Um nome que aparece sempre que o assunto é pânico moral
Se você já topou com o termo "groomer" sendo jogado contra professoras, artistas drag ou qualquer pessoa que fale de diversidade, vale conhecer o personagem que ajudou a transformar essa palavra em arma. James Stephen Lindsay é um escritor americano nascido em 8 de junho de 1979, em Ogdensburg, no estado de Nova York, e criado em Maryville, no Tennessee.
Formado pela Tennessee Tech (graduação e mestrado) e com doutorado pela Universidade do Tennessee em 2010, ele chegou a trabalhar como massoterapeuta depois de concluir os estudos. A partir de meados da década passada, porém, passou a se dedicar quase exclusivamente à produção de conteúdo contra pessoas trans e contra pautas de diversidade — e foi assim que ganhou notoriedade.
Este texto é um apanhado do que o portal Transgender Map documenta sobre ele, reescrito e contextualizado para quem acompanha a cena crossdresser e de expressão de gênero no Brasil.
A farsa acadêmica de 2017
Um dos episódios mais conhecidos da trajetória de Lindsay aconteceu em 2017, quando ele e Peter Boghossian publicaram um artigo-brincadeira chamado “The Conceptual Penis as a Social Construct”. O texto dizia parodiar a teoria de gênero de inspiração pós-estruturalista. A revista Norma recusou o material; outra publicação, a Cogent Social Sciences, acabou aceitando.
O caso cresceu: junto com Helen Pluckrose, Lindsay enviou cerca de vinte artigos falsos a periódicos com revisão por pares, assinando com pseudônimos variados. Um deles chegava a sugerir práticas sexuais absurdas como forma de “combater a transfobia” — justamente para testar até onde as revistas iriam. A armação veio a público em 2018, em reportagem de Toni Airaksinen, do Campus Reform.
O detalhe importante: o alvo declarado dessas farsas era o campo de estudos de gênero. Ou seja, o deboche contra a existência de pessoas trans não foi um deslize isolado, e sim o eixo do projeto.
“Groomer”: como um insulto virou campanha
Lindsay é apontado como um dos responsáveis por popularizar a teoria da conspiração de que pessoas LGBTQ estariam “aliciando” crianças — a chamada ideia do “grooming”. Na prática, o termo virou xingamento dirigido a educadores e ativistas, sem qualquer base factual, e foi usado inclusive para atacar serviços de prevenção ao suicídio entre jovens LGBTQ, segundo reportagens citadas pelo próprio Transgender Map.
Em declarações públicas, ele também já caracterizou a bandeira do Orgulho como “a bandeira de um inimigo hostil”. E, em 2023, foi um dos palestrantes de destaque da conferência anti-trans Genspect, realizada em Denver, nos Estados Unidos.
New Discourses: o laboratório de conteúdo
Lindsay fundou o site New Discourses, que hoje pertence ao comentarista nacionalista cristão Michael O'Fallon, da organização Sovereign Nations. A página publica textos e episódios de podcast com ataques frequentes à comunidade trans.
Entre os conteúdos listados pelo Transgender Map estão séries como “Groomer Schools” (em cinco partes, entre 2021 e 2023), um episódio sobre bibliotecas e catalogação (julho de 2023), outro sobre “educação sexual abrangente” (julho de 2023), um programa chamado “What is a Woman?” (agosto de 2022) e um episódio específico contra a Hora do Conto com drag queens (junho de 2022). O site também abrigou uma coluna assinada por “Donna M.”, pseudônimo de Linda Kramer, que teria sido removida do Medium por violar regras sobre discurso de ódio.
Por que isso interessa a quem se monta no Brasil
Essa produção não fica restrita aos Estados Unidos. O vocabulário criado nesse circuito — “groomer”, “ideologia de gênero”, “marxismo cultural” — circula em português, aparece em comentários de redes sociais e alimenta projetos de lei e campanhas difamatórias contra drag queens, pessoas trans e qualquer homem que use saia.
Para quem é crossdresser, o efeito é concreto: medo de sair montada, receio de fotografar, risco de perder emprego ou família por causa de uma imagem vazada. O discurso anti-trans não mira só pessoas trans — ele cria um ambiente em que toda expressão de gênero fora do padrão vira suspeita.
O que a lei brasileira garante
Aqui vale lembrar dois pontos. Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal (na ADO 26 e no MI 4733) equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo, o que inclui injúria e discurso de ódio. E o Decreto 8.727/2016 assegura o uso do nome social em órgãos públicos federais, direito replicado em muitos estados e municípios.
Ou seja: se você for atacada, hostilizada em um estabelecimento ou exposta por alguém na internet, existem caminhos legais. Guardar prints, registrar boletim de ocorrência e procurar uma defensoria pública são passos possíveis.
Como se cuidar nesse cenário
- Privacidade primeiro. Separe contas pessoais de contas de expressão, revise configurações de visibilidade e evite publicar metadados (local, rotina, horários fixos).
- Desconfie de perfis que “descobrem” você. Muita gente se aproxima com elogios para depois chantagear. Não envie fotos com rosto e documento juntos, nem para quem parece amigável.
- Cuide da sua rede. Grupos fechados, com moderação e regras claras, são mais seguros do que páginas abertas.
- Não discuta com má-fé. Responder aprovando o debate anti-trans raramente rende algo além de desgaste. Informe-se, mas escolha as batalhas.
- Apoio importa. Se o contato com esse tipo de conteúdo estiver pesando na sua saúde mental, procure um profissional e redes de apoio — no Brasil, o CVV atende 24h pelo 188.
Resumindo
Lindsay é um autor que transformou a oposição a pessoas trans em produto editorial, com direito a farsas acadêmicas, um site próprio e palco em conferências internacionais. Conhecer esse circuito ajuda a reconhecer os argumentos quando eles aparecem por aqui — e a não confundi-los com debate honesto.
Segurança
- Ao consumir conteúdo anti-trans por estudo, faça pausas: exposição contínua a discurso de ódio afeta a saúde mental.
- Proteja sua identidade online: contas separadas, revisão de privacidade e cuidado com metadados em fotos.
- Em caso de ataques, injúria ou exposição, guarde provas e procure delegacia ou defensoria; homofobia e transfobia são criminalizadas pelo STF desde 2019.
- Se houver sofrimento psíquico, busque acompanhamento profissional; o CVV atende gratuitamente pelo 188.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.
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