Quem foi Betty Steiner
Betty Wilson Steiner-Conduit nasceu em 1920 e morreu em 16 de fevereiro de 1994. Canadense, formou-se psiquiatra e, depois de concluir a formação em 1958, passou a atuar no Women's College Hospital. Em 1968 assumiu um posto no Instituto Clarke de Psiquiatria, em Toronto, onde se tornou a primeira pessoa a chefiar a clínica de identidade de gênero da instituição. Ao longo da carreira, recebeu o título de Fellow do Royal College of Physicians of Canada (FRCP(C)). Em 1988 casou-se com o executivo de marketing Andrew Conduit; os dois morreram em 1994, vítimas de intoxicação por monóxido de carbono, depois de deixar um carro ligado na garagem de casa.
O Clarke Institute e a lógica do "transtorno"
O Instituto Clarke é lembrado por boa parte da comunidade trans canadense como um lugar de controle e desconfiança, e não de acolhimento. Foi ali que se consolidou uma forma de olhar para pessoas trans e crossdressers a partir de categorias diagnósticas rígidas, com forte ênfase em explicar a identidade de gênero como desvio, fetichismo ou doença a ser "manejada".
Esse enquadramento não ficou restrito ao Canadá: circularam pelo mundo e influenciaram por décadas a forma como profissionais de saúde tratavam qualquer pessoa que fugisse da norma de gênero — inclusive quem apenas gostava de se montar.
Os livros que marcaram época
Em 1985, Steiner organizou a coletânea Gender Dysphoria: Development, Research, Management, reunindo capítulos de nomes como Ray Blanchard, Kenneth Zucker, Kurt Freund, Ron Langevin e John Hoenig. Os temas iam da infância à vida adulta, passando por métodos de pesquisa, aspectos médico-legais, relações com parceiros e até um capítulo sobre tratamento dado a pessoas trans nas artes.
Cinco anos depois, em 1990, ela assinou com Blanchard o livro Clinical Management of Gender Identity Disorders in Children and Adults. Organizações de defesa dos direitos trans apontam essa obra como um dos pilares do chamado "modelo do transtorno", isto é, a leitura da identidade trans como psicopatologia — algo que, na prática, serviu para negar acesso a cuidados, impor critérios e submeter pessoas a avaliações humilhantes.
Entre os artigos publicados por Steiner e colaboradores, alguns ajudam a entender o ambiente da época: um texto de 1981 que fazia um panorama histórico do crossdressing "de Safo aos dias de hoje"; um estudo de 1982, com Kurt Freund, propondo "dois tipos" de identidade cross-gender (uma classificação que até hoje é contestada e vista como base de teorias reducionistas); e um trabalho de 1989 sobre "predição de arrependimento" em pessoas trans operadas, que alimentou a ideia de que era preciso barrar transições por precaução.
O que mudou desde então
A psiquiatria oficial revisou parte desse vocabulário. A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, tirou a identidade trans do capítulo dos transtornos mentais e passou a falar em "incongruência de gênero" na área de saúde sexual. O DSM-5-TR mantém a categoria de disforia de gênero, mas deslocou o foco do "ser" para o sofrimento que pode vir do desajuste entre corpo e identidade — sofrimento que o acolhimento e o acesso a cuidados reduzem. O crossdressing, por si só, não é doença mental nem crime.
No Brasil, essa virada também tem marcos: o Processo Transexualizador no SUS, criado em 2008 e ampliado em 2013; a resolução do Conselho Federal de Medicina que atualizou, em 2019, as regras de atendimento a pessoas trans; a decisão do STF, em 2018, que permitiu alteração de nome e gênero no registro civil sem cirurgia ou laudo; e a criminalização da LGBTfobia pelo STF em 2019, equiparando-a ao crime de racismo. O nome social, por sua vez, é garantido em diversos serviços públicos por decreto federal e normas estaduais e municipais.
Por que essa história importa para quem se monta
Saber de onde vieram certas ideias ajuda a não internalizar rótulos que nunca foram neutros. Muita gente ainda chega ao primeiro contato com o crossdressing achando que precisa "provar" que não é doente, ou que deve se explicar para merecer respeito. Não precisa. Vestir-se de um jeito que faz sentido para você, num contexto adulto e consensual, é expressão de gênero — e expressão de gênero não pede laudo.
Se você procura apoio psicológico, vale procurar profissionais que trabalhem com escuta afirmativa, não com tentativas de "corrigir" sua identidade. Terapias de conversão, aliás, foram proibidas no Brasil por resolução do Conselho Federal de Psicologia. E vale lembrar que crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e não binária são experiências distintas — misturar tudo é justamente o erro que a lógica do Clarke Institute cometia.
Conhecer Betty Steiner, portanto, não é homenagear o modelo que ela ajudou a construir: é entender por que a comunidade segue exigindo cuidado com dignidade, respeito e autonomia sobre o próprio corpo e o próprio nome.
Segurança
- Desconfie de profissionais que tratam crossdressing ou identidade trans como algo a ser "curado": busque escuta afirmativa; terapias de conversão são vedadas pelo Conselho Federal de Psicologia.
- Hormônios e medicamentos só com acompanhamento médico — não use doses ou receitas vindas de fóruns ou redes sociais.
- Ao procurar apoio ou grupos, proteja sua identidade online e combine encontros em locais públicos, evitando expor dados pessoais.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.
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