Livro
- Título
- The development of masculinity and femininity
- Autoria
- Robert J. Stoller
- Ano
- 1974
Um livro antigo que ainda aparece nas bibliografias
Quem pesquisa sobre identidade de gênero em acervos universitários acaba esbarrando em The Development of Masculinity and Femininity, de Robert J. Stoller, com primeira publicação registrada em 1974. O autor era psiquiatra e psicanalista norte-americano e ficou conhecido por estudar, na clínica, pessoas que hoje chamaríamos de crossdressers, pessoas trans e pessoas com vivências diversas de gênero — usando, é claro, o vocabulário da época, bem diferente do nosso.
Este texto não é uma tradução nem um resumo do livro: é um convite para entendê-lo no contexto certo, sabendo o que ele oferece e onde ele envelheceu.
O que o livro investiga
Segundo o registro da Open Library, a obra é indexada sob assuntos como travestismo, transexualidade, mudança de sexo, masculinidade, feminilidade e transtornos da diferenciação sexual. Na prática, Stoller discutia como uma criança constrói a sensação interna de ser menino ou menina, e como essa sensação nem sempre acompanha o corpo biológico.
Alguns pontos que atravessam a obra:
- a separação entre sexo biológico e identidade de gênero — uma ideia que hoje parece óbvia, mas que estava sendo formulada justamente naquele período;
- a hipótese de que a identidade de gênero nuclear se estabelece muito cedo na infância;
- a análise de casos clínicos de pessoas que se montavam com roupas do gênero oposto e de pessoas que buscavam cirurgia de redesignação;
- a tentativa de explicar, pela psicanálise, por que algumas pessoas desenvolvem uma vivência de gênero diferente da esperada pela família.
O contexto da época — e por que isso importa
Stoller escrevia nos anos 1960 e 1970, quando o termo "travestismo" aparecia nos manuais como diagnóstico psiquiátrico e quando homossexualidade ainda era classificada como doença. Muitos autores daquele momento tentavam encontrar "causas" familiares para a diversidade de gênero, e algumas dessas teorias culpavam mães e pais pelo que os filhos eram.
Hoje sabemos que isso é incorreto e potencialmente cruel. Ser crossdresser, ser travesti, ser uma pessoa trans ou não binária não é doença, não é falha de criação e não é algo a ser curado. A própria Classificação Internacional de Doenças (CID-11) retirou o travestismo fetichista da lista de transtornos mentais, mantendo apenas a incongruência de gênero em um capítulo separado, justamente para garantir acesso a cuidados de saúde sem patologizar a identidade.
Vale também não misturar as coisas: crossdresser é quem gosta de se expressar com roupas e apresentação associadas a outro gênero, sem necessariamente questionar sua identidade; drag é performance artística; travesti é uma identidade política e cultural latino-americana; pessoa trans é quem não se identifica com o gênero atribuído ao nascer; não binária é quem não se encaixa no binarismo. O livro de Stoller trata dessas questões com a linguagem de meio século atrás, e ler sem essa lente pode confundir mais do que esclarecer.
Para quem esse livro serve hoje
- Estudantes e pesquisadores de psicologia, história da sexualidade e estudos de gênero, que precisam conhecer a genealogia dos conceitos;
- Pessoas curiosas sobre como o termo "identidade de gênero" ganhou forma dentro da psicanálise;
- Profissionais de saúde que queiram entender de onde vêm certas ideias ainda repetidas em consultórios;
- Quem busca acolhimento e prefere começar por material atual, escrito por pessoas da comunidade — nesse caso, um livro de 1974 não é o melhor primeiro passo.
Como encontrar no Brasil
Não é fácil achar edição em português deste título em livrarias comerciais. Os caminhos mais realistas são:
- bibliotecas universitárias de psicologia e ciências sociais, que costumam manter o original em inglês;
- sebos online e plataformas de livros usados, buscando pelo nome do autor;
- acervos digitais e o próprio registro da Open Library, que mostra dados da edição e permite pedir empréstimo em bibliotecas parceiras;
- leitura em inglês, já que traduções brasileiras são raras — o texto é técnico, mas acessível com dicionário.
Se o inglês for uma barreira, uma alternativa é procurar artigos acadêmicos em português que citem Stoller e expliquem suas ideias — eles fazem a ponte sem exigir a leitura integral.
Como ler com olhar crítico
Algumas sugestões práticas, caso você decida encarar a leitura:
- leia a introdução e o posfácio (quando houver) antes dos casos clínicos, para entender o recorte do autor;
- anote mentalmente que diagnóstico de época não é sentença sobre a vida de ninguém;
- desconfie de explicações que apontem a família como "culpada" pela diversidade de gênero;
- compare com autores contemporâneos e com textos produzidos por pessoas trans e crossdressers;
- se o conteúdo mexer com você, converse com alguém de confiança ou com um profissional que acolha a sua identidade.
Um lugar na estante, não no altar
Stoller tem mérito histórico: ajudou a firmar a noção de que gênero é diferente de sexo e levou a sério, na clínica, experiências que muitos colegas preferiam ignorar. Ao mesmo tempo, é um autor do seu tempo, com vocabulário diagnóstico hoje abandonado e hipóteses que não se sustentaram.
Ler esse livro é menos sobre descobrir "a causa" de quem somos e mais sobre entender como o conhecimento se constrói, erra e se corrige. A parte boa é que hoje existem muito mais vozes — inclusive em português, no Brasil — falando sobre crossdressing e identidade de gênero com respeito, sem tratá-las como enigma a ser decifrado.
Segurança
- O livro usa termos e diagnósticos da década de 1970; travestismo e diversidade de gênero não são doenças segundo a CID-11.
- Desconfie de teorias que culpabilizam a família pela orientação ou identidade de gênero de alguém — não há base científica para isso.
- Se a leitura despertar angústia sobre sua identidade, procure acompanhamento psicológico acolhedor; no SUS, o processo transexualizador pode ser uma porta de entrada.
- No Brasil, o nome social é garantido pelo Decreto 8.727/2016 e a LGBTfobia é criminalizada pelo STF desde 2019 (ADO 26).
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Open Library - livros (dados abertos). Recomendamos a leitura do original.
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