Livro

Título
'Curing Queers'
Autoria
Tommy Dickinson
Ano
2015

Um livro de história que dói e ensina

Publicado em 2015, “Curing Queers” é uma pesquisa acadêmica do historiador da enfermagem Tommy Dickinson. O livro mergulha em um capítulo sombrio: os homens que foram internados em hospitais mentais britânicos para receber “tratamento” por causa da homossexualidade e do que a medicina da época chamava de travestismo.

A obra não é um manual nem um relato sensacionalista. É história séria, construída com documentos de arquivo, recortes de jornal e — o que dá o tom mais humano ao livro — histórias orais, muitas delas gravadas pela primeira vez e bastante comoventes.

O recorte: de 1935 a 1974

O marco inicial é 1935, ano do primeiro relatório oficial britânico sobre o uso da terapia de aversão para combater o desejo homossexual. O recorte termina em 1974, quando a Associação Psiquiátrica Americana retirou a homossexualidade do seu manual diagnóstico. Nesse intervalo, o discurso público e profissional sobre a homossexualidade no Reino Unido se deslocou do crime para a doença e, depois, para uma tolerância gradual — com a descriminalização parcial de 1967 no meio do caminho.

Vale lembrar o vocabulário: “travestismo” era o termo clínico da época. Hoje falamos de crossdressing como expressão de gênero, e travesti é uma identidade própria, brasileira e latino-americana, que não se confunde com crossdresser, com drag queen nem com pessoa trans. O livro trata de um período em que tudo isso era jogado no mesmo saco patologizante.

Terapias de aversão: o que eram

A ideia era associar o desejo ou o comportamento considerado indesejado a estímulos desagradáveis, na esperança de eliminá-lo. Na prática, como a própria pesquisa mostra, a taxa de “sucesso” em tornar aqueles homens héteros foi zero. Ainda assim, o procedimento seguiu sendo aplicado por décadas.

O livro descreve dois grupos de profissionais:

  • A maioria que cumpria ordens e administrava os tratamentos, mesmo sem evidência de eficácia;
  • Uma minoria que, discretamente, desobedecia aos superiores com pequenos atos de subversão — atrasando procedimentos, aliviando rotinas, protegendo pacientes.

Dickinson também investiga algo raramente documentado: a vida gay oculta de alguns desses enfermeiros e enfermeiras, e o conflito entre a própria identidade e o que eram obrigados a aplicar em outras pessoas. É aí que o livro deixa de ser só história institucional e vira retrato de gente apertada entre o dever e o desejo.

Por que isso interessa a quem se monta hoje

Para quem é crossdresser no Brasil, a leitura ajuda a entender de onde vem boa parte do estigma que ainda aparece em consultórios, em conversas de família e em comentários na internet. A associação entre se vestir de forma não conforme o gênero e “distúrbio a ser corrigido” não nasceu do nada: foi construída por instituições, com nomes técnicos e aparência de ciência.

O livro também é útil para profissionais de saúde e estudantes de enfermagem, psicologia e direito sanitário — áreas que raramente conversam entre si e que Dickinson aproxima.

O que mudou (e o que ainda pesa)

No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia proíbe desde 1999 que psicólogas e psicólogos tratem a homossexualidade como doença ou participem de terapias de “reversão”. Em 2019, o STF enquadrou a LGBTfobia como crime, equiparando-a ao racismo. O nome social é garantido em diversos serviços públicos. Isso não significa fim do preconceito, mas muda o chão em que se pisa.

Ainda assim, relatos de profissionais que tentam “investigar a causa” do crossdressing continuam aparecendo. Duas dicas práticas:

  1. Ao procurar terapia, pergunte diretamente qual é a abordagem da pessoa sobre expressão de gênero. Você tem direito a escolher.
  2. Se um atendimento começar a tratar seu jeito de se vestir como sintoma a ser eliminado, você pode encerrar e buscar outro profissional — e, se quiser, denunciar ao conselho regional.

Como ler

“Curing Queers” é leitura acadêmica, densa em alguns trechos, e emocionante em outros. Vale encarar como documento histórico, não como retrato do presente: os termos mudaram, as leis mudaram, mas a discussão sobre autonomia sobre o próprio corpo e a própria imagem segue viva.

Se o tema te toca de perto, leia com pausas. Histórias de pessoas institucionalizadas por serem quem eram mexem com a gente — e também lembram por que a comunidade insiste tanto em privacidade, acolhimento e respeito.

Segurança

  • O livro descreve terapias de aversão e práticas historicamente violentas; não são tratamentos válidos e não devem ser reproduzidos.
  • No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia proíbe terapias de 'conversão' ou 'reversão' sexual desde 1999.
  • Se você busca apoio psicológico, escolha profissionais que acolham sua expressão de gênero; nada de doses ou receitas de hormônios sem acompanhamento médico.
  • Ao pesquisar o tema online, prefira fontes acadêmicas e evite sites que patologizem ou ridiculizem identidades.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Open Library - livros (dados abertos). Recomendamos a leitura do original.

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