# Stoller e a formação da masculinidade e feminilidade: um clássico de 1974

> O psiquiatra Robert J. Stoller publicou em 1974 um estudo sobre como masculinidade e feminilidade se formam na infância, tocando em crossdressing, transexualidade e diferenças de sexo — com ideias que hoje pedem leitura crítica.

- Tema: Livros
- Tags: livros, identidade-de-genero, psicanalise, historia, crossdressing, genero
- URL: https://camarimcross.com.br/a/stoller-e-a-formacao-da-masculinidade-e-feminilidade-um-classico-de-1974
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL3362718W)
- Atualizado: 2026-11-02

## Um livro antigo que ainda aparece nas bibliografias

Quem pesquisa sobre identidade de gênero em acervos universitários acaba esbarrando em **The Development of Masculinity and Femininity**, de **Robert J. Stoller**, com primeira publicação registrada em **1974**. O autor era psiquiatra e psicanalista norte-americano e ficou conhecido por estudar, na clínica, pessoas que hoje chamaríamos de crossdressers, pessoas trans e pessoas com vivências diversas de gênero — usando, é claro, o vocabulário da época, bem diferente do nosso.

Este texto não é uma tradução nem um resumo do livro: é um convite para entendê-lo no contexto certo, sabendo o que ele oferece e onde ele envelheceu.

## O que o livro investiga

Segundo o registro da Open Library, a obra é indexada sob assuntos como **travestismo**, **transexualidade**, **mudança de sexo**, **masculinidade**, **feminilidade** e **transtornos da diferenciação sexual**. Na prática, Stoller discutia como uma criança constrói a sensação interna de ser menino ou menina, e como essa sensação nem sempre acompanha o corpo biológico.

Alguns pontos que atravessam a obra:

- a separação entre **sexo biológico** e **identidade de gênero** — uma ideia que hoje parece óbvia, mas que estava sendo formulada justamente naquele período;

- a hipótese de que a **identidade de gênero nuclear** se estabelece muito cedo na infância;

- a análise de casos clínicos de pessoas que se montavam com roupas do gênero oposto e de pessoas que buscavam cirurgia de redesignação;

- a tentativa de explicar, pela psicanálise, por que algumas pessoas desenvolvem uma vivência de gênero diferente da esperada pela família.

## O contexto da época — e por que isso importa

Stoller escrevia nos anos 1960 e 1970, quando o termo "travestismo" aparecia nos manuais como diagnóstico psiquiátrico e quando **homossexualidade ainda era classificada como doença**. Muitos autores daquele momento tentavam encontrar "causas" familiares para a diversidade de gênero, e algumas dessas teorias culpavam mães e pais pelo que os filhos eram.

Hoje sabemos que isso é incorreto e potencialmente cruel. Ser crossdresser, ser travesti, ser uma pessoa trans ou não binária **não é doença, não é falha de criação e não é algo a ser curado**. A própria Classificação Internacional de Doenças (CID-11) retirou o travestismo fetichista da lista de transtornos mentais, mantendo apenas a incongruência de gênero em um capítulo separado, justamente para garantir acesso a cuidados de saúde sem patologizar a identidade.

Vale também não misturar as coisas: **crossdresser** é quem gosta de se expressar com roupas e apresentação associadas a outro gênero, sem necessariamente questionar sua identidade; **drag** é performance artística; **travesti** é uma identidade política e cultural latino-americana; **pessoa trans** é quem não se identifica com o gênero atribuído ao nascer; **não binária** é quem não se encaixa no binarismo. O livro de Stoller trata dessas questões com a linguagem de meio século atrás, e ler sem essa lente pode confundir mais do que esclarecer.

## Para quem esse livro serve hoje

- **Estudantes e pesquisadores** de psicologia, história da sexualidade e estudos de gênero, que precisam conhecer a genealogia dos conceitos;

- **Pessoas curiosas** sobre como o termo "identidade de gênero" ganhou forma dentro da psicanálise;

- **Profissionais de saúde** que queiram entender de onde vêm certas ideias ainda repetidas em consultórios;

- **Quem busca acolhimento** e prefere começar por material atual, escrito por pessoas da comunidade — nesse caso, um livro de 1974 não é o melhor primeiro passo.

## Como encontrar no Brasil

Não é fácil achar edição em português deste título em livrarias comerciais. Os caminhos mais realistas são:

- **bibliotecas universitárias** de psicologia e ciências sociais, que costumam manter o original em inglês;

- **sebos online** e plataformas de livros usados, buscando pelo nome do autor;

- **acervos digitais e o próprio registro da Open Library**, que mostra dados da edição e permite pedir empréstimo em bibliotecas parceiras;

- leitura em inglês, já que traduções brasileiras são raras — o texto é técnico, mas acessível com dicionário.

Se o inglês for uma barreira, uma alternativa é procurar artigos acadêmicos em português que citem Stoller e expliquem suas ideias — eles fazem a ponte sem exigir a leitura integral.

## Como ler com olhar crítico

Algumas sugestões práticas, caso você decida encarar a leitura:

- leia a introdução e o posfácio (quando houver) antes dos casos clínicos, para entender o recorte do autor;

- anote mentalmente que **diagnóstico de época não é sentença** sobre a vida de ninguém;

- desconfie de explicações que apontem a família como "culpada" pela diversidade de gênero;

- compare com autores contemporâneos e com textos produzidos por pessoas trans e crossdressers;

- se o conteúdo mexer com você, converse com alguém de confiança ou com um profissional que acolha a sua identidade.

## Um lugar na estante, não no altar

Stoller tem mérito histórico: ajudou a firmar a noção de que gênero é diferente de sexo e levou a sério, na clínica, experiências que muitos colegas preferiam ignorar. Ao mesmo tempo, é um autor do seu tempo, com vocabulário diagnóstico hoje abandonado e hipóteses que não se sustentaram.

Ler esse livro é menos sobre descobrir "a causa" de quem somos e mais sobre entender como o conhecimento se constrói, erra e se corrige. A parte boa é que hoje existem muito mais vozes — inclusive em português, no Brasil — falando sobre crossdressing e identidade de gênero com respeito, sem tratá-las como enigma a ser decifrado.

## Segurança

- O livro usa termos e diagnósticos da década de 1970; travestismo e diversidade de gênero não são doenças segundo a CID-11.
- Desconfie de teorias que culpabilizam a família pela orientação ou identidade de gênero de alguém — não há base científica para isso.
- Se a leitura despertar angústia sobre sua identidade, procure acompanhamento psicológico acolhedor; no SUS, o processo transexualizador pode ser uma porta de entrada.
- No Brasil, o nome social é garantido pelo Decreto 8.727/2016 e a LGBTfobia é criminalizada pelo STF desde 2019 (ADO 26).
