# The Roaring Girl: uma peça de 1611 sobre crossdressing e Mary Frith

> Comédia de Thomas Middleton e Thomas Dekker, encenada em 1611, inspirada na figura real de Mary Frith, mulher que circulava por Londres vestida com roupas masculinas. A peça é hoje um clássico dos estudos de gênero e de história do crossdressing.

- Tema: Livros
- Tags: teatro elisabetano, mary frith, crossdressing na história, literatura inglesa, estudos de gênero, século xvii
- URL: https://camarimcross.com.br/a/the-roaring-girl-uma-peca-de-1611-sobre-crossdressing-e-mary-frith
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL1339664W)
- Atualizado: 2026-10-30

## Uma comédia de 1611 que ainda rende conversa

Quem imagina que falar de crossdressing é assunto recente se surpreende ao descobrir que, no início do século XVII, Londres já levava aos palcos uma personagem baseada em uma mulher de carne e osso que andava pelas ruas com trajes masculinos. É disso que trata *The Roaring Girl*, comédia escrita por Thomas Middleton em parceria com Thomas Dekker e encenada pela primeira vez por volta de 1611.

A peça é publicada hoje em edições anotadas, com documentos históricos sobre o crossdressing da época e sobre Mary Frith, a mulher que serviu de modelo para a protagonista. Também costuma vir acompanhada de uma série de ensaios críticos que mostram como o interesse acadêmico pelo texto cresceu ao longo do século XX, especialmente a partir dos anos 1980 e 1990, quando os estudos de gênero passaram a olhar para a obra com outros olhos.

## Quem foi Mary Frith

Mary Frith (aproximadamente 1584–1659) foi uma figura conhecida nas ruas de Londres. Ficou associada a apelidos como "Moll Cutpurse" e à fama de mulher independente, que fumava, bebia em companhia de homens e usava roupas tipicamente masculinas — algo que escandalizava parte da sociedade da época e que, ao mesmo tempo, a tornava célebre.

Não dá para confundir a personagem com as categorias que usamos hoje. Crossdresser, drag queen, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são identidades e práticas distintas, com contextos próprios. Mary Frith viveu em uma Inglaterra muito anterior a esses debates e a essas palavras; o que os estudiosos fazem é analisar como a figura dela foi lida e representada no seu tempo — inclusive como símbolo de liberdade e de transgressão das normas de vestimenta e comportamento destinadas às mulheres.

## O que a peça coloca em cena

A trama gira em torno de uma personagem que se veste como homem, frequenta ambientes variados e desafia as expectativas sobre o que uma mulher deveria fazer. A comédia também retrata o cotidiano da Londres da época: o comércio crescente, os golpes, a linguagem do submundo criminal e as tensões em torno de casamento e reputação.

Com o tempo, as leituras da obra se ampliaram. Se antes o texto aparecia apenas de passagem nas pesquisas, depois passou a ser lido como documento sobre cultura de consumo, sobre o crime urbano e, principalmente, sobre gênero e travestismo no teatro inglês do início da era moderna. Vale lembrar que, naquele período, papéis femininos eram representados por atores homens no palco — uma camada a mais de ironia quando a peça discute roupas e aparências.

## Por que isso interessa hoje

- **História cultural:** mostra que a discussão sobre roupas e expressão de gênero não nasceu no século XXI.

- **Estudos de gênero:** é leitura recorrente em cursos que tratam de identidade, performance e normas sociais.

- **Referência para a comunidade:** ajuda a perceber que figuras que fugiam do esperado sempre existiram, ainda que descritas com o vocabulário e os preconceitos de seu tempo.

- **Ponto de partida:** serve para comparar o ontem e o hoje sem apagar as diferenças entre épocas e identidades.

## Como aproveitar a leitura

Se o inglês antigo assusta, comece pelas introduções e pelas notas de rodapé das edições críticas — elas explicam gírias, referências e costumes da época. Ler os ensaios reunidos em edições como a da Norton ajuda a entender por que a peça foi ignorada por décadas e depois redescoberta. Para quem pesquisa, vale procurar textos sobre Mary Frith em separado: a distância entre a mulher real e a personagem rende bastante reflexão.

Se o seu interesse é o crossdressing como prática pessoal, a peça funciona mais como janela histórica do que como manual. Ela não ensina a se montar nem a se maquiar; ela mostra como a aparência sempre foi um campo de disputa social. E, como toda obra antiga, precisa ser lida com contexto — sem transformar pessoas em piada e sem confundir experiências diferentes.

## Um convite

*The Roaring Girl* é um daqueles textos que ganham novas camadas a cada geração de leitores. Vale conhecer pelo valor literário, pela curiosidade histórica e pelo tanto que diz sobre o hábito — antigo e humano — de usar a roupa para dizer quem se é, mesmo quando o mundo insiste em dizer o contrário.

## Segurança

- Ao ler obras antigas, lembre-se de que termos e visões de época não equivalem às identidades atuais: evite confundir crossdressing, drag, travestilidade e transgeneridade.
- Textos do século XVII podem conter linguagem preconceituosa; leia com contexto e use edições anotadas quando possível.
