# Thomas Wise e a psiquiatria que tratou a expressão de gênero como doença

> Psiquiatra americano ligado à Johns Hopkins, Thomas Wise publicou por décadas artigos que classificavam crossdressers e pessoas trans como portadores de "perversão". Entender essa história ajuda a reconhecer práticas ruins e a escolher profissionais que respeitam sua identidade.

- Tema: História e cultura
- Tags: psiquiatria, patologização, história trans, crossdressing, saúde mental, johns hopkins
- URL: https://camarimcross.com.br/a/thomas-wise-e-a-psiquiatria-que-tratou-a-expressao-de-genero-como-doenca
- Fonte original: Transgender Map - crossdressing (https://www.transgendermap.com/politics/psychiatry/thomas-wise)
- Atualizado: 2026-11-01

## Por que falar de um psiquiatra americano

Quem se monta ou vive uma identidade de gênero diferente da atribuída no nascimento costuma esbarrar, em algum momento, na pergunta: "isso é doença?". A resposta oficial mudou muito nas últimas décadas — e parte dessa mudança aconteceu justamente porque houve resistência a figuras como Thomas Nathan Wise, psiquiatra dos Estados Unidos que dedicou boa parte da carreira a descrever a expressão de gênero como sintoma de um quadro psíquico.

Conhecer essa história não é rancor gratuito. Serve para você identificar, hoje, discursos que ainda aparecem em consultórios, e para não aceitar ser tratada como caso clínico quando o assunto é a sua forma de existir.

## Formação e lugares de poder

Wise se formou em medicina pela Duke University School of Medicine, fez internato no Boston City Hospital e residência no Georgetown University Medical Center e no Downstate Medical Center, ligado à Universidade Estadual de Nova York, em Brooklyn, onde também cursou uma especialização em medicina de ligação (a ponte entre psiquiatria e outras áreas médicas).

Profissionalmente, ocupou cargos de destaque: chefiou o Departamento de Psiquiatria do Inova Fairfax Hospital e foi diretor médico de serviços comportamentais do Inova Health Systems, na Virgínia. Foi professor de psiquiatria na Georgetown University e na Johns Hopkins — a mesma instituição que, no fim dos anos 1970, encerrou sua clínica de gênero. Também dirigiu publicações importantes: foi editor-chefe da revista *Psychosomatics* e presidente do conselho da American Psychiatric Publishing, além de atuar como revisor em vários periódicos. Era certificado pela American Board of Psychiatry and Neurology e tinha licença médica apenas na Virgínia.

Seus temas de interesse declarados incluíam a integração da psiquiatria à medicina geral, o papel da psiquiatria de consultoria e a relação entre personalidade e doenças clínicas. Ele começou a publicar em 1975, muitas vezes sobre a interseção entre quadros psíquicos e doenças físicas.

## A linguagem de uma época que confundia tudo

O primeiro texto de Wise sobre variância de gênero saiu em 1979, o mesmo ano em que Paul McHugh e Jon Meyer fecharam a clínica de gênero da Johns Hopkins. O título tratava de "um travesti envelhecido" e classificava a pessoa como "travesti fetichista" ou "transexual secundário", descrevendo a vontade de transição como sintoma de estresse e falando em "perversão".

Hoje esse vocabulário soa datado e ofensivo, e por um motivo simples: ele embaralhava categorias que são distintas. Crossdresser, drag queen, travesti, mulher trans, homem trans e pessoa não binária são coisas diferentes — e, no Brasil, "travesti" é uma identidade política e de orgulho, não um diagnóstico. Naquele contexto americano dos anos 1970, porém, tudo isso costumava cair num mesmo saco patologizante.

Outros artigos da mesma fase insistiam em dividir as pessoas que pediam acompanhamento em "jovens" e "envelhecidos", sugerindo que a busca por transição seria muitas vezes um desdobramento de conflitos psíquicos anteriores.

## Parceiras, "tratamento" e internação

Wise também escreveu sobre as companheiras de homens que se montavam. Em um artigo de 1981, descreveu essas mulheres como "masoquistas morais" que toleravam o comportamento do parceiro — uma leitura que culpa a pessoa que está sofrendo e ignora o quanto relacionamentos assim envolvem negociação, afeto e descobertas mútuas. Na prática, o texto recomendava terapia para que elas "ganhassem insight" sobre a situação.

Em outro trabalho, de 1985, ele relata o uso de um estrogênio sintético (o dietilestilbestrol) para reduzir o desejo de se montar em um paciente de 65 anos. Vale dizer com todas as letras: essa substância foi associada a riscos graves de saúde e caiu em desuso; hoje qualquer conversa sobre hormônios exige avaliação médica individualizada, exames e acompanhamento, e não deve ser feita por conta própria nem servir para "frear" quem você é.

Há ainda artigos sobre internação involuntária e sobre outras parafilias, usados na época para justificar a ideia de que essas expressões eram variações de um mesmo "distúrbio". Esse tipo de enquadramento alimentou, por muito tempo, a desconfiança de que procurar um psiquiatra significava risco de perder a autonomia.

## O que mudou nos manuais e na lei brasileira

A psiquiatria mudou — em parte empurrada pela própria comunidade. Alguns marcos:

- **DSM-5 (2013):** "transtorno de identidade de gênero" sai de cena e entra "disforia de gênero", com foco no sofrimento, não na identidade em si.

- **CID-11:** a identidade trans deixa de ser classificada como transtorno mental, com a mudança adotada pela OMS a partir de 2019 e em vigor em vários países.

- **Brasil, Decreto 8.727/2016:** garante nome social e uso de pronomes no atendimento da administração pública federal.

- **Resolução CFM 2.265/2019:** organiza o atendimento a pessoas trans no SUS, incluindo o processo transexualizador e o cuidado com adolescentes, sempre com avaliação multiprofissional.

- **STF, 2019 (ADO 26):** reconheceu a omissão do Congresso e equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo.

## O que fazer com essa informação hoje

Se você procura apoio psicológico ou psiquiátrico para falar de crossdressing ou de identidade de gênero, alguns cuidados práticos ajudam:

- **Pergunte antes.** Na primeira conversa, diga claramente o que você busca: acolhimento e reflexão, não "cura" nem "reversão".

- **Desconfie de quem patologiza.** Se a resposta vier com termos como "perversão", "vício" ou "doença do travestismo", você pode simplesmente procurar outro profissional.

- **Você tem direito ao consentimento informado.** Explicações claras sobre qualquer proposta de tratamento são obrigatórias, e você pode recusar.

- **Registre abusos.** Práticas preconceituosas podem ser denunciadas ao conselho regional de medicina, à ouvidoria do serviço ou à Defensoria Pública.

- **Busque redes.** Grupos de apoio, coletivos e profissionais indicados pela comunidade costumam ser o caminho mais seguro.

Entender que existiram Wise e outros como ele é lembrar que o preconceito com jaleco tem história — e que a sua vida não precisa caber em nenhuma dessas categorias antigas.

## Segurança

- Hormônios e medicamentos só com acompanhamento médico individualizado: nunca use por conta própria nem aceite prescrições sem explicação clara.
- O dietilestilbestrol (DES) é citado apenas como registro histórico; a substância caiu em desuso por riscos graves à saúde.
- Se um profissional tratar sua identidade ou seu crossdressing como doença a ser curada, você pode interromper o atendimento e buscar outra rede de apoio.
- Ao procurar apoio online, proteja sua identidade: evite dados pessoais, fotos reconhecíveis e desconfie de perfis que pedem dinheiro ou exposição.
