entender como contextos culturais fora do eixo Europa–Estados Unidos lidam com diversidade de gênero, é uma leitura que vale a procura. O livro está disponível em inglês; em português, vale checar se há tradução em catálogo e, na falta dela, considerar edições importadas de livrarias sérias.

Uma dica prática: se você se interessar pela autora, procure também textos sobre a história editorial de Mianmar. Entender o que a censura barrava — e por quê — muda completamente a forma como a gente lê um romance como esse.

## Segurança

- Prefira comprar o livro em livrarias e sebos confiáveis; baixar arquivos de sites aleatórios expõe seus dados e apoia a pirataria.
- Ao comentar a obra em redes sociais, evite tratar a palavra 'travesti' ou o termo 'crossdresser' como piada — são identidades e práticas distintas.
