Uma prática que a ciência já abandonou
A expressão "terapia de conversão" (ou esforço de mudança de orientação sexual e de identidade de gênero) descreve qualquer tentativa — feita por profissional de saúde, líder religioso, conselheiro ou "mentor" — de fazer uma pessoa deixar de ser lésbica, gay, bissexual ou trans. Não é tratamento: a orientação sexual e a identidade de gênero não são doenças, e por isso não há o que "curar".
O que existe é um histórico de danos. Por isso o tema aparece tanto em pesquisas de saúde pública e em debates sobre direitos.
O que os números do Williams Institute mostram
Um levantamento do Williams Institute, centro de pesquisa ligado à Faculdade de Direito da UCLA (Estados Unidos), cruzou bases como o Generations Study, a U.S. Transgender Survey e o Gallup para dimensionar o problema. As estimativas, referentes à população adulta estadunidense de 18 a 59 anos, apontam que:
- cerca de 698 mil pessoas LGBT já passaram por algum tipo de intervenção para mudar orientação sexual ou identidade de gênero (faixa estimada entre 572 mil e 857 mil);
- aproximadamente 350 mil viveram isso antes dos 18 anos;
- entre quem passou pela experiência, cerca de metade relatou ter recebido esse tipo de "tratamento" até a maioridade;
- parte dessas pessoas foi encaminhada por profissionais de saúde e outra parte por lideranças religiosas.
O estudo também estimou quantas pessoas jovens estariam em risco conforme a legislação local: cerca de 16 mil jovens de 13 a 17 anos vivendo em estados sem proibição estadual ampla, contra cerca de 10 mil em estados que baniram a prática para profissionais licenciados. Outras 57 mil pessoas nessa faixa etária foram consideradas em risco de abordagens conduzidas por líderes ou conselheiros religiosos.
São números dos Estados Unidos e servem como retrato de um fenômeno que não é geográfico: acontece em qualquer lugar onde a prática não é formalmente barrada.
Por que a comunidade científica rejeita
Já em 2009, um grupo de trabalho da Associação Americana de Psicologia (APA) revisou a literatura disponível e concluiu que não há evidências de que esses esforços funcionem — e que há relatos consistentes de efeitos negativos, como ansiedade, depressão, culpa, isolamento e ideação suicida. Relatos de pessoas que passaram por essas intervenções, coletados em estudos qualitativos, descrevem perda de vínculos familiares, vergonha e anos de sofrimento.
O consenso atual entre conselhos e associações de saúde é claro: acolher, escutar e reduzir o sofrimento provocado pelo preconceito é o papel do cuidado. Mudar quem a pessoa é, não.
E no Brasil?
O Conselho Federal de Psicologia (CFP) proíbe, desde 1999, que psicólogas e psicólogos tratem a homossexualidade como doença ou ofereçam práticas de reversão — posição reafirmada em 2018, diante de tentativas de suspender a norma. Denúncias podem ser feitas ao Conselho Regional de Psicologia (CRP) do seu estado.
No campo dos direitos, o Supremo Tribunal Federal, em 2019, equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo (ADO 26), o que alcança também condutas de constrangimento e violência motivadas por identidade de gênero. Projetos de lei que proíbem expressamente a prática seguem em discussão no Congresso. E o nome social já é garantido em diversos serviços públicos federais e em boa parte das redes estaduais e municipais de saúde e educação.
Vale lembrar que drag, crossdressing, identidades travestis, trans e não binárias são experiências distintas entre si — e nenhuma delas é algo a ser corrigido.
Se alguém tentar te levar para esse caminho
- Você pode dizer não. Nenhum profissional sério vai prometer "curar" sua identidade ou seu desejo.
- Desconfie de promessas. Cursos pagos, "mentores" em redes sociais e programas com depoimentos milagrosos costumam ser golpe ou proselitismo disfarçado.
- Procure profissional com abordagem afirmativa. Ao buscar terapia, pergunte na primeira conversa como a pessoa trabalha com questões de gênero e sexualidade. Se a resposta soar desconfortável, troque.
- Apoio entre pares ajuda muito. Grupos, coletivos e associações da comunidade são espaços de escuta onde você não precisa se explicar do zero.
- Se você é jovem e depende financeiramente da família, procure um adulto de confiança, a Defensoria Pública, o Conselho Tutelar ou organizações que atendem a população LGBT na sua cidade. Ninguém é obrigado a passar por isso sozinho.
Privacidade também é proteção
Ao buscar informação ou ajuda online, use um apelido, evite publicar rosto, escola, endereço ou rotina em perfis abertos e prefira canais oficiais de conselhos e organizações reconhecidas. Se alguém insistir para que você conte sua vida em detalhes antes de "ajudar", desconfie.
O resumo da história
Terapia de conversão não é cuidado, é violência com aparência de tratamento — e os dados mostram que ela atinge muita gente. O caminho saudável é o oposto: acolhimento, informação e liberdade para se expressar com segurança.
Segurança
- Terapias de conversão não têm respaldo científico e são rejeitadas por conselhos de saúde; se alguém prometer "curar" sua orientação ou identidade, procure apoio e denuncie ao CRP.
- Sofrimento intenso, pensamentos de morte ou crises de ansiedade pedem ajuda profissional imediata; no Brasil, o CVV atende 24h pelo 188.
- Hormônios e medicamentos só com acompanhamento médico — nunca use doses por conta própria ou por indicação de redes sociais.
- Proteja sua identidade online: use apelido, evite fotos do rosto e dados de endereço, escola ou trabalho em perfis abertos.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Williams Institute. Recomendamos a leitura do original.
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