Livro

Título
The Man Who Would Be Queen
Autoria
J. Michael Bailey
Ano
2003

Um episódio que virou divisor de águas

Em março de 2003 chegou às livrarias o livro The Man Who Would Be Queen, do psicólogo J. Michael Bailey, da Northwestern University. Menos de dois meses depois, pessoas trans do mundo inteiro organizavam protestos, cartas e críticas públicas em uma articulação rara para a época. Historiadores do movimento tratam essa reação como um dos momentos mais importantes da luta trans global — e vale entender o que aconteceu.

A palestra em Stanford

Em 23 de abril de 2003, Bailey deu uma palestra no Departamento de Psicologia da Stanford University. Quem estava lá e escreveu sobre o ocorrido foi Joan Roughgarden, bióloga evolutiva da própria Stanford, em coluna publicada no jornal estudantil Stanford Daily em 25 de abril.

Segundo o relato dela, a apresentação incluiu fotos, trechos de áudio e desenhos animados de pessoas gays, lésbicas e trans, recebidos com risadas pela plateia — algo em torno de dez professores e cem estudantes. Entre as imagens, estavam fotos de crianças de gênero diverso, inclusive uma criança apresentada usando sapatos da mãe e outra citada dizendo que queria ter pênis. O riso coletivo diante dessas imagens é o ponto mais grave do relato: crianças sendo transformadas em piada para uma plateia de futuros clínicos, sem que se saiba se houve consentimento delas ou das famílias.

Para muitas pessoas trans, aquilo soou familiar de forma dolorosa: era a mesma lógica de constrangimento que muitos sofreram na infância em consultórios.

O que Bailey defendia

A tese central apresentada era a de que a maioria das crianças de gênero diverso se tornaria gay ou lésbica na vida adulta e que pessoas trans não seriam uma categoria própria, mas um "subtipo" extremo de homossexualidade. No livro, ele também retoma a ideia de que uma parte das mulheres trans seria movida por excitação fetichista — noção antiga, associada a Ray Blanchard, hoje bastante criticada por pesquisadores e pela própria comunidade.

Roughgarden apontou que a palestra não dialogou com as teorias alternativas que tratam identidade de gênero e orientação sexual como dimensões distintas, e que a plateia foi convidada a "treinar o gaydar" adivinhando quem era gay ou hétero a partir de voz e trejeitos. Ela classificou o conjunto como performance vulgar, não como ciência.

A resposta de colegas e estudantes

Nem todo mundo em Stanford concordou com a leitura da coluna. Em 1º de maio de 2003, o Stanford Daily publicou carta de três doutorandas do departamento — Kelly McGonigal, Julie McGuire e Teceta Thomas. Elas concordaram que os dados apresentados eram fracos e as conclusões inválidas, mas discordaram da ideia de que a plateia apoiou Bailey: para elas, o riso vinha do absurdo das afirmações e do desconforto, e houve críticas de professores e alunos durante as perguntas.

O detalhe interessante é que a crítica ao mérito científico do trabalho não foi o ponto de disputa entre os dois lados. A controvérsia estava no modo como pessoas reais — inclusive crianças — foram expostas.

Por que esse caso importa

A comunidade trans não reagiu apenas com raiva: reagiu com organização. Houve protestos em livrarias, resenhas em veículos de todos os tipos e um debate público sobre ética em pesquisa. O tema de fundo era grave: Bailey e colegas aparecem na fonte como defensores de terapias reparativas para crianças, prática que hoje é proibida em vários países e descrita como abuso.

No mesmo período, a Califórnia aprovava na Assembleia estadual um projeto que estendia leis antidiscriminação de moradia e emprego a pessoas de gênero variante. Ou seja: enquanto a política avançava, a academia ainda ria.

E no Brasil?

Aqui, o Conselho Federal de Psicologia veda desde 1999 práticas de reorientação sexual — a chamada "cura gay" — e a criminalização da LGBTfobia pelo STF, em 2019, reforça que essas abordagens não têm amparo. Ainda assim, é comum encontrar conteúdo que trata identidade de gênero como sintoma ou "confusão". Vale lembrar: crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são coisas diferentes, e nenhuma delas é doença, piada ou fase.

Se você se interessa por esses temas por curiosidade intelectual, ótimo. Mas ninguém precisa provar cientificamente que existe para merecer respeito — e nenhuma criança deveria servir de ilustração para uma tese.

Para quem quiser se aprofundar

  • Coluna de Joan Roughgarden no Stanford Daily, 25 de abril de 2003.
  • Carta das doutorandas do Departamento de Psicologia, Stanford Daily, 1º de maio de 2003.
  • Livro: The Man Who Would Be Queen (2003), de J. Michael Bailey — leitura crítica, não tutorial.

Debater ideias é saudável; expor pessoas sem consentimento, não. Esse é o resumo que ficou de 2003.

Segurança

  • Assuntos como "causas" da identidade de gênero e terapias de conversão podem ser gatilho. Se isso te abalar, procure apoio de profissionais que trabalhem com abordagem afirmativa.
  • No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia proíbe práticas de reorientação sexual desde 1999. Se alguém prometer "corrigir" sua expressão de gênero, denuncie ao CRP do seu estado.
  • Ao discutir esses casos em redes sociais, cuidado com dados pessoais e fotos antigas: proteger sua identidade online também é autocuidado.
  • Nomes, imagens e histórias de crianças de gênero diverso devem ser tratados com confidencialidade total — nunca como material de piada ou de aula.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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