O que aconteceu

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) enviou uma carta aberta às direções nacionais, estaduais e municipais dos partidos de esquerda e centro-esquerda. O motivo: candidaturas filiadas a legendas que se apresentam como defensoras dos direitos humanos estariam aderindo, por conta própria, a compromissos eleitorais redigidos por grupos abertamente contrários aos direitos das pessoas trans, com vistas às eleições de 2026.

O documento cita nominalmente partidos que têm candidaturas trans em suas fileiras — como PT, PDT, PSB, REDE e outros — e pergunta qual é a posição oficial dessas legendas diante desse cenário.

O que a carta aponta como estratégia

Segundo a ANTRA, não se trata de uma divergência acadêmica isolada, mas de um movimento organizado que vem ganhando forma nos últimos anos. Entre as táticas descritas estão:

  • a produção de cartas-compromisso entregues a candidaturas, para que sejam assinadas;
  • a pressão sobre partidos e direções partidárias;
  • a difusão da ideia de que os direitos trans ameaçariam direitos de mulheres e crianças;
  • a tentativa de substituir o conceito de gênero pelo termo "sexo" na formulação de políticas públicas;
  • a defesa de que espaços como banheiros, vestiários, alojamentos, presídios e casas de acolhimento sejam organizados apenas pelo sexo atribuído no nascimento.

A entidade argumenta que, quando esse tipo de pauta se converte em compromisso eleitoral, deixa de ser opinião individual e passa a ter efeitos concretos sobre a vida de pessoas trans — que são eleitoras, trabalhadoras, usuárias de serviços públicos e também candidatas.

Direitos que já existem no Brasil

A carta relembra que o Estado brasileiro já reconheceu uma série de direitos ligados à identidade de gênero:

  • STF, ADI 4275: garantiu às pessoas trans o direito de alterar prenome e classificação de gênero no registro civil, sem exigência de cirurgia ou de autorização judicial.
  • STJ: consolidou o entendimento de que a Lei Maria da Penha alcança mulheres trans em situação de violência doméstica e familiar, afastando critérios exclusivamente biológicos.
  • Justiça Eleitoral: reconhece a identidade de gênero de candidatas e candidatos trans, com proteção ao nome social no registro eleitoral.

Vale lembrar que, no Brasil, o STF também criminalizou a LGBTfobia em 2019, enquadrando-a na Lei do Racismo — o que dá respaldo jurídico a quem denuncia ataques dentro e fora dos partidos.

As perguntas feitas aos partidos

A ANTRA não pede que todo mundo pense igual sobre temas complexos de gênero, corpo, esporte ou sistema prisional. O que cobra é coerência: se a legenda afirma defender direitos humanos, pode aceitar que suas candidaturas assinem compromissos que restringem direitos de pessoas trans? Pode concordar com a exclusão de mulheres trans de políticas destinadas às mulheres? E, principalmente, como pretende apoiar, proteger e dar condições reais de disputa às suas próprias candidaturas trans?

O texto também alerta contra o isolamento político de parlamentares e candidaturas que enfrentam a transfobia publicamente. Para a entidade, o silêncio diante de ataques não é neutralidade — muitas vezes empurra essas pessoas para o desamparo justamente quando mais precisam de respaldo partidário.

Os dez pedidos

A lista de solicitações inclui: manifestar-se publicamente sobre a incompatibilidade dessas agendas com os princípios partidários; afirmar que não concorda com propostas que excluam mulheres trans e travestis; reafirmar compromisso com os direitos humanos da população trans e LGBTQIA+; garantir apoio político, financeiro, estrutural e eleitoral às candidaturas trans; assegurar que essas candidaturas não sirvam apenas para cumprir regra eleitoral de forma simbólica; adotar medidas de segurança contra violência política de gênero; dar respaldo a quem enfrenta a transfobia; incluir pessoas trans nos espaços internos de decisão; deixar explícito que a defesa dos direitos das mulheres não exige excluir mulheres trans; e tomar providências em relação a candidaturas que assumam agendas contrárias aos direitos trans.

A frase-síntese do documento é direta: "A divergência política faz parte da democracia. A transfobia não."

Por que isso importa para você

A carta registra que a ANTRA identificou 116 candidaturas trans para 2026, a maioria delas em partidos do campo progressista. Ou seja: a presença trans na política já é um fato relevante da democracia brasileira, e não um detalhe simbólico de campanha.

Para quem acompanha o tema, a mensagem prática é dupla. Primeiro, vale observar o que os partidos dizem e o que efetivamente fazem: apoio financeiro, estrutura, proteção contra ataques e espaço nas decisões internas dizem mais do que a foto no palanque. Segundo, é possível cobrar — comparecendo a debates, enviando mensagens às direções partidárias, acompanhando o registro de candidaturas no site do TSE e apoiando coletivos que fazem esse monitoramento.

Se você se envolve politicamente montada ou com sua identidade de gênero visível, cuide da sua segurança: combine horários e companhia em eventos, evite divulgar endereço e documentos em grupos abertos e prefira canais oficiais para denúncias de violência política. O nome social já pode ser usado no título de eleitor e no registro de candidatura — é um direito, não um favor.

Segurança

  • Ao participar de atos ou campanhas, combine companhia, avise alguém de confiança sobre seus horários e prefira trajetos e locais movimentados.
  • Divulgue dados pessoais com cautela em grupos políticos: endereço, documentos e telefone podem ser usados para assédio; use canais oficiais para denúncias.
  • Se você sofrer violência política ou transfobia, registre boletim de ocorrência e procure a Defensoria Pública ou organizações como a ANTRA para orientação.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Recomendamos a leitura do original.

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