Livro

Título
The Man Who Would Be Queen
Autoria
J. Michael Bailey
Ano
2003

Um programa de rádio no olho do furacão

Em 22 de agosto de 2007, o programa Forum, da KQED — rádio pública de São Francisco —, dedicou uma hora a uma das brigas mais ácidas da história recente da sexologia. O apresentador Michael Krasny recebeu quatro convidados para destrinchar a controvérsia em torno do livro The Man Who Would Be Queen, publicado em 2003 pelo psicólogo J. Michael Bailey, da Northwestern University.

A pergunta central do episódio não era exatamente “quem está certo sobre a origem da identidade trans”, mas algo anterior: o que acontece quando uma teoria impopular é publicada, contestada e seus autores passam a ser atacados pessoalmente?

O livro e a tese que acendeu o pavio

Bailey defendeu na obra uma explicação sobre a transsexualidade feminina baseada em duas categorias. Uma delas partiria do desejo erótico de se ver e se sentir como mulher — o que ele chamou de autoginofilia —, ideia que ele atribui ao trabalho do psiquiatra Ray Blanchard, de Toronto. A outra seria a de pessoas que se percebem como mulheres desde cedo, sem esse componente erótico.

A tese incomodou profundamente parte das mulheres trans, porque desloca a explicação da identidade para o terreno do desejo sexual, em vez de reconhecê-la como experiência de si. Vale registrar: autoginofilia é uma teoria contestada, não um diagnóstico aceito, e não deve ser usada para dizer a ninguém quem ela é.

Na entrevista, Bailey também reclamou de ter sido mal citado. Ele negou ter afirmado que homens gays “servem” para ser floristas ou cabeleireiros, ou que latinhas teriam “genes” para a transsexualidade; segundo ele, eram apenas observações soltas, distorcidas em sites de críticos.

Quem estava na mesa

  • J. Michael Bailey — professor de Psicologia na Northwestern, autor do livro.
  • Alice Dreger — então professora de Humanidades Médicas e Bioética na mesma universidade, autora de um longo estudo sobre o episódio.
  • Joan Roughgarden — professora de Ciências Biológicas em Stanford e autora de Evolution's Rainbow, crítica ferrenha da obra.
  • Mara Keisling — diretora executiva do National Center for Transgender Equality, também contrária à abordagem do livro.

A defesa de Dreger: foco no processo, não na teoria

Dreger fez questão de corrigir o rótulo de “defensora de Bailey”. O que ela dizia defender era outra coisa: o direito de pesquisar temas impopulares sem ser destruído por isso. Ela contou que passou cerca de um ano reconstituindo a história da controvérsia e que começou o trabalho desconfiada, influenciada pelo que circulava nos bastidores ativistas.

Um ponto que ela destacou foi a acusação de que o livro não seria ciência. Para Dreger, a crítica do então diretor do Kinsey Institute, John Bancroft, foi lida fora de contexto: o livro seria uma obra de divulgação científica, apoiada em pesquisas revisadas por pares, e não uma pesquisa original. Ela também rebateu a alegação de que seu estudo teria sido financiado por um suposto consórcio de pesquisa sexual da Northwestern — segundo ela, inexistente.

Dreger ainda relatou a própria trajetória: dez anos à frente da Intersex Society of North America, convivência com Lynn Conway (uma das críticas mais ativas de Bailey) e a surpresa ao conhecer o psicólogo pessoalmente e não encontrar nele o monstro que a fofoca descrevia.

O outro lado

Roughgarden e Keisling participaram justamente para discordar. A bióloga vinha de uma crítica à forma como a biologia costuma tratar sexo e gênero em categorias rígidas; a ativista representava uma organização dedicada a direitos de pessoas trans. O desconforto não era apenas com a tese, mas com o modo como ela podia virar munição contra a própria comunidade retratada.

O programa também mencionou reportagem de Benedict Carey no The New York Times sobre um painel tenso na International Academy of Sex Research, em Vancouver, descrito como uma das polêmicas mais pessoais das ciências sociais recentes.

Por que essa história ainda interessa

O episódio de 2007 funciona como um retrato útil de três armadilhas que continuam por aí:

  1. Teoria não é identidade. Uma hipótese acadêmica sobre motivações não define a vida de ninguém, e pessoas trans não precisam de aval de pesquisa para existir.
  2. Crítica dura ≠ linchamento. Discordar de um livro é legítimo; perseguir autor, familiares e reputação já é outra coisa.
  3. Divulgação científica não é pesquisa original. Confundir os dois gêneros de texto inflama debates que poderiam ser mais produtivos.

No Brasil, vale lembrar que a LGBTfobia foi criminalizada pelo STF em 2019 e que o nome social é garantido em diversos serviços e instituições. Nada disso depende de qual teoria está na moda — são direitos.

Se você se interessa pelo tema, o áudio original do programa ainda circula em arquivos de rádio. Ouça com espírito crítico: é um documento de época, não um veredito.

Segurança

  • Autoginofilia é uma teoria contestada, não um diagnóstico: não use esse conceito para tentar explicar ou invalidar a identidade de alguém.
  • O texto trata de um debate histórico; para questões de saúde, hormonioterapia ou procedimentos, procure acompanhamento médico e psicológico qualificado.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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