Um relato de bastidor que virou documento

O site Transgender Map, mantido pela pesquisadora e ativista Lynn Conway (já falecida), reúne registros sobre a história da sexologia e das pessoas trans. Uma das páginas guarda um relato em primeira mão de alguém que estava na conferência anual da International Academy of Sex Research (IASR) em 2003 — a sociedade científica que reúne pesquisadores da área de sexualidade humana. Não é um artigo revisado por pares: é uma testemunha contando o que viu. Vale ler com essa lente.

O que se conta ali é o tropeço público de J. Michael Bailey, psicólogo da Northwestern University, ao apresentar a chamada teoria da autoginefilia, formulada por Ray Blanchard (Centre for Addiction and Mental Health, Toronto).

O que essa teoria dizia

Blanchard propôs, em resumos apresentados em 2000, que mulheres trans seriam divididas em dois grupos: as "homossexuais" (atraídas por homens) e as "não homossexuais", que teriam como motor do desejo de transição uma excitação erótica ligada à ideia de si mesmas como mulheres — a autoginefilia. Ele tratava essa categoria como herdeira do conceito de fetichismo travesti e a estendia a fantasias em que a roupa feminina nem aparece.

Anne Lawrence, médica e mulher trans, apresentou no mesmo período uma pesquisa em que entrevistadas relatavam que esse tipo de erotismo às vezes influenciava a decisão de transicionar, que muitas escondiam isso dos profissionais de saúde e que temiam não ser "realmente" trans por causa disso. Ela defendia que a cirurgia e a hormonização funcionavam, na prática, como uma forma de lidar com esse desejo.

A reação na sala

Segundo o relato, Bailey fez uma exposição confusa de cerca de meia hora, mencionou de passagem um suposto "ataque trans" à ciência, mostrou fotos dos filhos tentando ganhar simpatia da plateia e saiu do pódio antes do tempo reservado às perguntas.

Quem abriu as críticas foi John Bancroft, então diretor do Kinsey Institute e um dos nomes mais respeitados da área. Segundo a testemunha, ele advertiu Bailey a não chamar o livro dele de ciência, porque havia lido e podia afirmar que não era. O silêncio que se seguiu, diz o texto, marcou uma virada: a maior parte da comunidade científica ali presente não endossava aquelas especulações, ainda que nomes como Ken Zucker as apoiassem.

O relato também menciona outros trabalhos apresentados no mesmo período, entre eles um estudo de 2003 que media excitação genital em mulheres trans operadas e em mulheres cis, e um levantamento de 2001 sobre prevalência de canhotismo em meninos encaminhados a clínicas de identidade de gênero. Nenhum desses achados foi, por si só, prova do modelo teórico — e é exatamente aí que mora a crítica.

Por que isso ainda interessa a quem se monta hoje

Se você participa de fóruns, grupos de crossdressing ou consome conteúdo em inglês sobre o assunto, provavelmente já topou com o termo "autoginefilia". Vale saber três coisas:

  • É uma hipótese contestada, não um diagnóstico. A teoria foi questionada metodologicamente, ignorava completamente homens trans e pessoas não binárias, e é amplamente rejeitada por organizações e por boa parte da pesquisa atual. O CID-11 trabalha com o conceito de incongruência de gênero, não com essa divisão em tipos.
  • O desconforto das entrevistadas é real. Mesmo entre quem critica o modelo, o relato de mulheres que se sentiam vigiadas e com medo de contar certas fantasias aos profissionais mostra um problema concreto de acolhimento — que ainda hoje aparece em consultórios.
  • Crossdresser não é sinônimo de nada disso. Vestir-se e expressar-se de outra forma é uma prática ligada a identidade, prazer, estética e cultura, e não uma patologia a ser classificada em uma tabela de dois tipos.

O que dá para tirar da história

Duas lições práticas. A primeira é sobre ética em pesquisa: amostras pequenas, conceitos que apagam a diversidade e conclusões apresentadas como definitivas merecem desconfiança, principalmente quando o tema é a vida íntima de um grupo vulnerável. A segunda é sobre você: nenhum resumo de conferência de 2003 define quem você é. Se um texto antigo te deixar em dúvida sobre a sua própria experiência, converse com profissionais que trabalhem com identidade de gênero de forma afirmativa — e desconfie de quem chega oferecendo uma explicação única e definitiva.

No Brasil, a discussão ganha contornos próprios: aqui a expressão de gênero é protegida pela criminalização da LGBTfobia pelo STF (2019) e o nome social é garantido em diversos serviços públicos, o que não apaga o preconceito, mas dá instrumentos para enfrentá-lo. Ler a história da sexologia ajuda a entender de onde vieram certos estigmas — e a não repetir os erros de quem falou sobre nós sem nos ouvir.

Segurança

  • Resumos de conferências antigas não são diagnóstico: não use esses conceitos para se classificar nem para julgar outras pessoas.
  • Se você tem dúvidas sobre identidade de gênero, procure acompanhamento psicológico afirmativo; no Brasil, o SUS e serviços-escola oferecem atendimento.
  • Em fóruns e grupos, evite compartilhar detalhes íntimos que possam identificar você; use apelido e não vincule perfis a dados pessoais.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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