O que aconteceu
Em 5 de maio de 2003, a bióloga Joan Roughgarden, então professora na Universidade Stanford, enviou uma carta a Bruce Alberts e Harvey Fineberg, presidentes da National Academy of Sciences e do Institute of Medicine, respectivamente. O motivo era o livro The Man Who Would Be Queen, de J. Michael Bailey, publicado pela National Academies Press. Roughgarden pedia que a editora recolhesse a obra e permitisse que ela fosse publicada por outra instituição.
A carta nasceu depois de Roughgarden assistir a uma palestra de Bailey em Stanford. Ela descreveu a experiência como profundamente constrangedora e argumentou que o episódio não era apenas uma divergência acadêmica: estava ligado à forma como pessoas trans, crossdressers e pessoas gays e lésbicas eram retratadas e tratadas publicamente. Lynn Conway, membro da National Academy of Engineering, havia sugerido que Roughgarden se manifestasse.
A tese dos “dois tipos”
Bailey ficou conhecido por defender que mulheres trans se dividiriam em duas categorias: as “transexuais homossexuais”, descritas como homens gays extremamente femininos, e as “autoginefílicas”, termo que ele usava para falar de uma suposta excitação sexual com o próprio corpo feminino ou com roupas femininas. Essa segunda ideia vinha de uma classificação proposta por Ray Blanchard, em 1985.
Roughgarden contesta a base dessa divisão. Segundo ela, Bailey não apresentava dados próprios consistentes; usava encontros em bares, clubes e contextos de trabalho sexual para generalizar sobre toda uma população. A amostra era pequena, enviesada e socialmente recortada. A carta observa que muitas das pessoas entrevistadas eram trabalhadoras sexuais, latinas ou negras, e que Bailey chegou a sugerir explicações genéticas ou culturais estereotipadas para isso. Roughgarden classificou esse tipo de argumento como racista.
Ela também lembra que, no início dos anos 1980, pesquisadores descreviam cinco categorias de expressão de gênero: transexual homossexual, transexual heterossexual, transexual assexual, crossdresser homossexual (drag queen) e crossdresser heterossexual. Esses termos, usados na literatura da época, já indicavam que expressão de gênero e orientação sexual são dimensões diferentes. Blanchard teria juntado as últimas quatro categorias em uma só, sem que isso eliminasse a diversidade real das experiências.
Críticas à pesquisa e à ética acadêmica
Roughgarden argumenta que a classificação de Blanchard não foi amplamente adotada pela pesquisa em sexualidade humana. Para ela, isso não aconteceu por descuido dos colegas, mas porque a distinção era descritivamente fraca e clinicamente pouco útil. A carta cita que, mesmo entre pessoas trans acompanhadas depois de mudanças de gênero, os resultados bem-sucedidos eram maioria e não se distribuíam de forma diferente entre as duas supostas categorias.
Outro ponto criticado é a forma como Bailey tratava quem discordava dele. A carta menciona a ideia de que “a maioria dos pacientes de gênero mente”, usada para desqualificar relatos de pessoas trans que não se encaixavam na teoria. Roughgarden vê aí um problema ético: quando o pesquisador presume que só ele está sendo honesto, a escuta desaparece e a generalização toma o lugar do cuidado.
A autora também se incomodava com a divulgação sensacionalista do livro. Um material distribuído em uma conferência da AAAS, segundo a carta, apresentava a obra com a pergunta “Gay, Straight, or Lying?” e prometia conclusões “politicamente incorretas, mas cientificamente precisas”. Para Roughgarden, isso transformava pessoas trans em espetáculo e alimentava preconceitos com aparência de ciência.
A palestra em Stanford
Na palestra que motivou a carta, Bailey teria falado pouco sobre pessoas trans e concentrado a atenção em treinar a plateia a identificar gays e lésbicas por aparência, gestos e voz. Ele teria tocado gravações de homens e pedido que o público adivinhasse quem era gay ou hétero, além de exibir desenhos animados com estereótipos de masculinidade e feminilidade. Roughgarden relata que a atividade foi recebida com risadas e cumplicidade, sem que a instituição intervisse.
Depois disso, ela escreveu um artigo de opinião no jornal estudantil de Stanford, algo que dizia nunca ter feito em mais de trinta anos de universidade. O gesto mostra que a discussão não era só sobre um livro: envolvia o que uma universidade considera conhecimento respeitável, como recebe convidados controversos e que responsabilidade tem ao proteger grupos vulneráveis.
Por que essa história importa
A carta de Roughgarden é um documento importante para entender as críticas à teoria da autoginefilia e ao modo como a academia às vezes trata pessoas trans como objetos de curiosidade. Ela também ajuda a separar conceitos que não devem ser confundidos: crossdressing é uma prática de expressão de gênero; drag é uma performance artística; travesti é uma identidade política e cultural, especialmente no Brasil; pessoa trans e pessoa não binária são identidades vividas, não patologias nem variações de fetiche.
No Brasil, esse debate se conecta ao direito ao nome social, ao acesso a serviços de saúde que respeitem a autonomia das pessoas e ao reconhecimento da LGBTfobia como crime pelo Supremo Tribunal Federal, em 2019. Nada disso resolve automaticamente o preconceito, mas cria um quadro em que pesquisadores e veículos de comunicação têm mais responsabilidade ao falar sobre gênero.
A lição prática é simples: desconfie de teorias que explicam toda uma população a partir de uma amostra pequena e de impressões pessoais. Escute as pessoas trans, crossdressers e não binárias como sujeitos de suas próprias histórias. E, se você estiver pesquisando sua identidade, procure grupos, profissionais e comunidades que respeitem seu tempo, sua privacidade e sua dignidade — sem transformar você em um caso a ser decifrado.
Segurança
- Teorias como a autoginefilia não devem ser usadas para autodiagnóstico; identidade de gênero é vivida e merece escuta respeitosa.
- Ao buscar apoio, prefira profissionais e grupos que não patologizem sua identidade.
- Proteja sua privacidade ao discutir temas sensíveis em fóruns e redes sociais.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.
Discussão
Ainda não há discussão sobre este conteúdo.
Começar a discussão



