Quem é Paul L. Vasey

Paul L. Vasey é um psicólogo evolucionista canadense, nascido em 30 de janeiro de 1966 em Toronto. Formou-se em 1989 pela Universidade de Alberta (Edmonton), fez mestrado na Simon Fraser University em 1991 e doutorado na Université de Montréal em 1997, com uma tese sobre macacos japoneses orientada por Bernard Chapais. Depois passou por estágios de pós-doutorado em Montreal e Toronto antes de ser contratado, em 2000, como professor assistente do Departamento de Psicologia da University of Lethbridge, em Alberta — instituição onde segue atuando.

Seu parceiro é Vaitulia Alatina Ioelu, que se identifica como fa'afafine, uma identidade de gênero samoana. Foi justamente ao preparar aulas sobre sexo e gênero que Vasey se aproximou desse universo cultural, que depois se tornou o centro de boa parte da sua produção científica.

Fa'afafine, muxes e o interesse por gêneros não binários

Boa parte da reputação acadêmica de Vasey vem de estudos de campo com os fa'afafine, em Samoa, e com os muxes zapotecas do Istmo de Tehuantepec, no México. Ele descreve os primeiros como homens de atração homoafetiva que expressam feminilidade e são reconhecidos localmente como um gênero não binário. Artigos assinados por ele circulam em periódicos como Archives of Sexual Behavior, The Journal of Sex Research e Human Nature, tratando de ordem de nascimento, comportamento infantil, preferências ocupacionais e atenção visual.

Esses trabalhos são frequentemente citados em discussões sobre diversidade de gênero em culturas não ocidentais. O problema, para muitas pessoas da comunidade, não está no interesse etnográfico em si, mas no vocabulário que ele escolhe para descrever essas experiências.

Autoginefilia: o conceito que gera atrito

A polêmica mais conhecida em torno do nome de Vasey é a defesa da chamada "autoginefilia", formulação criada pelo psiquiatra canadense Ray Blanchard nos anos 1980. A ideia propõe dividir mulheres trans em dois grupos: as "homoafetivas" e as "autoginefílicas", estas últimas descritas como pessoas excitadas pela própria imagem como mulher.

Esse modelo é duramente criticado por pesquisadores, por ativistas e por boa parte das próprias mulheres trans. As objeções mais comuns:

  • a teoria trata a identidade de gênero como se fosse uma variação do desejo sexual, o que não corresponde à experiência relatada pela maioria;
  • as categorias são difíceis de testar e foram construídas a partir de amostras clínicas pequenas;
  • o esquema ignora pessoas não binárias, crossdressers e travestis que não se encaixam em nenhum dos dois rótulos;
  • o vocabulário acabou virando munição em fóruns e vídeos da internet para patologizar quem se monta.

É importante dizer com clareza: autoginefilia não é diagnóstico na CID-11 da Organização Mundial da Saúde nem no DSM-5. A OMS retirou a incongruência de gênero do capítulo de transtornos mentais e a colocou em um capítulo de saúde sexual — ou seja, ser trans, travesti ou crossdresser não é doença. No Brasil, o SUS oferece o Processo Transexualizador desde 2008 (reformulado em 2013) e a Resolução 2.265/2019 do Conselho Federal de Medicina orienta o cuidado específico, sempre com avaliação profissional.

E a "ginandromorfofilia"?

Vasey também usa esse termo para descrever o interesse sexual de homens cis por pessoas trans femininas. A crítica é que transformar desejo em rótulo clínico cria uma hierarquia estranha: quem se atrai por pessoas trans passa a ser descrito como portador de um padrão específico, e as pessoas trans viram objeto de medição (tempo de olhar, dilatação de pupila, resposta de excitação). Do ponto de vista de quem vive a experiência, isso raramente produz informação útil sobre a própria vida.

A rede acadêmica e o ciclo de encontros

Vasey colabora com nomes como Anne Lawrence, J. Michael Bailey, Ray Blanchard, Doug VanderLaan, Scott Semenyna, Martin Lalumière e Kenneth Zucker, entre outros. Em 2010, quando o pesquisador Lee Ellis se aposentou, Vasey assumiu a organização de um encontro que acontece a cada cinco anos, hoje chamado Puzzles of Sexual Orientation and Gender Diversity. Em 2025 houve uma nova edição reunindo vários desses pesquisadores.

Vale lembrar que ele também já fez críticas públicas ao diagnóstico de "transtorno de identidade de gênero em crianças" defendido por Zucker, o que mostra que o campo não é monolítico. Ainda assim, boa parte da comunidade trans considera que essas nuances não compensam o peso do vocabulário patologizante que ele ajuda a manter em circulação.

O que isso tem a ver com crossdressing no Brasil

Muita gente que começa a se montar cai em vídeos e textos que explicam a própria experiência usando esses conceitos. O resultado costuma ser confusão: a pessoa passa a achar que precisa "provar" que não é autoginefílica, ou que seu desejo de usar roupas ditas femininas tem de ter uma explicação científica. Não tem.

Expressão de gênero é um fenômeno amplo, com motivações variadas — estética, conforto, prazer, identidade, brincadeira, arte. Nenhuma delas precisa de autorização acadêmica. Quando alguém te disser que existe "um estudo" explicando o que você sente, vale checar quem assinou, quem financiou, quantas pessoas foram ouvidas e se pessoas trans participaram da pesquisa como autoras, não apenas como objeto.

Como ler esse debate com senso crítico

  • Prefira textos que citem a fonte original e o tamanho da amostra.
  • Desconfie de matérias que tratam identidades como sintomas.
  • Busque produções com autoria trans, travesti e crossdresser: elas existem e são muitas.
  • Lembre-se de que, no Brasil, a LGBTfobia é crime desde 2019, quando o STF equiparou a homofobia e a transfobia ao racismo. Ridicularizar ou constranger alguém por sua expressão de gênero tem consequência legal.
  • Nome social é direito garantido por decreto federal desde 2016 e por normas próprias em muitos estados e municípios, inclusive em escolas e serviços de saúde.

Resumindo: conhecer a obra de Vasey ajuda a entender como certos conceitos nascem e circulam — e também a perceber quando eles são usados para nos diminuir. Informação é ferramenta de autonomia, não de vigilância sobre a própria identidade.

Segurança

  • Autoginefilia não é diagnóstico reconhecido pela CID-11 nem pelo DSM-5; não se autodiagnostique com base em teorias contestadas.
  • Se você busca terapia, procure profissional que não trate a expressão de gênero como doença. Práticas de 'cura' são vedadas no Brasil e podem ser denunciadas ao CRP e ao Ministério Público.
  • Ao discutir esses temas online, proteja sua identidade: evite publicar fotos e dados pessoais em grupos que ridiculizam ou fetichizam pessoas crossdressers e trans.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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