Livro

Título
Gender and sanctity in early Byzantine monasticism
Autoria
Bennasser, Khalifa Abubakr
Ano
1985

Um livro antigo, um assunto que ainda intriga

Quem pesquisa a história do crossdressing costuma esbarrar em títulos acadêmicos pouco óbvios. É o caso de Gender and sanctity in early Byzantine monasticism (“Gênero e santidade no monaquismo bizantino antigo”), de Khalifa Abubakr Bennasser, publicado em 1985. À primeira vista, parece um estudo sobre vida religiosa e ascese. Mas entre os assuntos catalogados aparece, discretamente, a palavra cross-dressing — e é aí que a coisa fica interessante.

O livro investiga um fenômeno recorrente nas hagiografias (as biografias de santos) do cristianismo oriental: mulheres que abandonaram a vida social, cortaram o cabelo, vestiram hábito masculino e passaram anos — às vezes a vida inteira — vivendo em mosteiros como se fossem homens. Algumas só tiveram o sexo revelado depois da morte.

Quem eram essas figuras

A tradição bizantina preservou várias dessas histórias. Entre as mais conhecidas estão:

  • Pelágia, a penitente (século V): teria se disfarçado e vivido como eremita em Jerusalém sob identidade masculina.
  • Marina, chamada Marinus: viveu em um mosteiro no Líbano e, segundo a lenda, foi acusada de paternidade — o que só se resolveu após sua morte.
  • Eufrosina: filha de família rica que fugiu do casamento para se tornar monge em um mosteiro masculino.
  • Teodora de Alexandria: teria assumido hábitos masculinos depois de uma crise pessoal e vivido como asceta.

Esses relatos circulavam como edificantes: mostravam humildade, renúncia e santidade. Para quem lê hoje com olhar de gênero, eles dizem algo a mais — sobre como roupas, cabelo e aparência funcionavam como tecnologia social muito antes de existir a palavra “passabilidade”.

Por que elas se vestiam assim

As motivações, tal como aparecem nas fontes, são variadas e nem sempre coincidem com o que chamaríamos hoje de expressão de gênero:

  1. Acesso à vida monástica. Os mosteiros femininos eram menos numerosos e muitas vezes menos autônomos. Vestir-se de monge abria portas institucionais.
  2. Segurança. Mulheres viajando sozinhas estavam expostas a violência. Passar por homem era uma estratégia de proteção — algo que qualquer pessoa que já saiu à rua com medo reconhece, em outra escala.
  3. Ascese radical. Renunciar à identidade social, inclusive à leitura que os outros faziam do corpo, era parte do ideal de aniquilamento do eu.
  4. Devocional e literário. Parte dessas histórias foi construída para ensinar virtudes, e não necessariamente descreve vidas reais com precisão.

O que o livro de Bennasser ajuda a pensar

O trabalho de 1985 se insere em uma linhagem de estudos sobre gênero e santidade que ganhou força nas décadas seguintes. A contribuição está em tratar o assunto como questão histórica séria, e não como curiosidade pitoresca: como o monaquismo definia o que era comportamento masculino ou feminino, e como essas fronteiras podiam ser cruzadas justamente em nome da virtude.

Vale um cuidado importante: o catálogo usa termos como cross-dressing de forma descritiva, no vocabulário acadêmico da época. Isso não autoriza a chamar essas pessoas de “travestis” no sentido pejorativo, nem a concluir que seriam trans — identidade de gênero é autodeclarável e não se lê retroativamente a partir de uma fonte do século VI. Há debate legítimo entre historiadores sobre até que ponto essas narrativas falam de identidade, de estratégia ou de puro recurso literário.

O que se pode afirmar com segurança é que a história do vestir-se com roupas associadas a outro gênero é muito mais antiga e muito mais variada do que a internet costuma sugerir. Ela inclui monges bizantinos, atrizes do século XVII, soldados, costureiras e gente comum que simplesmente preferia outra silhueta no espelho.

Como usar essa referência na prática

  • O registro está no Open Library, que funciona como catálogo aberto e costuma indicar bibliotecas onde o título existe.
  • Sendo uma obra acadêmica de 1985, é provável que circule em bibliotecas universitárias e em serviços de empréstimo entre instituições.
  • Se você estuda gênero, história medieval ou religião, vale procurar também textos mais recentes sobre “monjas transvestidas” — o tema aparece em estudos sobre hagiografia e corpo.
  • Para quem só quer contexto histórico para conversas da comunidade, este livro é ponto de partida, não palavra final.

Por que isso importa hoje

Olhar para essas histórias não serve para provar que “sempre existimos” de um jeito único, mas para mostrar que organizar a vida em torno de roupas, cabelo e papéis de gênero é uma prática humana antiga e cheia de nuances. Também é um exercício de humildade: o passado não confirma nossas categorias atuais, ele as complica.

E há um lado afetuoso nisso. Saber que, séculos atrás, pessoas atravessaram fronteiras de aparência para conseguir segurança, fé ou liberdade dá uma dimensão maior ao gesto simples de abrir o armário hoje — com a diferença de que, no Brasil de hoje, podemos fazer isso com nome social garantido em espaços públicos e com a LGBTfobia criminalizada pelo STF desde 2019.

Segurança

  • Termos antigos de catálogo, como 'transvestite', são descritivos e não devem ser usados para rotular pessoas hoje.
  • Evite deduzir a identidade de gênero de personagens históricos: identidade é autodeclarada.
  • Se o tema despertar questões sobre a sua própria identidade, buscar apoio em grupos e, se quiser, em acompanhamento psicológico acolhedor pode ajudar.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Open Library - livros (dados abertos). Recomendamos a leitura do original.

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