Uma história feita por muitas mãos

No começo dos anos 1990, o movimento de travestis e transexuais no Brasil começava a buscar voz própria dentro de um cenário em que grande parte da militância estava organizada em grupos mistos de gays e lésbicas. Em 1992, a fundação da Associação de Travestis e Liberados, a ASTRAL, no Rio de Janeiro, marcou um passo importante: havia a percepção de que era preciso atuar nacionalmente, mesmo com poucos recursos e diante da violência e das barreiras de acesso à saúde. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de um encontro nacional capaz de reunir ativistas de diferentes estados e fortalecer sua atuação em segurança pública e saúde. Na época, as ações de saúde voltadas a essa população estavam quase todas concentradas na resposta à epidemia de Aids.

O primeiro ENTLAIDS

No início de 1993, o Rio de Janeiro recebeu o I Encontro Nacional de Travestis e Liberados que Atuam na Prevenção da Aids, o ENTLAIDS, organizado pela ASTRAL com apoio de parceiros, entre eles o Instituto de Estudos da Religião. O encontro reuniu representantes de vários estados. Muitos grupos ainda eram liderados principalmente por gays e lésbicas, e poucas travestis ocupavam posições de direção. Além da ASTRAL, o Grupo Esperança, de Curitiba, aparecia como uma das poucas organizações com travestis na coordenação e no público-alvo. Ainda assim, o evento ajudou a mobilizar pessoas que se tornariam lideranças importantes em seus estados.

A segunda edição ocorreu em Vitória, no Espírito Santo, com o objetivo de dar caráter nacional ao encontro e estimular a organização local na cidade que o recebesse. Ficou combinado que os encontros seriam anuais, alternando entre o Rio de Janeiro e outra cidade. O terceiro voltou ao Rio e trouxe uma discussão decisiva: a necessidade de criar uma rede que mantivesse as demandas de travestis e transexuais articuladas ao longo de todo o ano, e não apenas durante o evento.

Rede, encontros e novas siglas

Entre 1993 e 2000, várias tentativas buscaram transformar essa articulação em uma rede nacional. Primeiro veio a Rede Nacional de Travestis, a RENATA. Em 1997, a preocupação com a ampliação da participação levou à mudança de nome para Rede Nacional de Travestis e Liberados, a RENTRAL. A alteração não significava criar uma organização diferente, mas dar mais organicidade à mesma rede e incluir os liberados na articulação. Um episódio ganhou repercussão: a então presidenta Jovanna Baby convocou travestis a rasgar seus títulos de eleitor em protesto contra o descaso, defendendo que cidadania não pode existir apenas em época de eleição.

Em dezembro de 2000, uma reunião em Porto Alegre deliberou a mudança para ANTRA, inicialmente Articulação Nacional de Transgêneros. O termo transgêneros foi debatido e adotado por setores que viam a palavra travesti carregada de estigma. Com o tempo, ativistas defenderam que era preciso enfrentar esse estigma de frente, e a organização passou a se chamar Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Vale lembrar que as primeiras siglas não tinham registro jurídico; a personalidade jurídica em cartório veio apenas em 2002.

Da organização à política pública

A primeira gestão da ANTRA, em 2000, veio do Grupo Esperança de Curitiba e trabalhou para inserir a associação no cenário nacional, inclusive com material que destacava a sustentabilidade como ferramenta para as associadas. Em 2002, nova assembleia elegeu uma representante da Associação de Travestis do Ceará, de Fortaleza. Essa diretoria idealizou o Projeto TULIPA, voltado a identificar e capacitar novas lideranças para atuar na proposição e garantia de direitos. A gestão foi interrompida de forma abrupta com a morte da presidenta Janaína Dutra, que deixou uma semente vigorosa para o movimento.

A vice-presidenta assumiu, mas também enfrentou problemas de saúde e precisou se afastar; ela morreu tempos depois, sem ver o TULIPA desenvolvido. A terceira diretoria veio da Associação de Travestis de Salvador, com ratificação em assembleia em Campo Grande, em 2004. A partir daí, a comunicação entre associadas se intensificou e o movimento passou a ocupar espaços no debate político nacional.

Em 29 de janeiro de 2004, o Programa Nacional de DST/Aids, em conjunto com a ANTRA, lançou no Congresso Nacional a campanha Travesti e Respeito: já está na hora dos dois serem vistos juntos. A data seria depois instituída pela diretoria como Dia Nacional da Visibilidade Trans. O Projeto TULIPA, iniciado em 2002, foi executado na terceira gestão com pólos nas cinco regiões brasileiras, envolvendo associações locais e capacitações em prevenção às DST/Aids, direitos humanos e cidadania. O projeto terminou em 2007 e contribuiu para interiorizar o movimento e trazer novas lideranças.

Entre 2008 e 2009, o projeto TRANSpondo Barreiras: Rede de Saúde, Cidadania e Prevenção das DST/HIV, proposto pela Pact Brasil com apoio do Departamento de DST/Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde e do UNODC, buscou qualificar a atuação em rede e as ações educativas em saúde e prevenção.

Encontros que marcaram época

O IV ENTLAIDS, em 1996, voltou ao Rio de Janeiro depois que a cidade candidata não conseguiu recursos. Na ocasião, debateu-se que São Paulo deveria receber a edição seguinte, tanto pela dimensão da cidade quanto por ser um destino que recebia muitas travestis. O V ENTLAIDS, em 1997, teve o tema Abrindo novos caminhos e foi uma das maiores edições. Em 1998, o VI encontro retornou ao Rio. Em 1999, Fortaleza recebeu o VII ENTLAIDS, refletindo a força política do Nordeste. Em 2000, o VIII encontro saiu da capital e aconteceu em Campos dos Goytacazes, onde se propôs que os encontros passassem a ser bianuais por causa da dificuldade de financiamento anual. Salvador, com parceria de Aracaju, foi escolhida para a edição seguinte.

Por que essa memória importa

Essa trajetória mostra que direitos não surgem de repente: são construídos por ativistas que enfrentaram falta de recursos, violência e exclusão. Também ajuda a diferenciar identidades que não são sinônimas. Travesti, transexual, transgênero, crossdresser, drag e pessoa não binária têm histórias e demandas próprias, e nenhuma deve ser tratada como piada ou doença. No Brasil, a luta por nome social, acesso à saúde, Educação e segurança continua. Para quem deseja se aproximar da comunidade, vale buscar grupos e canais oficiais, proteger dados pessoais e respeitar quem está contando a própria história.

Segurança

  • A fonte é um relato histórico; siglas e nomes de grupos podem ter mudado. Confira informações atuais nos canais oficiais da ANTRA e de organizações locais.
  • Ao participar de eventos ou grupos, priorize espaços que respeitem sua privacidade e não exponham sua identidade sem consentimento.
  • O texto não substitui orientação médica; para questões de saúde, procure profissionais e serviços especializados.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Recomendamos a leitura do original.

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