Quem é Julie Bindel

Julie Bindel é uma autora e jornalista britânica nascida em 20 de julho de 1962, em Darlington, no condado de Durham, Inglaterra. Ela é uma das figuras midiáticas mais antigas e recorrentes do chamado ativismo antitrans no Reino Unido — uma corrente que se apresenta como defensora dos direitos das mulheres, mas cujo eixo central é tratar mulheres trans como ameaça a mulheres cisgênero.

Entender quem são essas vozes, o que elas dizem e como operam ajuda a comunidade a se proteger da desinformação e a responder com argumentos, não com pânico.

Da militância antiviolência ao jornalismo

Aos 17 anos, Bindel mudou-se para Leeds e se envolveu com o Leeds Revolutionary Feminist Group, um coletivo feminista antipornografia. Naquela época, o assassino serial conhecido como "Yorkshire Ripper", Peter Sutcliffe, matava mulheres na região; ela relatou ter sido seguida, em 1980, por alguém parecido com ele.

No fim dos anos 1980, atuou em campanhas contra a violência. Em 1991, cofundou o Justice for Women, organização que oferecia apoio jurídico a mulheres condenadas após reagir à violência de homens. A partir de meados dos anos 1990, passou a trabalhar como jornalista e, no fim daquela década, tornou-se colunista regular do jornal The Guardian, onde escreveu por mais de vinte anos, cobrindo temas como violência doméstica, prostituição, tráfico de pessoas e a situação de mulheres em zonas de conflito.

Publicou livros como Straight Expectations (2014), The Pimping of Prostitution (2017) e Feminism for Women (2021).

O ponto de virada de 2004

Segundo o levantamento do Transgender Map, Bindel foi fortemente influenciada pela autora Janice Raymond, que descreve mulheres trans como ameaça a mulheres cis. Em 2004, um artigo seu no Guardian, intitulado "Gender Benders, beware", gerou mais de 200 cartas de reclamação — um marco que a própria autora descreve como divisor de águas. Ela pediu desculpas pelo tom, mas, nas décadas seguintes, passou a expressar posições antitrans com frequência e intensidade crescentes, publicando em veículos como UnHerd, The Critic, Daily Mail e em uma newsletter própria no Substack.

Em 2008, quando a ONG Stonewall a indicou na categoria Jornalista do Ano, o evento foi alvo de protesto. Em 2020, ela processou a publicação LGBTQ britânica PinkNews por difamação por causa de uma reportagem sobre abusos dentro do movimento feminista antitrans — reportagem que não a citava pelo nome. O caso foi encerrado com um acordo e uma declaração conjunta das partes.

Durante o Mês do Orgulho de 2025, Bindel afirmou que o Pride teria virado um "orgulho de pervertidos", dizendo-se cansada de ser agrupada com pessoas trans, pessoas não binárias, assexuais e aromânticas. Em setembro de 2025, foi retirada de um evento do Pride em Surrey, no Reino Unido.

Por que esse debate chega ao Brasil

O Brasil tem sua própria legislação e políticas de proteção. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal (STF), na ADO 26, equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, tornando a discriminação por identidade de gênero passível de responsabilização. O Decreto 8.727/2016 garante o uso do nome social e do reconhecimento da identidade de gênero em órgãos públicos federais, e o SUS oferece o Processo Transexualizador, com acompanhamento multiprofissional.

Isso importa porque o discurso antitrans costuma circular internacionalmente com os mesmos argumentos: a ideia de que mulheres trans ameaçariam espaços femininos, de que a transição seria uma "moda" ou de que jovens estariam sendo "influenciados". São afirmações sem base científica que alimentam hostilidade e afetam diretamente pessoas trans, travestis e pessoas não binárias — e também pessoas crossdresser, que muitas vezes são tratadas de forma errada nesse mesmo discurso.

Vale reforçar: crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são identidades e expressões diferentes, com histórias e demandas próprias. Não são sinônimos, não são piada e não são doença.

Como se informar e se proteger

  • Cheque a fonte antes de compartilhar. Textos de opinião não são reportagem; se um artigo ataca a existência de um grupo, desconfie.
  • Priorize informação de organizações trans e de veículos com política editorial clara.
  • Cuide da sua privacidade online: use apelidos, revise configurações de redes sociais e evite publicar detalhes de rotina que permitam identificação.
  • Busque comunidades de apoio — grupos locais, coletivos e espaços moderados ajudam a filtrar assédio.
  • Em saúde, procure profissionais com experiência em identidade de gênero. Nenhum conteúdo de internet substitui avaliação médica individual.

Para saber mais

As fontes citadas pelo Transgender Map incluem textos de Rachel Saunders, Gemma Stone, Ruth Pearce, Christine Burns e Stephen Hines, além de reportagens do Guardian, PinkNews, The Independent e The Telegraph. Ler com senso crítico — inclusive as colunas de Bindel — é parte do exercício de entender como o discurso antitrans se construiu nas últimas duas décadas e como respondê-lo com acolhimento e informação.

Segurança

  • Ao ler textos de opinião contra a existência de grupos, verifique a fonte e as evidências antes de compartilhar.
  • Proteja sua identidade online: apelidos, fotos sem metadados e perfis fechados reduzem risco de exposição e assédio.
  • Assuntos de saúde e transição exigem acompanhamento médico individual; nenhum artigo substitui consulta com profissional qualificado.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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