Este texto parte de um diário pessoal escrito por uma mulher trans entre 1996 e 1997 e publicado no site Transgender Map, com atualizações posteriores. Ela descreve a própria experiência com cirurgia de feminização facial (FFS) realizada por Douglas Ousterhout, em São Francisco. O relato é histórico e individual: não serve como prescrição, promessa de resultado nem comparação entre pessoas. Antes de qualquer decisão, procure avaliação médica.

Como ela chegou à cirurgia

A autora conta que começou a pesquisar possibilidades de cirurgia facial no verão de 1996. Escreveu para Dallas Denny, da AEGIS, pedindo indicações, e recebeu dois nomes de médicos com alguma especialização em feminização facial: Toby Mayer, em Beverly Hills, e Douglas Ousterhout, em São Francisco. Ela também consultou cirurgiões plásticos em Chicago, mas sentiu que eles não entendiam o que ela buscava.

O material enviado por Ousterhout incluía um folheto sobre feminização e o pedido de uma consulta presencial com radiografias antes de recomendações específicas. A autora leu publicações dos dois médicos e ficou impressionada com um livro médico editado por Ousterhout. Foi esse conjunto de informações que a levou a marcar a consulta com ele primeiro.

Consulta, limites e riscos

Na consulta, Ousterhout fez medidas, comparou com radiografias e avaliou o formato da testa. Ela queria mudanças na linha do cabelo e ao redor dos olhos. O médico classificou inicialmente a testa como tipo II, mas, no exame presencial, considerou que estava no intervalo tipo III, o que permitiria mudanças maiores.

A autora também perguntou sobre a traqueia, que considerava muito proeminente. O médico explicou que mexer na cartilagem inferior poderia ferir as cordas vocais e que a parte superior ajudava a sustentar a via aérea. Ela aceitou não fazer essa parte. O relato mostra algo importante: uma consulta séria também envolve dizer o que não é seguro fazer.

Planos e dinheiro

A equipe apresentou três formas de dividir as cirurgias desejadas. A autora preferiu começar pela testa e pela traqueia, deixando nariz e mandíbula para depois, tanto por questões financeiras quanto para não chamar atenção no trabalho. Ela pagou uma entrada de 20% para reservar o centro cirúrgico e usou cartão de crédito para o restante.

Os valores são de outra época e de outro país. No Brasil, peça orçamento por escrito, entenda o que está incluído, verifique se há custos de hospital, anestesia e retornos, e desconfie de pacotes milagrosos ou pressão para pagar rápido.

Privacidade no trabalho

Na época, ela ainda não estava assumida no emprego. O código de vestimenta era informal, e ela passou a usar boné todos os dias para que as pessoas se acostumassem e esquecessem a linha do cabelo. Também deixou o cabelo crescer e planejou fazer primeiro as mudanças mais fáceis de disfarçar. Nariz e mandíbula ficariam para um momento em que estivesse financeiramente mais preparada.

No Brasil, nome social é um direito em serviços públicos e em muitas empresas, e a LGBTfobia é criminalizada pelo STF desde 2019. Ainda assim, cada pessoa avalia seu contexto. Se você não está pronta para se expor, pode planejar mudanças graduais, buscar apoio jurídico ou sindical e proteger sua imagem nas redes.

Cuidados que o relato menciona

A equipe dela deu orientações para as duas semanas antes da cirurgia, como evitar excesso de vitaminas C e E, evitar aspirina e produtos com salicilatos e interromper a eletrólise perto da traqueia dez dias antes. Essas orientações são históricas e específicas do caso dela. Não use como receita: hoje, qualquer decisão sobre vitaminas, analgésicos, suplementos e depilação deve ser confirmada com sua equipe cirúrgica.

Ela também precisou ficar hospedada por cerca de dez dias após o procedimento, até a retirada de grampos. Para quem planeja cirurgia no Brasil, vale preparar:

  • acompanhante e contato de emergência;
  • local seguro para ficar depois da alta;
  • receitas e orientações por escrito;
  • retorno para retirada de pontos ou grampos;
  • transporte até a consulta e o hospital;
  • dinheiro reserva para imprevistos.

O que pensar hoje no Brasil

Feminização facial não é obrigatória. Identidade de gênero não depende de cirurgia, e muitas pessoas trans e não binárias vivem bem sem ela. O relato é de uma mulher trans que quis fazer FFS; não é sobre crossdressing, drag ou fetiche. Crossdresser, drag, travesti, pessoa trans e não binária são identidades e expressões diferentes, e merecem respeito.

Se a cirurgia estiver nos seus planos, algumas medidas práticas ajudam:

  • procure cirurgião com CRM e registro de qualificação em cirurgia plástica;
  • confirme se o hospital tem estrutura, anestesista e suporte de urgência;
  • converse sobre riscos, cicatrizes, inchaço, tempo de recuperação e limites realistas;
  • se houver traqueoplastia, avalie antes com otorrinolaringologista e fonoaudiólogo;
  • verifique cobertura pelo SUS, plano de saúde ou reembolso, guardando contratos e recibos;
  • desconfie de fotos roubadas, promessas de resultado garantido e clínicas sem endereço verificável;
  • proteja sua privacidade online: evite divulgar rosto, cidade, local de trabalho e dados pessoais antes de ter segurança.

As atualizações do relato, feitas em 1999, 2001 e 2003, mostram que a autora ficou satisfeita e considerou que a cirurgia facilitou a transição, o trabalho e a vida social. Isso é a experiência dela. Outras pessoas têm resultados, riscos e sentimentos diferentes. O mais importante é decidir com informação, acompanhamento e apoio, sem pressa e sem pressão de ninguém.

Segurança

  • Cirurgias faciais são procedimentos médicos com riscos; decisões devem ser tomadas com equipe qualificada e acompanhamento multiprofissional.
  • Traqueoplastia pode afetar a voz; avalie com otorrinolaringologista e fonoaudiólogo antes.
  • Orientações pré e pós-operatórias de 1996 não valem como receita atual; siga apenas o protocolo do seu cirurgião.
  • Proteja sua privacidade: evite divulgar fotos e dados antes de ter segurança sobre trabalho, família e ambiente online.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

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