Livro
- Título
- Cross dressing, sex, and gender
- Autoria
- Vern L. Bullough
- Ano
- 1993
Um marco nos estudos sobre crossdressing
Publicado em 1993, Cross Dressing, Sex, and Gender é um daqueles livros que muita gente da comunidade ouve falar antes de conseguir ler. A obra nasceu de cerca de trinta anos de pesquisa dos historiadores Vern L. Bullough (1928–2006) e Bonnie Bullough, e organiza num só volume o que estava espalhado entre história, sexologia, sociologia e medicina.
O registro está disponível no Open Library. Não há, até onde sabemos, edição brasileira traduzida — então quem quiser ler vai precisar do original em inglês, de bibliotecas universitárias ou de sebos especializados.
O que o livro investiga
A proposta é ampla: mapear práticas de crossdressing e de "personificação de gênero" ao longo do tempo e em culturas variadas, e ao mesmo tempo revisar o que a ciência moderna produziu sobre o tema. Entre os assuntos catalogados na obra aparecem termos como transvestism, sex role, cross-dressing e cross-dressers — vocabulário que já soa datado, mas que era o disponível na época.
Alguns pontos que o livro sustenta:
- a percepção social de feminilidade e masculinidade não depende necessariamente da genitália;
- a personificação de gênero e as "mascaradas" de longo prazo do sexo oposto aparecem na história de muitas sociedades;
- em grande parte do passado, foram mais as mulheres do que os homens a se vestir como o outro gênero;
- homens frequentemente faziam imitações cômicas de mulheres, mas raramente tentavam mudar de gênero publicamente antes do século XX;
- sociedades não ocidentais variam muito: algumas são mais tolerantes e até incentivam homens a se comportar como mulheres e vice-versa;
- em boa parte do Ocidente, ser homem e exibir masculinidade é mais valorizado do que ser mulher e exibir feminilidade — e isso molda quem pode se montar sem pagar caro por isso.
Uma tese central: gênero não é genitália
A ideia que atravessa o livro é simples e ainda hoje potente: o que uma sociedade chama de "feminino" ou "masculino" é construído, e não um reflexo automático do corpo. Por isso os autores defendem que o fenômeno do crossdressing tem implicações para entender as relações entre os sexos justamente no século XX, quando essas regras começaram a ser questionadas com mais força.
Depois de passar pelas teorias disponíveis, os Bullough apresentam a teoria própria deles — o livro é, nas palavras da sinopse, a culminância de três décadas de pesquisa da dupla.
O olhar médico, psicológico e sociológico
A obra não é só histórica. Ela reúne achados das áreas médica, biológica, psicológica e sociológica, e por isso dialoga com o debate natureza versus criação. Segundo a apresentação do livro, o conteúdo interessa não apenas a pesquisadores de ciências sociais e estudos de gênero, mas também a educadores, profissionais de enfermagem e medicina, feministas, gays e lésbicas.
Há um público mais diretamente implicado: pessoas que se identificam como transvestites ou transsexuais — para usar os termos do livro — ou que foram classificadas por profissionais de saúde como portadoras de disforia de gênero. Para essas pessoas, a leitura costuma ter um peso mais pessoal do que acadêmico.
Leituras críticas e atualizações necessárias
É importante ler com lupa do presente. O vocabulário de 1993 mistura conceitos que hoje separamos com cuidado:
- crossdresser é quem se veste com roupas associadas a outro gênero, sem necessariamente questionar sua identidade;
- pessoa trans é quem não se identifica com o gênero atribuído no nascimento;
- travesti, no Brasil, é uma identidade política e cultural específica, com história própria — e não um sinônimo do termo inglês antigo transvestite;
- drag é performance artística, não identidade nem diagnóstico.
Também mudou o enquadramento clínico. Hoje a identidade de gênero não é tratada como transtorno mental, e a CID-11 tirou a incongruência de gênero do capítulo de saúde mental. O livro, escrito antes disso, reflete o debate da sua época — o que não diminui seu valor histórico, mas pede leitura crítica.
Como usar este livro hoje, no Brasil
Se você quer se aprofundar sem se perder:
- leia a parte histórica como ponto de partida e compare com o que sabemos hoje sobre identidades trans e travestis no Brasil;
- anote os termos que envelheceram e busque os equivalentes atuais;
- use as referências bibliográficas do livro como mapa para pesquisas mais recentes;
- converse com grupos e coletivos brasileiros para contextualizar o que é descrito como "tolerância" em outras culturas.
Vale lembrar que estudar o assunto é assunto privado. Se for pesquisar em computador compartilhado, use uma janela anônima e cuidado com histórico e contas sincronizadas.
Para quem é
Para quem gosta de história cultural, para quem pesquisa gênero na universidade e para quem simplesmente quer entender de onde vêm tantas ideias que ainda circulam sobre crossdressing. Não é um manual de estilo nem um guia prático de maquiagem — é um livro de contexto, e nisso continua sendo referência.
Segurança
- O livro é de 1993 e usa terminologia e enquadramentos clínicos datados; não trate a obra como orientação médica ou diagnóstica atual.
- Ser crossdresser não é doença. Se algo relacionado a gênero causar sofrimento, procure profissional de saúde preparado, não um diagnóstico de internet.
- Hormônios e medicamentos nunca devem ser usados por conta própria: apenas com acompanhamento médico.
- Ao pesquisar o tema, proteja sua privacidade: janela anônima, conta separada e cuidado com histórico em aparelhos compartilhados.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Open Library - livros (dados abertos). Recomendamos a leitura do original.
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