Por que falar desse nome

Quem pesquisa sobre identidade de gênero em inglês esbarra cedo em Ray Blanchard, psicólogo norte-americano radicado no Canadá. Ele ficou conhecido por dirigir o setor de identidade de gênero do Clarke Institute, em Toronto, e por criar o termo “autoginefilia”. As duas coisas estão ligadas: durante décadas, suas ideias moldaram quem conseguia — ou não — acesso a hormonioterapia e cirurgia naquele serviço. Entender essa história ajuda a reconhecer argumentos que ainda aparecem em fóruns, vídeos e comentários por aí, muitas vezes disfarçados de “ciência neutra”.

A clínica que dizia “não” para quase todo mundo

O Clarke Institute (depois incorporado ao CAMH, o centro de saúde mental de Toronto) recebia pessoas que buscavam atendimento ligado à transição. Segundo reportagem do Toronto Star de 1984, entre 1969 e 1984 cerca de 90% dos candidatos foram recusados — uma média de aproximadamente cinco aprovações por ano, algo em torno de 100 pessoas no período. Ou seja: mais de 900 pedidos negados.

Blanchard entrou na equipe em 1980. Relatos de ex-pacientes e de críticos descrevem um ambiente mais parecido com uma sala de avaliação forense do que com um consultório acolhedor: corredores e equipes compartilhados com o atendimento a pessoas acusadas de crimes sexuais, aplicação de testes de excitação genital (o pletismógrafo, aparelho bastante questionado) e uma lógica de desconfiança mútua. O resultado prático era moldar a população atendida: só passava quem se encaixasse em dois perfis descritos por ele — o de “transexual homossexual” (homem gay que se interessaria por homens héteros) e o de “transexual autoginéfilo” (homem não homossexual excitado pela ideia de si mesmo como mulher). Todo o resto ficava de fora.

O que é (e o que não é) “autoginefilia”

Blanchard definiu “autoginefilia” como a tendência de um homem se excitar com a imagem de si mesmo como mulher. A partir daí, propôs dividir as mulheres trans em duas categorias e explicar a identidade delas pelo desejo sexual. O problema é que a teoria parte de uma amostra enviesada — gente selecionada justamente por passar pelo filtro dele — e ignora o que hoje se sabe sobre diversidade de trajetórias trans.

Críticas importantes:

  • A ideia nunca virou consenso científico. Grandes entidades de saúde mental e pesquisadores da área a tratam como especulação sem base sólida, e o próprio conceito de “parafilia” aplicado a identidade de gênero é contestado.
  • Ela apaga pessoas trans que não se reconhecem ali: mulheres trans lésbicas, pessoas não binárias, homens trans, pessoas que nunca tiveram qualquer relação entre erotismo e gênero.
  • O uso político é evidente: se “ser trans é só fetiche”, fica mais fácil negar acesso a cuidados, retirar cobertura de planos e alimentar piadas.

Existe um grupo minoritário de pessoas que diz se identificar com o termo para descrever a própria experiência. Isso merece respeito — mas descrever a si mesmo é diferente de explicar toda uma população. E vale lembrar: crossdressing, drag, travestilidade, identidade trans e não binaridade são coisas distintas; misturar tudo é justamente o erro que a teoria comete.

2003: o livro, a crise e o pedido de demissão

Em 2003, o psicólogo J. Michael Bailey publicou The Man Who Would Be Queen (O homem que seria rainha), divulgando a teoria para o público geral. Blanchard escreveu uma resenha entusiasmada na Amazon defendendo o livro. A reação de pessoas trans e de profissionais foi imediata: vieram denúncias sobre a conduta de Bailey, cartas públicas e cobrança de universidades.

Em agosto de 2003, a Divisão 44 da Associação Psicológica Americana (dedicada a temas LGBT) concedeu uma citação honorífica à clínica de Toronto pelos 35 anos de trabalho. Meses depois, em 4 de novembro de 2003, Blanchard pediu demissão da HBIGDA (hoje WPATH), entidade que organiza as diretrizes de cuidado trans, em protesto contra uma carta enviada à Northwestern University a respeito das acusações contra Bailey. Ele seguiu defendendo publicamente que o diagnóstico psiquiátrico é o que garante o pagamento da cirurgia — argumento que voltou à tona quando o seguro público de Ontário parou de cobrir a cirurgia, em 1999, gerando uma denúncia por direitos humanos.

O detalhe do diagnóstico: DSM, CID e cobertura

A lógica que Blanchard explicitou é esta: onde a saúde é pública, o procedimento só é reembolsado se constar como “doença”. Por isso ele defendia manter a categorização no DSM, o manual da psiquiatria americana. O argumento tem um problema de fundo: transformar identidade em patologia para justificar acesso a cuidado.

O mundo mudou desde então. A CID-11, da Organização Mundial da Saúde, tirou a incongruência de gênero do capítulo de transtornos mentais e a colocou em saúde sexual — mantendo o acesso ao cuidado, sem tratar a identidade como doença. No Brasil, o Processo Transexualizador do SUS existe desde 2008 e foi ampliado em 2013, e a Resolução CFM 2.265/2019 organiza o atendimento a pessoas trans em serviços de saúde, com equipe multiprofissional e consentimento informado.

Também é bom lembrar de dois marcos brasileiros: em 2018, o STF (ADI 4275) garantiu a alteração de nome e gênero direto no cartório, sem cirurgia nem laudo; em 2019, o STF (ADO 26) enquadrou a LGBTfobia como racismo. Nome social, aliás, é direito em serviços públicos federais desde o Decreto 8.727/2016.

Como isso aparece hoje (e como se proteger)

A teoria sobrevive menos em periódicos e mais em vídeos, threads e fóruns que prometem “a verdade que ninguém conta”. Sinais de alerta:

  • Textos que reduzem toda experiência trans a fetiche, sem citar evidências ou pessoas trans reais.
  • Conteúdo que usa “autoginefilia” como insulto para desqualificar alguém em uma discussão.
  • Materiais que pregam “cura” ou “detransição forçada” — não existe conversão de identidade, e práticas assim são consideradas antiéticas.

Se você está se descobrindo, procure grupos de apoio sérios, profissionais que trabalhem com consentimento informado e informação em português de fontes com bibliografia. E cuidado com o outro extremo: golpes que prometem hormônios sem receita, “clínicas milagrosas” e perfis que pedem fotos íntimas em troca de conselho. Privacidade primeiro: use apelido, evite dados pessoais em grupos abertos e desconfie de quem insiste em encontros imediatos.

O legado

Blanchard é um lembrete de que gatekeeping — o poder de decidir quem “merece” cuidado — já foi regra, não exceção. A história da clínica de Toronto mostra o custo humano disso: quase mil pessoas recusadas em quinze anos. Hoje o debate é outro: como garantir acesso, acolhimento e informação de qualidade sem exigir que ninguém prove que sua identidade é “verdadeira” o suficiente.

Segurança

  • Identidade de gênero não é doença nem fetiche: se um conteúdo te fizer sentir que precisa “provar” algo para merecer cuidado, procure outra fonte e, se possível, um profissional que trabalhe com consentimento informado.
  • Hormônios e medicamentos exigem acompanhamento médico; não use doses ou receitas encontradas na internet.
  • Ao buscar informação e comunidades online, proteja sua identidade: apelido, sem dados pessoais em grupos abertos, e desconfie de perfis que pedem fotos íntimas ou dinheiro.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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