Uma carta que vai além da disputa eleitoral
Em agosto de 2022, a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) divulgou um documento de posicionamento sobre as eleições daquele ano. Mais do que apoiar nomes, a carta funciona como um mapa: relembra a trajetória do movimento, aponta os riscos concretos que pairavam sobre os direitos da população trans e oferece um roteiro para quem quisesse votar com consciência — e para quem pretendia se candidatar.
Vale ler com calma, porque quase tudo ali continua atual.
Trinta anos de organização
O marco escolhido pela ANTRA foi 1992. Naquele ano, Kátia Tapety se tornou a primeira travesti eleita para um cargo político no Brasil. No mesmo período, seis travestis negras — Jovanna Baby, Elza Lobão, Josy Silva, Beatriz Senegal, Monique du Bavieur e Claudia Pierre France — fundaram a primeira organização de travestis do país, reagindo às violências institucionais que seguiam intactas mesmo depois da Constituição de 1988.
A carta lembra que a redemocratização não chegou automaticamente para todo mundo: para travestis e pessoas transexuais, o Estado continuava omitindo cidadania. Três décadas depois, o movimento havia crescido, diversificado pautas e acumulado conquistas — sempre em meio a tensões e disputas.
O cenário que motivou o alerta
Em 2022, o Brasil vivia uma crise sobre outra: a sanitária, que vitimou lideranças do movimento, e a democrática. A avaliação da ANTRA era de que o Executivo federal desmontava, de forma deliberada, os ganhos das últimas décadas, enquanto o Legislativo coordenava ofensivas contra direitos.
Os números citados no documento ajudam a entender a dimensão do problema: um levantamento da Escola Gêneros listou cerca de 247 projetos de lei contrários aos direitos LGBTQIA+ em tramitação no Congresso Nacional até o fim de 2021, sendo 12 no Senado e 245 na Câmara. Já o portal Agência Diadorim apontou mais de 120 propostas semelhantes apresentadas em assembleias estaduais em apenas três anos.
O ponto central: o país que mais mata pessoas trans no mundo também via proliferar tentativas de institucionalizar a transfobia na lei.
Nome social nas urnas: um dado importante
Pouco antes da eleição, o Tribunal Superior Eleitoral informou que 37.646 pessoas trans usariam o nome social no pleito de 2022 — crescimento de 373,83% em relação às 7.945 de quatro anos antes. A faixa de 21 a 24 anos era a maior entre esse grupo, com 5.440 pessoas.
A leitura da ANTRA é política: somando quem já retificou registro civil e quem usa o nome social no título, o voto trans ganha peso real na reconstrução democrática do país.
Checklist para escolher seu voto
A carta traz uma lista de verificação que segue útil em qualquer eleição:
- Entenda o que cada cargo faz de fato e como as decisões de uma pessoa parlamentar atingem a vida da população trans.
- Conheça a trajetória da candidatura e as agendas coletivas que ela construiu.
- Leia as propostas: como o plano de governo pretende enfrentar as desigualdades?
- Pesquise o partido. Ao votar em alguém, você também ajuda a eleger a bancada daquela legenda ou coligação.
- Veja como a pessoa e o partido votaram em pautas que retrocederam direitos nos últimos anos.
- Cheque se há acusações de práticas discriminatórias e qual foi a reação diante delas.
- Investigue quem financia a campanha e quais interesses estão por trás.
- Observe o posicionamento público sobre racismo, machismo e direitos trans.
- Priorize candidaturas de mulheres cis negras, pessoas LGBTQIA+ e aliadas com atuação real junto aos coletivos da sua cidade.
- Não vote em pessoas LGBTQIA+ filiadas a partidos com projetos contrários à comunidade, nem em candidaturas fundamentalistas ou autoritárias que atacam também mulheres, povos indígenas, quilombolas e o meio ambiente.
Um recado explícito do documento: nenhum partido prioriza a pauta trans, e isso não é negociável. Partidos são meios, não fins.
O que a ANTRA pede de quem se candidata
Para candidaturas que se dizem aliadas, o documento elenca compromissos concretos:
- contratar pessoas trans na pré-campanha, na campanha, em gabinetes e assessorias;
- defender publicamente os direitos trans antes e depois do pleito;
- garantir distribuição paritária de recursos entre os segmentos da comunidade LGBTQIA+;
- destinar emendas e apoio institucional a organizações lideradas por travestis, mulheres transexuais, homens trans, pessoas transmasculinas e não binárias;
- criar frentes parlamentares, realizar audiências públicas e fortalecer conselhos LGBTQIA+;
- articular internamente contra projetos transfóbicos e denunciar medidas do Executivo que ataquem a dignidade dessa população;
- assegurar que travestis e mulheres transexuais acessem a cota feminina e tenham estrutura material e financeira para disputar em igualdade.
Uma distinção que não deve ser apagada
Vale reforçar: travesti, mulher transexual, homem trans e pessoa não binária são identidades, com histórias e demandas próprias. Crossdresser é outra coisa — fala de expressão de gênero e pode ou não envolver identidade trans. Drag é performance artística. Misturar tudo empobrece a conversa e apaga lutas específicas, inclusive a de travestis, que estão no centro dessa carta.
Privacidade e segurança ao se engajar
Política é espaço público, mas você não precisa abrir sua vida inteira. Evite divulgar endereço, documentos e rotina em grupos abertos de campanha. Desconfie de qualquer proposta de dinheiro, cargo ou vantagem em troca de voto ou apoio: isso é crime eleitoral. E, se você usa nome social, mantenha o cadastro eleitoral atualizado — o voto é secreto e o nome social aparece apenas onde é necessário, não para o público.
A carta da ANTRA é, no fim, um convite: informar-se, ocupar espaços e cobrar de quem pede seu voto o compromisso com a vida de pessoas trans.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Ao apoiar campanhas, não compartilhe endereço, documentos ou rotina em grupos abertos; proteja sua identidade online.
- Desconfie de ofertas de dinheiro, cargos ou vantagens em troca de voto ou apoio: é crime eleitoral.
- Mantenha seu título eleitoral com nome social atualizado; o voto é secreto e o nome social não é divulgado ao público.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Recomendamos a leitura do original.
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