# Travesti: o clássico de Don Kulick sobre gênero no Brasil

> O antropólogo sueco Don Kulick publicou em 1998 um estudo etnográfico sobre travestis em Salvador, obra que se tornou referência nos estudos de gênero. Entenda o que o livro investiga, suas ideias centrais e o que mudou no debate desde então.

- Tema: Livros
- Tags: travestis, don kulick, antropologia, gênero, brasil, livros
- URL: https://camarimcross.com.br/a/travesti-o-classico-de-don-kulick-sobre-genero-no-brasil
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL1863011W)
- Atualizado: 2026-11-01

## Um marco nos estudos de gênero feitos no Brasil

Em 1998, o antropólogo sueco **Don Kulick** lançou *Travesti: Sex, Gender, and Culture among Brazilian Transgendered Prostitutes*, publicado pela editora da Universidade de Chicago. O livro nasceu de uma pesquisa de campo feita em **Salvador, na Bahia**, ao longo dos anos 1990, convivendo com um grupo de travestis que se sustinham, em boa parte, pelo trabalho sexual nas ruas da cidade.

A obra virou referência porque deslocou o olhar: em vez de tratar a experiência travesti como desvio ou curiosidade, Kulick tentou entender como aquelas pessoas explicavam a própria identidade, seus afetos, suas redes de amizade e suas estratégias de sobrevivência. É antropologia densa, escrita para leitura acadêmica — mas com histórias concretas que ajudam a pensar questões que seguem vivas.

## O que o livro investiga

Kulick acompanhou a vida cotidiana do grupo: as casas compartilhadas, a escolha dos nomes femininos, a relação com vizinhos e clientes, os vínculos com homens que chamavam de maridos, os conflitos internos e a solidariedade entre colegas. A partir disso, construiu uma discussão sobre como gênero e sexualidade se organizam de formas que não cabem nos modelos importados do Norte global.

O autor ficou conhecido por defender uma tese polêmica: para as travestis que ele acompanhou, o centro da identidade não era "ser mulher" no sentido de uma essência interior, e sim a relação com os homens como objeto de desejo. Ou seja, a feminilidade era construída nas práticas, no corpo, no nome, na estética e nos afetos — não como uma essência fixa.

Outro ponto forte é a distinção entre **identidade de gênero** e **orientação sexual**. Kulick mostrou que categorias como "homossexual" ou "travesti" não se encaixavam do mesmo jeito que na Europa ou nos Estados Unidos, e que aplicar rótulos de fora atrapalha mais do que esclarece.

## Corpo, estética e risco

O livro descreve como as entrevistadas moldavam o corpo: hormônios obtidos sem receita, aplicações de silicone industrial feitas por pessoas sem formação médica, truques de vestuário para disfarçar a genitália, uso de cintas e enchimentos. Kulick registra esses relatos sem romanceá-los.

Hoje sabemos — e é importante dizer com clareza — que **silicone industrial e hormônios usados sem acompanhamento são perigosos**. Injeções caseiras podem causar necrose, embolias e infecções graves; hormônios sem prescrição e sem exames trazem risco cardiovascular, hepático e ósseo. Se você quer mudar o corpo, procure um serviço de saúde com equipe treinada; no SUS, a atenção básica é a porta de entrada.

## O contexto de 1998 não é o de hoje

O título original usa a expressão "transgendered prostitutes", terminologia que envelheceu. Hoje, no Brasil, **travesti** é uma identidade política e cultural própria — diferente de crossdresser, de drag queen e de mulher trans, embora existam trânsitos e pessoas que se identificam de mais de um jeito. Também é diferente de "não binária". O livro fala de um grupo específico e não representa todas as travestis do país, nem todas as pessoas que expressam feminilidade.

Desde então, muita coisa mudou: o **nome social** foi garantido por decreto federal em 2016 e por normas em escolas e universidades; o **STF criminalizou a LGBTfobia** em 2019, equiparando-a ao crime de racismo; a identidade de gênero passou a ser reconhecida em cartório desde 2018, sem necessidade de cirurgia ou laudo. Nada disso existia quando Kulick escrevia.

## Por que ler (e como ler)

Vale a leitura por três motivos:

- **Método**: é um exemplo de escuta longa, com convivência e atenção ao que as pessoas dizem sobre si mesmas.

- **Contexto brasileiro**: ajuda a entender por que categorias importadas não dão conta da nossa realidade.

- **Memória**: registra uma época, um bairro, uma rede de pessoas que hoje talvez não estejam mais lá.

Vale também ler com senso crítico: o foco no trabalho sexual recorta a população estudada e não resume a vida de travestis no Brasil. A produção brasileira posterior — de autoras como travestis e mulheres trans que escrevem nas últimas décadas — amplia e às vezes corrige esse retrato. Se o inglês for barreira, procure textos acadêmicos em português sobre travestilidade, antropologia de gênero e etnografia urbana: há muita coisa boa publicada em revistas brasileiras de acesso aberto.

## Para quem está começando

Se você acabou de se descobrir crossdresser ou está explorando sua expressão de gênero, este não é um manual de primeiros passos — é um livro de pesquisa. Ele ajuda a pensar, não a montar um look. Ainda assim, entender que a expressão de gênero tem história, cultura e política por trás pode aliviar a sensação de estar sozinha(o) ou de ser "estranha(o)".

Onde encontrar: bibliotecas universitárias, sebos virtuais e acervos de universidades públicas costumam ter exemplares. Vale checar também traduções e resenhas em português antes de comprar.

## Resumo em uma linha

Um estudo de 1998 que ajudou a colocar as travestis brasileiras no centro da teoria de gênero — e que precisa ser lido com o cuidado de quem sabe que o Brasil de hoje é outro.

## Segurança

- Silicone industrial e hormônios sem prescrição trazem riscos graves à saúde; busque acompanhamento médico (no SUS, comece pela UBS).
- O livro usa terminologia dos anos 1990; prefira os termos que cada pessoa usa para si.
- Ao conversar com pessoas travestis em contexto de rua ou trabalho sexual, respeite a privacidade e não exponha identidades sem consentimento.
