Quem foi Paul McHugh
Paul Rodney McHugh nasceu em 1931, em Lowell, no estado americano de Massachusetts, filho de um professor de ensino médio e de uma dona de casa. Formou-se em Harvard — graduação em 1952 e medicina em 1956 — e, nos anos 1970, chefiou o departamento de psiquiatria da Universidade de Oregon. Em 1975 assumiu a cátedra Henry Phipps de Psiquiatria e a direção do departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento da Escola de Medicina da Johns Hopkins University, além de psiquiatra-chefe do hospital da universidade.
Ele se descrevia, em entrevista ao New York Times, como religiosamente ortodoxo, politicamente liberal e culturalmente conservador. Essa combinação ajuda a entender a cruzada que marcou sua carreira: usar o prestígio acadêmico para tentar enquadrar a diversidade sexual e de gênero como desvio, doença ou ideologia.
O fechamento da clínica de gênero
O episódio mais citado de sua trajetória aconteceu em 1979, quando McHugh encerrou o programa de identidade de gênero da Johns Hopkins. O pretexto foi um estudo de acompanhamento conduzido por Jon Meyer, que concluía não haver benefícios reais nos atendimentos oferecidos. Na época, o trabalho já era criticado por problemas metodológicos, e pesquisas posteriores contestaram suas conclusões — mas o fechamento aconteceu mesmo assim.
A clínica só voltaria a funcionar em 2017, reaberta com outro nome e outra filosofia de cuidado: Center for Transgender and Gender Expansive Health. Ou seja, quase quatro décadas de retrocesso institucional sustentadas por um único artigo bastante questionado.
As teses que ele defendia
McHugh tratava a diversidade de gênero como "escolha de estilo de vida" ou "ideologia" e comparava o atendimento a pessoas trans à prática de fazer lipoaspiração em alguém com anorexia — uma analogia que ignora décadas de evidência clínica e reduz o cuidado a uma suposta colaboração com um delírio.
Ele também foi divulgador da noção de "autogynephilia", formulada por Ray Blanchard em 1989. A teoria tenta explicar a identidade de mulheres trans como uma parafilia, e não como identidade — uma hipótese amplamente contestada por não descrever a experiência real das pessoas trans e por partir de amostras enviesadas. McHugh ainda assinou, em 2018, uma carta do American College of Pediatricians — grupo classificado como organização de ódio pelo Southern Poverty Law Center — pedindo que a definição "científica" de sexo fosse imposta por lei.
Fora do tema trans, sua trajetória inclui episódios igualmente controversos: defender padres católicos acusados de abuso sexual, integrar o painel laico montado pela Igreja em 2002, fundar e atuar no conselho da False Memory Syndrome Foundation, e ter sido ordenado, em 2007, pelo procurador-geral do Kansas a parar de fazer declarações públicas sobre o médico George Tiller, que realizava abortos e foi assassinado em 2009.
O que mudou desde então
A leitura de McHugh envelheceu mal — e não por acaso. A Organização Mundial da Saúde retirou a incongruência de gênero do capítulo de transtornos mentais na CID-11, colocando-a entre as condições de saúde sexual. Associações como a American Psychiatric Association e a American Medical Association rejeitam a ideia de que ser trans seja uma doença a ser "curada", e revisões sistemáticas mostram que o acesso a cuidados de afirmação de gênero está associado a melhor saúde mental.
No Brasil, o Conselho Federal de Psicologia, pela Resolução 001/1999, proíbe profissionais de tratar homossexualidade e transexualidade como doença, e a chamada "cura gay" segue vedada. O SUS oferece o Processo Transexualizador desde 2008, com acompanhamento multiprofissional, e o STF criminalizou a LGBTfobia em 2019, equiparando-a ao crime de racismo. Nome social é direito garantido por decreto federal desde 2016 e por normas próprias em escolas, universidades e serviços de saúde.
Por que essa história importa para você
Se você é crossdresser, pessoa trans, não binária, drag ou travesti, provavelmente já esbarrou em algum discurso que tenta explicar sua existência como sintoma, fetiche ou confusão. Esses argumentos têm nome, sobrenome e origem institucional — e conhecê-los ajuda a não internalizar culpa que não é sua.
Algumas reflexões práticas:
- Desconfie de generalizações sobre "a mente trans". A experiência de uma pessoa trans não é a mesma de um crossdresser, de uma drag queen ou de alguém não binário. Categorias diferentes, necessidades diferentes.
- Prestígio acadêmico não é sinônimo de consenso. Um cargo em Harvard ou Johns Hopkins não torna uma tese correta; o que vale é método, replicação e escuta das pessoas envolvidas.
- Busque profissionais que respeitem sua identidade. Se um terapeuta trata seu jeito de existir como sintoma a ser eliminado, você tem o direito de trocar de profissional.
- Cuide da sua privacidade ao pesquisar. Use navegação privada ou perfis separados se não quiser que buscas sobre identidade de gênero apareçam no seu histórico compartilhado.
A história de McHugh não é sobre uma pessoa má isolada: é sobre como instituições podem erra feio durante décadas e depois seguir adiante. Saber disso é uma forma de proteção — e de não deixar que ninguém escreva a sua história no seu lugar.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em Transgender Map - crossdressing, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Discursos que tratam a identidade de gênero como doença podem afetar sua saúde mental; procure apoio profissional e redes de acolhimento, não terapias que prometam 'curar' quem você é.
- No Brasil, a Resolução CFP 001/1999 veda a psicólogos tratar homossexualidade e transexualidade como patologia; práticas de 'cura gay' podem ser denunciadas ao Conselho Regional de Psicologia.
- Hormônios e medicamentos só com acompanhamento médico — nunca por conta própria ou por orientação de fóruns e redes sociais.
- Ao pesquisar temas sensíveis, use navegação privada e revise as configurações de privacidade para proteger sua identidade online.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.
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