Uma campanha para dar visibilidade a compromissos

Em setembro de 2014, ativistas LGBT e usuários de internet impulsionaram a campanha #votelgbt. A proposta era divulgar candidaturas que assumissem compromissos com as pautas da comunidade, independentemente da orientação sexual ou da identidade de gênero de cada pessoa. A ABGLT também retomou uma prática de eleições anteriores: publicizar nomes que se comprometessem explicitamente com reivindicações do movimento.

Com as informações reunidas por essas iniciativas, foi possível montar um retrato das candidaturas de mulheres trans e travestis naquele ano. O material é útil para olhar para a história da participação política trans no Brasil e perceber tanto avanços quanto barreiras que permanecem.

Sete candidaturas e seus perfis

Naquele pleito, foram identificadas sete candidaturas de mulheres trans e travestis. Nos registros eleitorais da época, o campo sexo aparecia como masculino para todas, e o estado civil registrado era solteiro. Essa informação diz mais sobre as limitações dos formulários e do reconhecimento legal naquele momento do que sobre a identidade delas.

Sobre a faixa etária, quatro candidatas tinham entre 18 e 29 anos; duas declararam entre 50 e 59 anos; e uma informou entre 30 e 39 anos. Quanto à escolaridade, quatro haviam concluído o ensino médio, duas já tinham ensino superior e uma ainda cursava a universidade.

A autodeclaração de cor/raça mostrava seis candidatas brancas e uma parda. Esses dados ajudam a observar quem conseguia acessar a disputa eleitoral naquele contexto, mas não esgotam as barreiras sociais e institucionais enfrentadas por pessoas trans e travestis na política.

Onde estavam e a quais cargos concorriam

São Paulo concentrava o maior número de candidaturas: três. Também houve registros no Ceará e no Maranhão, no Nordeste; no Pará, no Norte; e no Paraná, no Sul. Três candidatas disputaram o cargo de deputada federal, enquanto quatro concorreram a deputada estadual.

As candidaturas identificadas foram:

  • Bruna Lorrane (SD-PA)
  • Carla Ziper (PDT-SP)
  • Márcia Lima (PSB-SP)
  • Melissa Campus (PSOL-PR)
  • Monique Top (PSOL-SP)
  • Pamela Maranhão (PT-MA)
  • Silvia Cavalleire (PC do B-CE)

Seis delas estavam filiadas a partidos que a bibliografia especializada costuma situar à esquerda; uma concorreu por uma legenda sem identificação ideológica clara. Nenhuma terminou a disputa com um assento conquistado.

O que esse retrato ajuda a enxergar

A ausência de vitórias não apaga o significado histórico dessas candidaturas. Elas mostram que a presença trans e travesti na política institucional já existia e vinha buscando espaço, ainda que em condições desiguais de apoio partidário, financiamento, exposição e segurança.

Também ajudam a lembrar que representação política não se resume a estar no palanque ou no horário eleitoral. Envolve acesso a recursos, redes de apoio, proteção contra violência e possibilidade de construir carreira pública sem ter a identidade de gênero tratada como obstáculo ou curiosidade.

Desde 2014, o debate sobre nome social, identidade de gênero em documentos e criminalização da LGBTfobia avançou em alguns espaços. O STF, por exemplo, equiparou a LGBTfobia ao crime de racismo em 2019. Ainda assim, a sub-representação de pessoas trans e travestis na política segue como pauta aberta.

Olhar para esse levantamento é uma forma de valorizar a memória da comunidade e de reconhecer que a participação eleitoral de mulheres trans e travestis faz parte de uma luta mais ampla por direitos, dignidade e voz pública.

Segurança

  • Ao pesquisar candidaturas antigas, priorize fontes públicas e evite divulgar dados pessoais sensíveis que não tenham sido tornados públicos pelas próprias candidatas.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Recomendamos a leitura do original.

Reportar

Discussão

Ainda não há discussão sobre este conteúdo.

Começar a discussão