# Twisted: quando o true crime reforça estigmas sobre crossdressing

> Livro de John Glatt (2003) sobre um médico crossdresser condenado por matar a esposa. A obra sensacionaliza a identidade de gênero e merece leitura crítica.

- Tema: Livros
- Tags: true crime, crossdressing, estigma, mídia, livro, gênero
- URL: https://camarimcross.com.br/a/twisted-quando-o-true-crime-reforca-estigmas-sobre-crossdressing
- Fonte original: Open Library - livros (https://openlibrary.org/works/OL845016W)
- Atualizado: 2026-11-03

## O livro e o caso

*Twisted*, do escritor britânico John Glatt, foi publicado em 2003 e narra um caso real de violência doméstica nos Estados Unidos. O protagonista é o Dr. Richard Sharpe, um médico bem-sucedido de Massachusetts que, após 26 anos de casamento, assassinou a esposa Karen com um tiro de rifle calibre .22. O crime chocou a comunidade local e expôs detalhes da vida privada do casal.

A obra é um exemplo clássico de *true crime*: mistura investigação policial, biografia e tragédia familiar. No entanto, a forma como o livro apresenta um dos elementos do caso — o fato de Richard ser crossdresser — merece uma análise cuidadosa, porque reforça estereótipos prejudiciais.

## Crossdressing como "segredo sórdido"

A descrição do livro trata o crossdressing de Richard como um "segredo sombrio" que teria "explodido" sua vida perfeita. O texto sugere que ele usava roupas íntimas da filha, tomava hormônios por conta própria e furtava pílulas anticoncepcionais da esposa para complementar a terapia. Esses atos, se verdadeiros, são graves e criminosos, mas nada têm a ver com a prática do crossdressing em si.

O problema é que a narrativa coloca a expressão de gênero como parte do "lado perturbador" do assassino, como se vestir-se com roupas do gênero oposto fosse um sinal de monstruosidade. Essa associação é falaciosa e perigosa. Crossdressers são pessoas comuns, de todas as profissões e classes sociais, que simplesmente gostam de se expressar de forma diferente das normas de gênero. Não são mais propensos à violência do que qualquer outro grupo.

## Por que essa abordagem é problemática

Livros de true crime frequentemente exploram detalhes íntimos para chocar o leitor. Quando o assunto é gênero, o sensacionalismo pode causar danos reais: aumenta o estigma, alimenta o preconceito e faz com que pessoas crossdressers sintam medo de serem associadas a crimes ou distúrbios. Além disso, a obra não diferencia crossdressing de outras identidades — como drag, travesti, transgênero ou não binária —, o que confunde o público e apaga lutas específicas.

É importante lembrar: a violência é um problema de comportamento e de poder, não de roupa. O assassinato de Karen Sharpe foi um ato de violência doméstica, e o fato de o assassino ser crossdresser não explica nem justifica o crime. Aliás, a maioria esmagadora dos crossdressers nunca cometeu nenhum delito.

## Como ler true crime com olhar crítico

Se você se interessa pelo gênero, vale a pena consumir esse tipo de livro com cautela. Pergunte-se: a obra está tratando a expressão de gênero como curiosidade mórbida? Está usando termos corretos? Dá espaço para a comunidade se manifestar? Em *Twisted*, a resposta é não. O livro foi escrito para um público que buscava escândalo, não compreensão.

Para quem quer entender melhor o crossdressing, existem materiais muito mais respeitosos: livros de autores da comunidade, documentários feitos por pessoas crossdressers, grupos de apoio e conteúdos educativos. No Brasil, organizações como o Grupo de Apoio a Crossdressers (GAC) e páginas de coletivos trans e não binários oferecem informação de qualidade.

## Um recado para você que está se descobrindo

Se você é crossdresser ou está explorando sua expressão de gênero, não deixe que histórias como essa definam quem você é. Vestir-se de forma que te faz bem não é crime, não é doença e não é sinal de caráter duvidoso. Busque espaços seguros, converse com pessoas experientes e priorize seu bem-estar. E lembre-se: a privacidade é um direito seu — não precisa contar para todo mundo se não se sentir à vontade.

Já se você gosta de true crime, vale a pena refletir sobre como as narrativas midiáticas moldam nossa percepção. Ler com senso crítico é o primeiro passo para não reforçar preconceitos.

## Segurança

- Cuidado ao consumir narrativas que associam crossdressing a crimes; elas reforçam estigmas e não representam a comunidade.
- Se você está explorando sua expressão de gênero, procure grupos de apoio e conteúdos feitos por pessoas da comunidade.
