Entre 2015 e meados da década de 2020, o 4thWaveNow funcionou como um dos principais pontos de encontro online de pais que não aceitavam a identidade de gênero dos filhos e de profissionais que faziam campanha contra o cuidado trans de crianças e adolescentes. O blog reuniu centenas de textos, virou referência para uma rede internacional de ativismo antitrans e serviu de base para o controvertido conceito de "disforia de gênero de início rápido" (ROGD, na sigla em inglês) — uma ideia que nunca foi reconhecida como diagnóstico por órgãos de saúde sérios.

Vale conhecer essa história não para repetir seus argumentos, mas para reconhecer o vocabulário e as estratégias que ainda circulam por aí, muitas vezes traduzidas para o debate brasileiro sobre "ideologia de gênero".

Quem estava por trás

O blog foi criado em março de 2015 por Denise Caignon, sob pseudônimo. Ela tinha trajetória no feminismo americano dos anos 1970, com atuação em prevenção à violência sexual, e trabalhou como fonoaudióloga até se aposentar, em 2014. Sua única filha, Chiara Caignon-Lewis, nascida em 1997, começou a se identificar como trans em ambientes online aos 16 anos, em 2013.

Segundo o perfil documentado pelo Transgender Map, Caignon apoiou a filha no início e depois passou a se opor a uma possível transição médica — o que a levou a criar o blog. Os nomes das duas só se tornaram públicos em 2022, quando o próprio Transgender Map os revelou; até então, quase tudo no site circulava sob pseudônimos.

Como o blog se apresentava

Nos posts de lançamento, em 17 de março de 2015, o público-alvo foi declarado de forma explícita: mulheres cisgênero de todas as idades incomodadas com a existência de pessoas trans — com a ressalva de que mulheres trans não eram bem-vindas —, além de quem topasse chamar a pauta trans de "culto regressivo". Termos como "TERF" e "cis" eram proibidos nos comentários.

A maior parte de quem publicava ali usava apelidos. Entre os nomes confirmados, aparecem psicólogos conhecidos por teses antitrans, terapeutas que trabalhavam com "exploração com nuance" de jovens trans e mães que depois se tornaram porta-vozes do site.

Uma rede, não um blog isolado

A força do 4thWaveNow veio das conexões. Ainda em 2015, Caignon se aproximou de Lisa Marchiano, outra mãe que não aceitava o filho trans e que criou o blog Youth Trans Critical Professionals. No mesmo ano, Stephanie Davies-Arai fundou o Transgender Trend, no Reino Unido. Os três sites passaram a se apoiar mutuamente e a construir pontes com veículos conservadores americanos, como The Federalist, para amplificar seu conteúdo.

Essa articulação foi mapeada em 2023 pelo Southern Poverty Law Center, em relatório sobre a rede de pseudociência anti-LGBTQ+, e analisada pela bióloga e escritora Julia Serano, que estuda o chamado "movimento de pais antitrans".

O elo com o "ROGD"

O episódio mais conhecido é o estudo da pesquisadora Lisa Littman que difundiu a expressão "disforia de gênero de início rápido". Para recrutar respondentes, Littman usou três blogs — e o 4thWaveNow era um deles. O problema metodológico é direto: em vez de ouvir adolescentes e famílias, o levantamento ouviu, sobretudo, pais que já se opunham à transição dos filhos e chegaram às mesmas conclusões que o blog defendia. O estudo foi criticado e corrigido após revisão, e o "ROGD" segue sem reconhecimento pela CID-11 ou pelo DSM-5-TR.

O que havia no "índice de recursos"

O blog mantinha uma lista extensa de links, organizada por temas. Entre as seções, apareciam:

  • relatos de pessoas que se arrependeram da transição;
  • depoimentos de pais contrários e de adultos gays e lésbicas críticos à pauta trans;
  • estudos sobre crianças com expressão de gênero não conforme, lidos de forma seletiva;
  • uma lista de clínicas de gênero pelo mundo (Tavistock, em Londres; GEMS, em Boston; Lurie, em Chicago; entre outras), tratadas como alvo;
  • material sobre cirurgias, bloqueio puberal, terapia hormonal e "consentimento informado";
  • conteúdos equiparando a transição de jovens a lobotomia, abuso sexual infantil ou "contágio social" pela internet.

Esse formato de biblioteca de links é típico de blogs de advocacy: dá aparência de solidez a uma seleção já enviesada na origem.

O declínio

O auge foi o primeiro ano: 127 posts em 2015. Depois, 58 em 2016, 47 em 2017, 38 em 2018 e 22 em 2019. De 2020 em diante, a média caiu para um ou dois textos por ano, e Caignon praticamente parou de publicar. Em 2019, Chiara lançou com outras três pessoas o projeto Pique Resilience Project, encerrado no ano seguinte.

Por que isso interessa no Brasil

O repertório do 4thWaveNow reaparece por aqui em versões locais: pais que dizem estar "apenas protegendo" os filhos, promessas de que a adolescência "resolve", listas de clínicas a serem vigiadas, o argumento do "contágio das redes". Vale lembrar que crossdresser, drag queen, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são coisas diferentes — e que nenhuma delas é doença, piada ou fase a ser corrigida.

Se você está lidando com a família, alguns caminhos práticos:

  • Busque informação em fontes de saúde, não em blogs de campanha. No Brasil, o SUS oferece o Processo Transexualizador, com ambulatórios e equipes multiprofissionais em vários estados.
  • Procure apoio entre pares. Entidades como ANTRA, ABGLT e a Rede Nacional de Pessoas Trans e Travestis indicam grupos, coletivos e orientação jurídica.
  • Conheça seus direitos. O Decreto 8.727/2016 garante o uso do nome social na administração pública federal, e o STF reconheceu, em 2019, a omissão do Congresso quanto à criminalização da LGBTfobia, equiparando-a à Lei do Racismo.
  • Se a situação em casa estiver pesada, procure um profissional de saúde mental que trabalhe com respeito à identidade — e não com "terapia de conversão", prática vedada no Brasil pelo Conselho Federal de Psicologia.

E, se você caiu em uma dessas páginas por curiosidade: não precisa discutir nos comentários. Sair de uma espiral de debate online com quem já definiu a sua humanidade como "pauta" costuma ser mais saudável do que vencer a discussão.

Segurança

  • Evite engajar ou se identificar publicamente em fóruns antitrans; print e exposição de perfis já foram usados para constranger pessoas.
  • Desconfie de listas de clínicas e de "estudos" divulgados por blogs de campanha; cheque a fonte original e a revisão por pares.
  • Nenhum conteúdo sobre hormônios, bloqueio puberal ou cirurgia substitui avaliação médica individual — não use doses ou protocolos achados na internet.
  • Se a pressão familiar estiver afetando sua saúde mental, procure apoio profissional e redes de pares; terapia de conversão é vedada no Brasil.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

Reportar

Discussão

Ainda não há discussão sobre este conteúdo.

Começar a discussão