Um grupo pequeno, um barulho enorme

A Westboro Baptist Church (WBC) é uma igreja independente de Topeka, no Kansas (EUA), fundada em 1955 pelo pastor Fred Phelps. Durante as primeiras três décadas, funcionou como uma congregação comum. A partir dos anos 1990, virou sinônimo de protestos públicos agressivos — contra pessoas LGBTQ+, mas também contra ateus, judeus, muçulmanos e outras denominações cristãs.

É importante dizer de saída: a WBC não representa o cristianismo como um todo, nem mesmo a maioria das igrejas evangélicas. Diversas lideranças religiosas e organizações de direitos humanos a classificam como grupo extremista. Ainda assim, entender o que ela faz e como suas ideias circulam ajuda a se proteger e a responder a discriminação.

Como o grupo se organizou

Em 1991, a igreja iniciou uma campanha de protestos em um parque de Topeka, alegando comportamento “imoral” no local. Nos anos seguintes, seus integrantes passaram a viajar pelo país para piquetar funerais de pessoas mortas por aids, paradas do orgulho, escolas, shows e festivais de cinema. Também protestaram no funeral de Matthew Shepard, jovem gay assassinado em 1998 em um crime amplamente tratado como motivação homofóbica.

Em 1999, o grupo lançou um site com dizeres hostis no endereço — site que ainda existe e é usado para divulgar manifestações. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a WBC passou a afirmar que a tragédia seria um castigo divino. Em 2005, começou a protestar em funerais de militares mortos no Iraque e no Afeganistão, o que gerou batalhas judiciais.

O que a Justiça dos EUA decidiu

Em 2011, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, por 8 votos a 1, no caso Snyder v. Phelps, que os protestos em funerais realizados em espaço público estavam protegidos pela Primeira Emenda, que garante liberdade de expressão. Foi uma decisão amarga para as famílias, mas o entendimento foi o de que o Estado não pode punir o conteúdo do discurso em via pública.

Fred Phelps morreu em 2014. Depois disso, seus filhos Shirley Phelps-Roper e Timothy Phelps lideraram as manifestações, mas a influência do grupo diminuiu. Em 2012, vários familiares deixaram a igreja, entre eles Megan Phelps-Roper, que mais tarde se tornou crítica pública do grupo.

O discurso específico contra pessoas trans

A WBC afirma que “a rebelião transgênera é um pecado contra Deus”. Em sermões e comunicados, o grupo repete a ideia de que existiriam apenas dois gêneros fixos e que hormônios, cromossomos ou documentos não mudariam isso. Também já atacou profissionais de saúde trans, atletas trans e escolas que acolheram estudantes trans — inclusive uma escola de ensino fundamental em 2019 e outra em 2023 —, além de ter anunciado protestos contra uma diretora drag queen em uma escola em 2024.

Há um ponto que interessa diretamente à nossa comunidade: em um desses comunicados, o grupo usa um versículo do Deuteronômio (22:5) sobre roupas “do sexo oposto” para condenar qualquer pessoa que vista roupas associadas a outro gênero. Essa passagem é frequentemente citada contra crossdressers. Vale lembrar que muitas pessoas religiosas — inclusive igrejas inclusivas no Brasil, como as da Igreja da Comunidade Metropolitana — leem a Bíblia de outra forma e acolhem a diversidade de gênero e de expressão.

Também é essencial não misturar as coisas: crossdresser, drag queen, travesti, pessoa trans e pessoa não binária são identidades e práticas diferentes, com histórias próprias. Grupos como a WBC tratam todas como se fossem a mesma “abominação”. Nós não fazemos isso.

Por que isso importa para quem vive no Brasil

Aqui não temos uma WBC com o mesmo alcance, mas o discurso que ela ajuda a espalhar circula em redes sociais e em comentários de família. Duas ferramentas jurídicas ajudam a se proteger:

  • LGBTfobia é crime. Em 2019, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar a ADO 26 e o MI 4734, equiparou a homofobia e a transfobia ao crime de racismo (Lei 7.716/1989) até que o Congresso crie uma lei específica. Isso inclui ofensas e discursos de ódio.
  • Nome social é direito. O Decreto 8.727/2016 garante o uso do nome social e da identidade de gênero em órgãos públicos federais; estados e municípios têm regras próprias, e o direito ao nome social também é reconhecido em decisões judiciais e em resoluções de conselhos de educação e saúde.

Denúncias podem ser feitas em delegacias (inclusive especializadas), no Disque 100 e em organizações LGBTQ+ locais. Reunir provas — prints, áudios, testemunhas — faz diferença.

O que fazer diante de discurso de ódio

  • Não amplifique. Compartilhar prints de slogans hostis costuma dar visibilidade ao grupo e machucar quem lê. Se precisar estudar o material, use versões arquivadas e evite visitar o site original.
  • Proteja sua identidade online. Perfis separados, e-mails distintos e revisão de privacidade em redes sociais reduzem o risco de exposição e de golpes.
  • Busque apoio. Ódio direcionado à sua identidade afeta a saúde mental. Conversar com amigos, grupos de acolhimento ou psicólogas que respeitem sua identidade não é fraqueza — é cuidado.
  • Responda em grupo. Quando há manifestações hostis, contraprotestos pacíficos, ações culturais e redes de apoio costumam ser mais eficazes do que o confronto individual.
  • Cuide da família. Se parentes citam argumentos religiosos, escolha o momento e o tom; sua segurança vem antes de qualquer debate.

Segurança

  • Evite visitar sites de grupos de ódio: isso gera tráfego e pode expor seus dados. Prefira fontes jornalísticas e relatórios de organizações de direitos humanos.
  • Proteja sua identidade online com perfis separados e revisão de privacidade, especialmente se você se monta ou participa de comunidades.
  • Se o discurso de ódio vier de pessoas próximas, priorize sua segurança física e emocional antes de tentar argumentar; procure apoio profissional ou grupos de acolhimento.
  • Denúncias de LGBTfobia no Brasil podem ser feitas em delegacias, no Disque 100 e em organizações LGBTQ+ locais, com provas sempre que possível.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.

Reportar

Discussão

Ainda não há discussão sobre este conteúdo.

Começar a discussão