Livro
- Título
- Smile as they bow
- Autoria
- Nu Nu Yi
- Ano
- 2008
Um livro que o governo tentou apagar
Publicado em 2008, "Smile as They Bow" é um romance da escritora birmanesa Nu Nu Yi. O dado que costuma chamar mais atenção não está na trama, e sim na história do próprio manuscrito: a obra passou mais de doze anos barrada pela censura do governo de Mianmar antes de chegar ao público. Mais tarde, o texto se tornou a estreia da autora no mercado editorial dos Estados Unidos — um caminho longo e tortuoso para uma narrativa que trata justamente de pessoas que vivem à margem.
Nu Nu Yi já era uma das autoras mais respeitadas de Mianmar quando, em 2007, se tornou a primeira pessoa vivendo no país a ser indicada a um prêmio literário internacional. Essa combinação — reconhecimento dentro de casa, repressão estatal e projeção fora — ajuda a entender por que o romance interessa tanto a quem acompanha literatura contemporânea quanto a quem pesquisa expressão de gênero na Ásia.
Onde a história acontece
A trama se passa às vésperas do Festival de Taungbyon, uma celebração de uma semana que reúne milhares de pessoas de várias regiões da Birmânia em uma pequena localidade perto de Mandalay. O objetivo é prestar homenagem aos nats, espíritos centrais da tradição birmanesa. Durante o festival, os chamados natkadaws — médiuns que incorporam essas entidades — conduzem rituais, fazem performances e recebem oferendas dos devotos.
É nesse cenário de música, dança, incenso e multidão que vive Daisy Bond, um médium espiritual crossdresser e homossexual na casa dos cinquenta anos. Respeitado como um dos natkadaws mais célebres da festa, ele é conhecido pela língua afiada e pelas apresentações cheias de presença. Ao seu lado está Min Min, assistente e companheiro mais jovem, que aguenta provocações e humilhações constantes do temperamento explosivo do chefe.
A rotina dos dois se desestabiliza com a chegada de Pan Nyo, uma menina que mendiga no festival e que ameaça conquistar o coração de Min Min. A partir daí, Daisy Bond se vê diante dos próprios medos: o envelhecimento, a perda do brilho, o ciúme e a possibilidade concreta de ser substituído — tanto no palco ritual quanto na vida afetiva.
Por que esse livro importa para a nossa comunidade
O romance não é um relato sociológico, é ficção. Ainda assim, ele oferece um retrato raro de uma figura que existe há gerações em Mianmar: a pessoa que transita entre gêneros e que, dentro de uma tradição religiosa local, ocupa um lugar de prestígio e de trabalho remunerado. Vale a pena destacar alguns pontos para quem lê em português e costuma confundir categorias:
- Daisy Bond é descrito como um homem crossdresser e homossexual que se apresenta como mulher nos rituais. Isso não é o mesmo que ser uma pessoa trans, que ser drag queen ou que ser travesti — são identidades e práticas diferentes, com histórias próprias.
- O papel de natkadaw tem dimensão espiritual e profissional: é uma função social reconhecida dentro daquele contexto, não uma fantasia de carnaval.
- O livro trata de afeto, ciúme e envelhecimento em relações entre homens, sem romantizar abuso. As provocações de Daisy a Min Min aparecem como algo problemático, parte do retrato de um personagem difícil.
No Brasil, onde religiões de matriz africana como o candomblé e a umbanda também abrigam historicamente pessoas com expressões de gênero diversas, essa leitura pode render paralelos interessantes — desde que feitos com cuidado, sem transformar tradições distintas em uma coisa só.
Como é a escrita
A prosa é descrita como lírica e envolvente, com comparações a autoras e autores como Arundhati Roy e Ha Jin. A ambientação do festival dá o tom: o barulho, a poeira, a devoção, o comércio, a fé e as pequenas mesquinharias humanas convivendo no mesmo espaço. O humor também está presente, mas é um humor de personagem — nasce do jeito ácido de Daisy Bond, não da ridicularização das pessoas retratadas.
Vale a pena ler?
Se você gosta de literatura asiática traduzida, de histórias com protagonistas mais velhos e complexos, ou simplesmente quer entender como contextos culturais fora do eixo Europa–Estados Unidos lidam com diversidade de gênero, é uma leitura que vale a procura. O livro está disponível em inglês; em português, vale checar se há tradução em catálogo e, na falta dela, considerar edições importadas de livrarias sérias.
Uma dica prática: se você se interessar pela autora, procure também textos sobre a história editorial de Mianmar. Entender o que a censura barrava — e por quê — muda completamente a forma como a gente lê um romance como esse.
Segurança
- Prefira comprar o livro em livrarias e sebos confiáveis; baixar arquivos de sites aleatórios expõe seus dados e apoia a pirataria.
- Ao comentar a obra em redes sociais, evite tratar a palavra 'travesti' ou o termo 'crossdresser' como piada — são identidades e práticas distintas.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Open Library - livros (dados abertos). Recomendamos a leitura do original.
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